Irão nega ligação ao ataque e culpa Rushdie

Líder supremo condenou o escritor à morte em 1989 e decreto nunca foi revogado. Fundação semioficial dá três milhões de dólares.

O Irão rejeitou esta segunda-feira qualquer ligação ao ataque contra o escritor Salman Rushdie, na sexta-feira, em Nova Iorque, alegando que os únicos "dignos de culpa" são o autor de Os Versículos Satânicos e os seus apoiantes. "Negamos categoricamente" qualquer ligação ao ataque e "ninguém tem o direito de acusar a República Islâmica do Irão", disse o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Nasser Kanani, na primeira reação oficial de Teerão ao ataque contra o escritor que no domingo foi retirado do ventilador.

Em 1989 Rushdie foi alvo de uma fatwa emitida pelo então líder supremo iraniano, o ayatollah Khomeini, que exigiu a sua morte por causa do livro Os Versículos Satânicos - cuja representação do profeta Maomé é vista como uma blasfémia. "Neste ataque, não consideramos outro que Salman Rushdie e os seus apoiantes dignos de culpa e até condenação", referiu o porta-voz na sua conferência de imprensa semanal. "Ao insultar os assuntos sagrados do Islão e cruzar as linhas vermelhas para mais de 1,5 mil milhões de muçulmanos e todos os seguidores das religiões divinas, Salman Rushdie expôs-se à raiva e à fúria das pessoas", disse.

A fatwa do falecido Khomeini ainda está válida, com o atual líder supremo a dizer ainda em 2017 que o decreto se mantém igual ao original. Isto apesar de em 1998 o governo do reformista Mohammad Khatami ter assegurado ao Reino Unido que não seria implementada.

Desde o primeiro minuto que Londres ofereceu proteção policial ao escritor britânico (tem também nacionalidade norte-americana) nascido na Índia há 75 anos, meses antes da independência. Um porta-voz de Downing Street considerou esta segunda-feira "ridículo" sugerir que Rushdie foi de alguma forma responsável pelo ataque "abominável" contra si. "Este não foi apenas um ataque a ele, foi um ataque ao direito à liberdade de expressão e o governo britânico está do seu lado e da sua família e defendemos igualmente a liberdade de expressão em todo o mundo".

Apesar de o Irão rejeitar qualquer ligação ao ataque, uma fundação semioficial mantém uma recompensa de três milhões de dólares pela morte do autor - razão pela qual os procuradores norte-americanos que acusaram o alegado atacante pediram para não ser permitida a sua liberdade sob fiança, avisando que esta pode ser paga. Hadi Matar, de 24 anos, foi acusado de "tentativa de homicídio e agressão", declarando-se inocente num tribunal de Chautauqua, localidade no estado de Nova Iorque onde decorreu o ataque.

O secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, não apontou oficialmente o dedo ao Irão, mas criticou o governo iraniano numa declaração em que destacou a luta de Rushdie pela liberdade de expressão e de religião. "As instituições do Estado iraniano incitaram à violência contra Rushdie durante gerações e os media ligados ao Estado recentemente gabaram-se do ataque contra a sua vida. Isto é desprezível", indicou num comunicado, no domingo.

susana.f.salvador@dn.pt

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