Facada de 2018 em Bolsonaro entrará na campanha de 2022

Presidente foi internado no dia 3 com obstrução intestinal por ter engolido um camarão. Após a alta, no entanto, o atentado de Juiz de Fora voltou à atualidade, por iniciativa dos seus apoiantes. "Estratégia", dizem observadores

Um camarão mal mastigado num almoço de férias no litoral do estado de Santa Catarina esteve na origem da internação de Jair Bolsonaro, num hospital de São Paulo, no último dia 3, com um quadro de obstrução intestinal, de acordo com o presidente da República e com o médico Antônio Luiz Macedo. No entanto, a reboque do camarão, o atentado à faca, um mês antes das eleições que acabaram por levar o então deputado federal ao Palácio do Planalto em 2018, voltou à atualidade política, puxado pelas redes sociais dos apoiantes do governo.

"Eu não almoço, eu engulo. A peixada tinha uns camarõezinhos também, comi e mastiguei o peixe e engoli o camarão", disse o próprio Bolsonaro, depois de admitir não conseguir controlar a dieta e a ânsia à mesa. O seu clínico particular completou: "Ele está de boa saúde e vai ter alta, o camarão não foi mastigado, é o que ele está explicando, nós pedimos para que todos façam o que nós fazemos: mastigar 15 vezes cada garfada".

Digerido o assunto do camarão, a conversa de Bolsonaro com a imprensa à saída do hospital passou num ápice para o ataque na cidade de Juiz de Fora, perpetrado a 6 de setembro de 2018 por Adélio Bispo de Oliveira, um desempregado, missionário evangélico e ex-militante do partido de esquerda PSOL. "A minha preocupação é com a segurança. Nós não sabemos até onde o outro lado pode chegar", afirmou Bolsonaro, vestido com uma camisa do clube de futebol paulistano Juventus da Mooca sobre um colete à prova de balas.

"A gente sabe como é a política brasileira depois que a esquerda se fez mais presente, como eles são agressivos, como eles têm tentado eliminar o seu adversário, não interessa como", acrescentou, antes de se dedicar a comentar a atualidade política e aproveitar para atacar Lula da Silva, o candidato de esquerda que está cerca de 25 a 30 pontos à sua frente, segundo as sondagens dos principais institutos de pesquisa brasileiros.

Nas redes sociais, entretanto, o vereador Carlos Bolsonaro, segundo dos três filhos políticos do presidente e chefe informal da comunicação do governo, lançou o tema "facada" no Twitter. "Crer que a facada de antigo filiado do PSOL foi um ato isolado, não é inocência".

O senador Flávio Bolsonaro, primogénito de Jair, continuou: "Graças a Deus, o meu pai passa bem". "Cada vez que ele passa por isso é impossível não nos indignarmos com a mentira de que Bolsonaro tem discurso de ódio, quando, na verdade, ele é a vítima do ódio de um ex-militante do PSOL e de mal-amados hipócritas desejando a sua morte".

Para a primeira-dama Michelle Bolsonaro, a internação do marido "é decorrente do atentado que sofreu em 2018, uma sequela que levaremos para o resto das nossas vidas".

A deputada Carla Zambelli, fiel apoiante de Bolsonaro, sublinhou que a internação é "mais uma consequência da tentativa de assassinato que o presidente sofreu em 2018", enquanto o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, reiterou que a internação "foi por conta do atentado de 2018 ele ainda sofre consequências", omitindo o papel do camarão engolido às pressas.

Na imprensa, as reações dos apoiantes de Bolsonaro foram vistas como parte de uma estratégia política de vitimização. "A facada deixou sequelas", admitiu o colunista do portal UOL Leonardo Sakamoto. "Ao mesmo tempo, também deixou dividendos eleitorais que o então candidato à presidência soube explorar muito bem para faltar a debates (mesmo que médicos tenham deixado claro, naquele momento, que ele poderia participar) e que, pelos vistos, ele pretende colher também em 2022".

Para o jornalista, "a rapidez com a qual o bolsonarismo transformou a internação num debate sobre o atentado ao presidente mostra como isso continuará sendo peça central da narrativa que adotará na campanha eleitoral deste ano: vão vender a história de Jair Messias, um homem que ainda sofre as consequências de se dispor a trabalhar pelo seu povo - mesmo que ele tenha fugido do trabalho nos últimos três anos como o diabo foge da cruz".

"O presidente mira, especialmente, o "bolsonarismo-raiz" - aqueles 15% da população que acreditam em absolutamente tudo o que ele diz. Esse grupo, que é capaz até de atender a um pedido de seu líder para ajudar num golpe de Estado em 2022, precisa ser alimentado de tempo em tempos, principalmente quando Bolsonaro é alvo de críticas", finaliza Sakamoto.

A colunista Olga Curado acrescenta que "posar na foto como vítima, em cama de hospital, para mobilizar o público, não funcionou para o ex-capitão". "O pré-candidato à reeleição trocou o figurino e agora treina o discurso da campanha eleitoral, se apresentando como perseguido, potencial alvo de adversários violentos que tentarão destruí-lo. Quer ser visto como um mártir em autoimolação pela pátria. Uma fantasia de ocasião".

Em paralelo, foi noticiado que a Polícia Federal transferiu Rodrigo Fernandes, o delegado responsável pelo caso do atentado para os EUA, nomeando Martin Purper em substituição. "O processo foi reaberto depois de praticamente três anos, esperamos que a Polícia Federal aprofunde mais, porque até conseguimos agora adentrar ao telefone dos advogados", afirmou Bolsonaro, depois de receber alta. "No meu entender, não está difícil de desvendar esse caso. Agora, vai chegar em gente importante com toda a certeza e não há dúvida da tentativa de homicídio".

Rodrigo Fernandes concluiu no primeiro inquérito que o autor da facada agiu "por inconformismo político" e num segundo que atuou "sozinho, por iniciativa própria, sem mandantes nem a participação de partidos políticos, organizações criminosas, grupos terroristas ou mesmo paramilitares em qualquer das fases do crime". Mais tarde, foi quebrado o sigilo telefónico e bancário de Zanone Oliveira, advogado de Bispo, sem que se chegasse a nenhuma conclusão.

Adélio Bispo de Oliveira, hoje com 43 anos, foi absolvido do ataque por ser considerado inimputável e por isso a sua pena foi convertida numa internação psiquiátrica por tempo indeterminado na penitenciária de Campo Grande, capital do estado do Mato Grosso no Sul.

Em setembro, o documentário "Bolsonaro e Adélio, Uma Fakeada no Coração do Brasil", utilizando um jogo de palavras entre "facada" e "fake", questionou a veracidade do atentado. Com mais de 1,5 milhões de visualizações, o filme lembra a relação de Carlos Bolsonaro com Adélio: dois meses antes do atentado, os dois coincidiram num clube de tiro na cidade de Florianópolis, à partida fora do alcance financeiro do agressor, e revela vídeos de antes do ataque, onde Bolsonaro já admite ter problemas digestivos e pede orações, com a sua mão e a da mulher Michelle na região do estômago, durante um culto evangélico.

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