Governo critica Juan Carlos: "Perdeu a oportunidade de dar explicações e pedir perdão"

Rei emérito esteve com o filho Felipe VI no palácio da Zarzuela antes de voltar para Abu Dhabi.

O rei espanhol, Felipe VI, reencontrou-se esta segunda-feira no palácio da Zarzuela com o pai, Juan Carlos. Após dois anos num autoexílio em Abu Dhabi, devido a uma série de escândalos financeiros pelos quais a justiça decidiu que não poderá ser acusado, o rei emérito regressou na semana passada a Espanha, numa curta visita que está a ser alvo de críticas. Até da parte do governo de Pedro Sánchez. "Perdeu a oportunidade, que os espanhóis esperavam, de dar explicações e pedir perdão", disse a ministra da Política Territorial e porta-voz do governo, Isabel Rodríguez. Juan Carlos, de 84 anos, tinha previsto regressar à noite aos Emirados Árabes Unidos, onde vive desde agosto de 2020, mas vai voltar.

O reencontro entre pai e filho foi apresentado pela Casa Real como "um encontro familiar no âmbito privado", não tendo sido sequer revelado quem estava presente além de Sofia, que continua casada com Juan Carlos. Não são esperadas fotos do evento. Quando questionado pelos jornalistas sobre o que esperava do filho, o rei emérito respondeu: "Muitos abraços".

Durante décadas Juan Carlos foi elogiado pelo seu papel na transição democrática, após a morte de Franco em 1975. Mas os escândalos mancharam a sua reputação e estas visitas arriscam prejudicá-lo ainda mais diante de muitas pessoas, segundo a ministra: "São espanhóis que acreditaram no seu trabalho, que deram valor ao seu papel, são espanhóis que acreditaram nele e que ficaram dececionados pelos seus atos nada éticos, nem nada exemplares. Deveria ter pedido perdão. Perdeu uma oportunidade para dar uma resposta." Em Madrid houve no fim de semana uma manifestação contra o rei emérito, que foi recebido por apoiantes à entrada da Zarzuela.

Juan Carlos, que abdicou do trono a favor de Felipe VI em junho de 2014, chegou a Espanha num avião privado na quinta-feira, para assistir a uma regata de três dias em Sanxenxo, na Galiza, onde entrava o seu iate. A visita, muito mediática e não discreta como teria preferido a Casa Real, surgiu após meses de negociações, com o governo a rejeitar a hipótese de ele ficar na Zarzuela - agora ou no futuro. Juan Carlos já terá prometido voltar para outro evento náutico, em junho. Questionado por uma jornalista se deveria dar explicações depois de quase dois anos fora do país, limitou-se a responder: "Explicações de quê?"

Para a Moncloa, as atividades económicas conhecidas do rei emérito "não são compatíveis com a exemplaridade e transparência" que o atual monarca tem defendido. "Está a fazer um exercício formidável de transparência", referiu sobre Felipe VI, que em abril tornou público o seu património pessoal, de cerca de 2,5 milhões de euros. Em março de 2020, quando os escândalos do pai começaram a vir a público, o rei não só cortou no dinheiro que Juan Carlos recebia dos cofres públicos, como renunciou a qualquer herança.

O Podemos, na coligação de governo, exigiu que o rei seja "mais honesto e transparente" que o pai e dê explicações. Já o líder do PP, Alberto Núñez Feijóo, acusou o governo de "desprestigiar" a chefia do Estado, com vários dirigentes a lembrar que o rei emérito não tem nenhum processo pendente na justiça e é livre de voltar ao seu país.

susana.f.salvador@dn.pt

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