O rei Felipe Vi nomeou ontem o líder do Partido Popular (PP), Alberto Núñez Feijóo, como candidato à investidura. A decisão do monarca foi tomada após o final das consultas com os líderes parlamentares, durante as quais tanto Feijóo como o socialista Pedro Sánchez mostraram a sua disponibilidade para assumir o desafio. Nenhum deles tem os votos necessários para vencer. A data do debate de investidura será mais tarde revelada pela presidente do Congresso, Francina Armengol, que terá que jogar com a hipótese de, caso seja necessário ir de novo a votos, as eleições não caiam no Natal.."O PP foi o grupo político com maior número de lugares [no Congresso]. Nesse sentido, exceto a XI Legislatura, em todas as eleições o grupo político que obteve o maior número de lugares foi o primeiro a ser proposto. Esta prática converteu-se, com o passar dos anos, num hábito. O rei não constatou, ao dia de hoje, a existência de uma maioria suficiente para a investidura que fizesse cair esse hábito", informou a Casa Real em comunicado, após Armengol revelar a decisão do rei.."Agradeço ao rei a decisão de nomear-me candidato à presidência do Governo. Daremos voz aos mais de 11 milhões de cidadãos que querem mudança, estabilidade e moderação com um Governo que defenda a igualdade de todos os espanhóis", reagiu Feijóo no Twitter (rebatizado X)..Twittertwitter1694055633081807007.Será a líder do Congresso que terá que escolher a data do debate de investidura, querendo primeiro ouvir a preferência de Feijóo. Caso o desejo seja de uma investidura rápida, já para a semana, e o líder do PP falhar, começa a contar o prazo de dois meses para se tentar uma nova investidura. Findo esse prazo, será preciso convocar novas eleições, no prazo de 47 dias. Neste cenário, a eleição seria a 17 de dezembro. Se as coisas se atrasarem, mais vale esperar pelo menos três semanas, para garantir que a eventual repetição eleitoral não calha no Natal ou no Ano Novo.."Sou o candidato do partido que ganhou as eleições de 23 de julho, há quatro formações políticas que somadas têm 172 deputados, a quatro da maioria absoluta, e entendo que pôr-me à disposição do chefe de Estado é o meu dever", disse Feijóo após o encontro com o rei, onde deixava já antever que tinha sido o escolhido pelo monarca ao dizer "aceito" e mudar para "aceitaria" a nomeação "na qualidade de vencedor das eleições"..O monarca optou por Feijóo - que disse que irá procurar negociar mais apoios a partir de segunda-feira - apesar de Sánchez, com quem reuniu antes, ter considerado que não via qualquer sentido que o líder do PP se submetesse à investidura, alegando que seria só um "trâmite de exibição". Contudo, deixou também claro que não iria opor-se se essa fosse a decisão do monarca. "Seria uma investidura fracassada. Se Feijóo quer encarar a realidade pela terceira vez está no seu direito, é uma decisão que deve tomar", disse o líder socialista aos jornalistas, após o encontro.."Só há uma maioria possível. Não há outra alternativa a não ser reeditar um Governo de progresso que consolide os avanços", reiterou Sánchez, que dizia estar preparado para assumir ele essa responsabilidade e conseguir a investidura. O líder socialista precisa do apoio dos partidos independentistas catalães, sendo que estes exigem uma amnistia para os presos do processo do referendo de 2017 - que só foram indultados. Questionado diretamente sobre essa amnistia, Sánchez disse que irá "manter a coerência" com o que tem vindo a fazer. "O diálogo é o método e a Constituição é o marco", disse. Até recentemente, o Governo dizia que a amnistia era inconstitucional..Na prática, neste momento, Feijóo tem mais apoios do que Sánchez. Enquanto o primeiro recebeu o aval do Vox, da Coligação Canárias e da União do Povo Navarro - num total de 172 votos - o socialista só conta oficialmente com os apoios do seu próprio partido e do Sumar, ou seja, 152 votos. Mas Feijóo tem todas as outras portas fechadas, enquanto as de Sánchez estão abertas..No debate de investidura, um candidato precisa de maioria absoluta para ser eleito à primeira volta, bastando uma maioria simples na segunda votação. Tendo em conta os apoios que Feijóo já tem, Sánchez precisa do aval de todos os outros partidos, incluindo o Junts per Catalunya, do autoexilado ex-líder catalão Carles Puigdemont. Sem os sete votos deste partido, terá só 172 apoios - os mesmos que Feijóo..Depois do ultimato da véspera, o líder do Vox acabou por transmitir ao rei a sua disponibilidade em apoiar Feijóo, apesar de ter condicionado esse apoio a que o PP não colabore em "cordões sanitários" contra o seu partido - o terceiro mais votado nas eleições. Segundo Abascal, o facto de Sánchez depender de "terroristas" e de um "prófugo da justiça", representa "a maior ameaça à unidade, convivência, prosperidade e legalidade vigente" em Espanha. .O Vox tinha exigido explicações públicas ao PP em relação à decisão de deixar o partido de fora da Mesa do Congresso - algo que custou o apoio da extrema-direita à candidata popular à presidência desde órgão de soberania. Mas o partido de Feijóo recusou responder, mostrando-se confiante de que na hora da verdade a formação de Abascal votará ao seu lado..Na conferência de imprensa após o encontro com o rei, o líder do PP agradeceu às três formações políticas que lhe deram o seu apoio - entre elas o Vox. Feijóo disse que mantém com este partido "uma relação de normalidade com o objetivo de defender" o país. "Como com qualquer outro partido, pode haver discrepâncias e mal-entendidos. Falei com o senhor Abascal, clarificamos os mal-entendidos e avaliámos as discrepâncias", disse..susana.f.salvador@dn.pt