Golpe militar em Conacri "para dar ao povo a sua liberdade" 

Comandante das forças especiais insurgiu-se contra deriva autoritária do país e promete transição inclusiva e pacífica.

Meio mundo protestou pelo golpe militar realizado no domingo à noite em Conacri, que culminou com a detenção do presidente Alpha Condé, mas milhares de pessoas saíram às ruas da capital da República da Guiné, apesar da condenação internacional, para expressar apoio aos golpistas.

O país de 13 milhões de habitantes, apesar das riquezas naturais, mantém-se como um dos mais pobres, e a degradação do ambiente económico e político, este último devido à mudança da Constituição para Condé poder concorrer a um terceiro mandato, terão desencadeado mais um golpe em África, depois do ocorrido no Mali, embora, segundo a AFP, os diplomatas e os meios de comunicação locais afirmaram que um dos fatores subjacentes ao golpe pode ter sido um confronto com o governo sobre o controlo do Ministério da Defesa sobre as forças especiais.

O coronel Doumbouya citou o antigo líder do Gana, Jerry Rawlings, que tomou o poder num golpe de Estado antes de instituir uma democracia.

O tenente-coronel Mamady Doumbouya, o líder do golpe na Guiné, é o comandante das forças especiais, um militar que recebeu educação superior em França e que serviu em tempos na Legião Estrangeira francesa. Ontem, Doumbouya convocou com caráter de obrigatoriedade os ministros e outros titulares de órgãos dissolvidos pela força das armas. Doumbouya comprometeu-se a supervisionar uma "transição inclusiva e pacífica", prometeu que não iria executar uma caça às bruxas e deu um sinal às empresas que operam no país, em especial as da indústria mineira, para continuarem.

"Houve muitas mortes por nada, muitos feridos, muitas lágrimas", disse em referência à repressão sangrenta de Condé contra os protestos que eclodiram devido ao adiamento das eleições legislativas e ao referendo para acabar com a limitação de mandatos do presidente, que teve lugar em março de 2020. Dezenas de pessoas morreram durante os protestos.

Na sua alocução, Doumbouya deu uma visão do seu pensamento ao invocar o falecido líder do Gana, Jerry Rawlings, que tomou o poder através de um golpe de Estado em 1981, antes de supervisionar uma mudança para a democracia. "Se o povo é esmagado pelas suas elites, cabe ao exército dar ao povo a sua liberdade", disse Doumbouya, citando Rawlings.

Resta saber se o militar cumprirá (ou deixarão cumprir) a palavra ou se repetirá o que fizeram os anteriores líderes do país. O homem que liderou o movimento de independência da França, Ahmed Sekou Touré, governou com punho de ferro durante um quarto de século e, segundo organizações de defesa dos direitos, deixou um rasto de 50 mil mortos ou desaparecidos. O militar que se seguiu, Lansana Conté, não deixou melhor registo, apesar das "eleições" em que registava vitórias na ordem dos 95%. Opositor de Conté, Alpha Condé foi preso e condenado num processo político, pelo que quando venceu as eleições de 2010, houve esperança na democratização e progresso do país, mas este acabou numa deriva autoritária.

"Não estamos aqui para nos divertirmos com o poder, não estamos aqui para jogar, vamos aprender com todos os erros que foram cometidos", disse Doumbouya ao canal France 24.

cesar.avo@dn.pt

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