Hora da verdade para bloco da mudança em Israel

Depois de quatro eleições em dois anos, a sobrevivência de Netanyahu passa pelo fracasso das negociações e nova ida às urnas.

Menos de 24 horas depois de Benjamin Netanyahu ter notificado o presidente Reuven Rivlin de que as negociações para formar governo falharam ao fim de 28 dias, Rivlin decidiu entregar a tarefa ao candidato que ficou em segundo lugar nas eleições de 23 de março: Yair Lapid, do centrista Yesh Atid, que recebeu a recomendação de 56 deputados em 120. Apesar de haver vontade de quebrar o impasse político e formar um executivo sem o atual primeiro-ministro, o sucesso da iniciativa é incerto, até porque Netanyahu, a contas com a justiça, tudo fará para continuar em jogo.

As negociações entre os partidos da oposição (o chamado bloco da mudança) já começaram há muito e é dado como assente que, a ter êxito, o plano passa por conceder ao líder do partido de direita Yamina, o ex-ministro da Defesa Naftali Bennett, o primeiro ano da legislatura como chefe do governo de coligação. O que é bem demonstrativo das concessões necessárias para se chegar a um acordo, tendo em conta que o Yamina teve apenas 6,2% dos votos.

Bennett foi o alvo do partido de Netanyahu, o Likud, pelo insucesso do seu líder. "Devido à recusa de Bennett em comprometer-se com um governo de direita, uma medida que teria definitivamente conduzido ao estabelecimento de um governo com a adesão de mais deputados, o primeiro-ministro Netanyahu devolveu o mandato ao presidente", disse o Likud.

Pela primeira vez Netanyahu abriu negociações com um líder árabe, Mansour Abbas, mas os seus aliados sionistas e ultraortodoxos recusaram.

Bennett sabe que também ele e o seu partido terão de ceder, ao ponto de dizer que o governo não é o dos seus sonhos. "Um governo assim não será capaz de impor a soberania sobre partes da terra de Israel, algo em que acredito realmente depois de dezenas de anos em que nenhum governo, incluindo o de Netanyahu, impôs a soberania sobre toda a terra de Israel. Mas também não vai transferir território", escreveu no Facebook. Também previu que um governo de coligação nacional também não será capaz de fazer reformas no sistema judicial.

Talvez por isso este homem tenha conversado até ao fim com Netanyahu, que pela primeira vez ofereceu o seu cargo de líder de Israel no primeiro ano de mandato (com Benny Gantz a oferta era para este assumir o Executivo no segundo ano). Mas fosse pelo Likud, fosse pelo bloco da mudança, a aritmética obriga a incluir partidos religiosos (judaicos e ou islamistas) num acordo de governo.

Numa iniciativa inédita, o Likud entrou em conversações com o líder do partido árabe Ra"am (Lista Árabe Unida), Mansour Abbas, que há um mês fez um discurso histórico no qual estendeu a mão a quem queira formar governo. Mas, como aponta David Horovitz, diretor do Times of Israel, os partidos sionistas e ultraortodoxos, aliados de Netanyahu, recusaram sentar-se à mesma mesa do que os árabes.

Com a abertura de Abbas, bem como de parte da outra formação árabe (Lista Conjunta) o caminho para formar um governo de todos-menos-Netanyahu, apoiado por 43% dos israelitas, ganha tração. Mas o primeiro-ministro em exercício já demonstrou, mais que uma vez, como ficar por cima.

cesar.avo@dn.pt

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