Fakeada? Alexandre Frota quer investigar "farsa" do atentado a Bolsonaro

Documentário que levanta a possibilidade do ataque de 6 de setembro de 2018 ter sido forjado encaixa nas suspeitas do deputado que já pediu uma CPI. Carlos Bolsonaro é figura central do caso, segundo o filme

O deputado brasileiro Alexandre Frota pediu na segunda-feira, dia 13, a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a facada de que Jair Bolsonaro foi alvo no dia 6 de setembro de 2018, um dia e um mês antes da primeira volta da eleição presidencial daquele ano. Motivou o pedido de Frota, um ex-bolsonarista hoje no PSDB, de centro-direita, um documentário lançado na véspera a levantar a possibilidade de o atentado ter sido forjado pelo próprio candidato.

"A investigação deixa muitas dúvidas, muitas perguntas sem respostas e temas que deviam ter sido investigados mais a fundo, por isso, seria muito importante que essa CPI fosse adiante", disse Alexandre Frota ao DN. "Fiz o meu dever como deputado, o documentário levanta algumas suspeitas que eu já tinha, inclusivamente, porque essa investigação não prosseguiu como deveria ter prosseguido", continua o ex-ator, que chegou a tentar visitar Bolsonaro no dia do atentado, sem sucesso.

O documentário em causa foi exibido no site Brasil 247 sob o título "Bolsonaro e Adélio, Uma Fakeada no Coração do Brasil, referindo-se aos nomes do agredido e do agressor e utilizando um jogo de palavras entre "facada" e "fake".

O ataque a Bolsonaro ocorreu em Juiz de Fora, cidade do estado de Minas Gerais, durante um ato de campanha. Atingido no abdómen, o candidato foi atendido logo depois na Santa Casa da Misericórdia da localidade e, mais tarde, transferido para o hospital israelita Albert Einstein, em São Paulo. O autor do atentado, Adélio Bispo de Oliveira foi preso em flagrante e está, desde 2019, numa prisão de alta segurança na cidade de Campo Grande.

No documentário, de 1h44m, o jornalista Joaquim de Carvalho questiona a relação de Carlos Bolsonaro, segundo filho do hoje presidente, vereador do Rio de Janeiro e considerado chefe informal da comunicação do pai, com Adélio: dois meses antes do atentado, os dois tinham coincidido num clube de tiro na cidade de Florianópolis, à partida fora do alcance financeiro do agressor, a viver na altura numa pensão humilde sem sequer casa de banho privada.

A pista não foi seguida porque a dona do clube, Júlia Zanatta, negou que eles tivessem estado juntos - ela seria candidata a prefeita pelo partido de Bolsonaro dois anos depois e ganharia um cargo no ministério do Turismo, liderado à época por Marcelo António, que estava em Juiz de Fora.

Segundo o filme, foi só depois de Florianópolis que Adélio passou a publicar críticas a Bolsonaro nas redes sociais.

O documentário, que já tinha perto de um milhão de visualizações na última quinta-feira, levanta questões como a dispensa de colete à prova de bala por Bolsonaro, ao contrário do que era hábito, e a presença, incomum, de Carlos Bolsonaro na comitiva. Além da utilização de uma equipa de segurança diferente da do costume, sendo que quase todos os guarda-costas, apesar de terem cometido falhas gritantes segundo especialistas, acabaram promovidos - um deles, João Paulo Dondelli, o primeiro a agarrar Adélio, está desde o mês passado a receber perto de 16 mil euros na embaixada do Brasil em Portugal.

O autor do filme pergunta ainda quem paga os honorários do advogado (e também tutor) de Adélio e por que razão a família Bolsonaro não recorreu da decisão de um juiz que considerou o agressor "inimputável" depois de ter publicamente discordado dela.

Do ponto de vista médico, são revelados dois vídeos. Um, seis meses antes do ataque, onde Bolsonaro admite ter problemas digestivos e pede orações, com a sua mão e a da mulher Michelle Bolsonaro na região do estômago, durante um culto evangélico. Noutro, o então candidato toma dois comprimidos horas antes do atentado. O hospital Albert Einstein, entretanto, é acusado de não ter entregado o prontuário médico de Bolsonaro à polícia.

"Bolsonaro forjou a facada e aproveitou para tratar um cancro, benigno, que precisava de operar, e assim, juntou a fome à vontade de comer", disse Alexandre Frota à imprensa brasileira. "Foi uma farsa com requintes cinematográficos que levou Bolsonaro de oito segundos de campanha na televisão para 24 horas por dia - assim foi eleito".

São, finalmente, recuperados depoimentos do empresário Paulo Marinho, o proprietário do imóvel que serviu de quartel-general à campanha de Bolsonaro, e da deputada Joice Hasselmann, à época indefectível apoiante do candidato. Ao empresário, Bolsonaro terá dito que, graças ao atentado, já estava eleito; e à deputada, teria previsto, semanas antes de Juiz de Fora, que "se levasse uma facada venceria a eleição". Steve Bannon, estratega de Donald Trump nos EUA, sugeriu após encontro um mês antes do ocorrido com o deputado Eduardo Bolsonaro, terceiro filho do presidente, a possibilidade de Bolsonaro sofrer um ataque.

Frota viveu o dia do atentado por dentro. Segundo ele, ao tomar conhecimento do caso, dirigiu-se ao hospital em que Bolsonaro estava internado mas, conta, o então coordenador da campanha, o já falecido ex-ministro Gustavo Bebianno, impediu-o de subir ao quarto do candidato. "Disse-me que não podia, que não queriam".

O deputado, já em processo de recolha de assinaturas para instaurar a CPI, vai escolher a deputada Erika Kokay (PT) como relatora e o deputado Junior Bozzella (PSL) como presidente.

Oficialmente, ninguém do governo comentou mas Carlos Bolsonaro chamou a peça jornalística de "fake news". E jornalistas, como Samuel Pancher, do Metrópoles, ou Rafael Moro Martins, do The Intercept, desvalorizaram o trabalho: "Polícia federal, militar e civil, médicos da Santa Casa de Juiz de Fora e do Albert Einstein, ministério público, centenas de pessoas que teriam de fazer parte da conspiração (...) mas cada uma acredita nas fábulas que preferir", disse o primeiro. Para o segundo, acreditar na teoria de atentado forjado é como crer na lenda de que Lula da Silva cortou o próprio dedo enquanto metalúrgico para não trabalhar mais.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG