Primeiro deu-se uma concentração de meios militares dos Estados Unidos de dimensão comparável àquela posta ao serviço da invasão do Iraque, em 2003. Depois, na senda de várias ameaças proferidas desde janeiro, quando o regime iraniano matou e encarcerou manifestantes aos milhares, o presidente norte-americano, ao garantir que impedirá o Irão de alcançar a sua “sinistra ambição nuclear” no discurso do Estado da União, na terça-feira à noite, lançou as bases para uma operação militar. Algo que é dado como adquirido em Israel, onde aviões de reabastecimento e caças furtivos da força aérea dos EUA se acumulam, mas que quer o lado iraniano, quer o próprio Donald Trump dizem acreditar que pode ser impedido. Para tal acontecer reveste-se de especial importância a nova ronda de negociações indiretas entre as delegações de ambos os países, a ter lugar nesta quinta-feira em Genebra. A horas da reunião mediada por diplomatas do Omã na cidade suíça, Washington avançou com outra ferramenta para exercer “máxima pressão”, reavivando a campanha da primeira presidência de Trump protagonizada pelo secretário Mike Pompeo: sanções económicas. Desta vez o serviço responsável pelas sanções económicas do Tesouro dos Estados Unidos colocou quatro pessoas, todas de nacionalidade iraniana, empresas e 12 navios na sua lista negra. No caso, segundo um comunicado, os petroleiros fazem parte da “frota fantasma” que permite a Teerão contornar o embargo às suas exportações de crude e “financiar a repressão interna, os grupos terroristas a ela afiliados e os seus programas de armamento”. No total, 30 pessoas, empresas e entidades foram sancionadas, incluindo da Turquia e dos Emirados, relacionadas com o programa de armamento iraniano. A desvalorização da moeda iraniana, devido às sanções, conduziu ao início dos protestos contra a situação económica, no final de dezembro, que depois se transformaram em manifestações contra o regime dos ayatollahs. Antes de os Estados Unidos terem aplicado as sanções, o presidente Massoud Pezeshkian mostrou-se otimista num desfecho positivo. “Estamos a observar uma perspetiva favorável. Continuamos o processo sob a égide do guia supremo [Ali Khamenei], de forma a sair desta situação de ‘nem guerra nem paz’”, disse, citado pela TV iraniana..17Navios distribuídos pelo Mediterrâneo, Golfo Pérsico, mar Arábico, estreito de Ormuz. Além de dois porta-aviões, as frotas dos EUA são compostas por contratorpedeiros e navios de combate litoral. . Num discurso que ficará para a história por ser o mais longo sobre o Estado da União, Trump, que tinha dado 10 dias - mais tarde 15 - para se chegar a um acordo com os iranianos, traçou os limites da sua política: “A minha preferência é resolver este problema através da diplomacia. Mas uma coisa é certa: nunca permitirei que o maior patrocinador do terrorismo do mundo, que o é de longe, possua uma arma nuclear”, disse num dos poucos temas que uniu republicanos e democratas. Ainda assim, o presidente dos EUA não resistiu à tentação de distorção dos factos: disse que morreram 32 mil iranianos na onda de repressão (a ONG Hrana identificou 7007 mortos, entre manifestantes e forças de segurança, e diz estar a rever outros 11.744 casos). Também afirmou nunca ter ouvido os iranianos dizerem: “Nunca teremos a arma nuclear.” Mas foi exatamente isso que, horas antes do discurso, Abbas Araghchi, ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, declarou: “As nossas convicções fundamentais são cristalinas: o Irão, em circunstância alguma, desenvolverá jamais uma arma nuclear.”A advertência de Donald Trump acontece dias depois de o seu amigo e enviado especial Steve Witkoff ter partilhado publicamente o espanto presidencial de que os dirigentes iranianos não estão a pestanejar. “Não quero usar a palavra ‘frustrado’, porque ele sabe que tem muitas alternativas, mas pergunta-se por que é que eles não se renderam”, apesar “da pressão, com o poder marítimo e naval ali empregado”, disse à Fox News..200Aeronaves dos EUA, entre caças, reabastecedores, alerta aéreo antecipado (AWACS), comando e controlo, ou reconhecimento destacados para a região..Caso Trump decida avançar para uma operação militar - o que é dado como certo pelos media israelitas -, o aviso foi dado pelo chefe do Estado-Maior conjunto. Numa rara fuga de informação durante este mandato, ficou a saber-se que o general Dan Caine, ao avaliar os riscos de uma intervenção militar - para lá de impopular, uma vez que 69% dos norte-americanos defendem que os EUA só devem envolver-se perante ameaças diretas e iminentes -, concluiu que ataques contra o Irão comportam riscos, o maior do quais de arrastar o país para um conflito prolongado. O aviso de PetraeusConvidado pela revista Foreign Policy para analisar as hipóteses em cima da mesa, caso Trump decida pela via militar, o ex-comandante das forças dos EUA no Médio Oriente David Petraeus destacou algumas hipóteses: um ataque de demonstração de força; um ataque de decapitação; uma campanha aérea sustentada; um ataque aos navios lança-minas no estreito de Ormuz. O primeiro caso serviria para juntar à campanha de máxima pressão, para “mostrar-lhes o que podem sofrer se não chegarem a um acordo nuclear”. O também antigo diretor da CIA disse que as defesas aéreas do Irão estão especialmente vulneráveis depois da guerra dos 12 dias em junho passado, e que a força reunida é “muito potente e pode causar muitos danos”, mas duvida que um ataque provocasse uma mudança de regime. “Ainda não vemos as fissuras”, comentou. Por outro lado, Petraeus aconselhou cautela, tendo em conta o sucedido na operação de rapto do líder venezuelano Nicolás Maduro. “Temos sido extremamente bem-sucedidos nas nossas operações militares. Tivemos sorte, se assim se pode dizer, no que fizemos. A operação Maduro foi muito mais arriscada do que as pessoas imaginam. O piloto principal da aeronave líder, que transportava tropas especiais, foi atingido três vezes na perna enquanto pousava a aeronave. Por milagre, conseguiu manter-se no ar.”.CIA instrui potenciais informadores iranianos Agência norte-americana explica como contactar os seus serviços de forma segura. “Interferência flagrante”, diz Teerão. "Olá. A CIA ouve-vos e quer ajudar-vos”, escreveu a agência de serviços de informações dos EUA nesta mensagem redigida em farsi e difundida nas suas redes sociais. “Aqui estão alguns conselhos para fazer uma chamada virtual segura connosco”, prossegue o vídeo, com instruções para os opositores iranianos contactarem a CIA sem que possam ser identificados pelas forças de segurança da teocracia. Teerão condenou o vídeo.A mensagem recomenda a quem queira contactar a CIA utilizar um telefone descartável, bem como a versão mais recente do navegador de internet. O potencial informador é ainda aconselhado a ativar o modo de navegação privada e a apagar o histórico do navegador, bem como o do equipamento após ter estabelecido contacto. Em poucas horas, o vídeo atingiu milhões de visualizações. A resposta foi dada pela embaixada do Irão nos Países Baixos, também nas redes sociais. “Eles já nem sequer fingem. Quando a CIA divulga um vídeo em farsi e ensina os iranianos a contactá-la, isto já não é diplomacia; é uma interferência flagrante”, lê-se na conta da representação diplomática no X. “Imagine a indignação se os papéis fossem invertidos. O duplo padrão foi exposto.” Em 2013, a CIA admitiu ter tido um papel central na desestabilização do Irão em 1953, e em 2023 foi mais longe, ao considerar a operação que derrubou o primeiro-ministro Mohammad Mosaddegh de “antidemocrática”. Em nota à Associated Press, a missão do Irão nas Nações Unidas descreveu o golpe de 1953 como “o início da intromissão implacável dos Estados Unidos nos assuntos internos do Irão”.O autor do livro L’atlas secret du renseignement (em português, Atlas secreto dos serviços de informações) Bruno Fuligni recorda que não se recruta espiões de um dia para o outro e que o objetivo da mensagem pode ser outro: “Uma mensagem deste tipo também pode ter a natureza de atiçar a paranoia do regime, de criar realmente uma espécie de ‘espionite’ no Irão de forma a desestabilizar um pouco mais o regime. É um regime que é extremamente desconfiado. E se começarmos a ver um espião em cada funcionário, em cada oficial, em cada responsável, então isso, inevitavelmente, desorganiza-o”, disse o escritor e historiador à TF1. No Irão, o acesso dos cidadãos comuns à internet é restrito, tendo estes de recorrer ao serviço de redes virtuais privadas (VPN) para aceder a redes sociais. No entanto, durante os protestos as comunicações foram totalmente cortadas. .Via rápida na condenação à morte Sete manifestantes foram sentenciados em tempo recorde e sem advogados. Sete cidadãos iranianos condenados à morte na sequência dos protestos que abalaram o regime em janeiro só tiveram acesso a um advogado depois da sentença ter sido proferida em primeira instância e com uma celeridade surpreendente. Acusados de “inimizade contra Deus”, “corrupção na terra”, “incêndio de bens públicos” e “conluio com o objetivo de prejudicar a segurança interna e externa”, os sete foram condenados no dia seguinte à sua apresentação em tribunal. A pena foi confirmada em recurso no dia seguinte.Segundo uma fonte ligada à justiça iraniana ouvida pelo francês Le Monde, todo o processo é “extremamente incomum”. Disse ainda que “esta rapidez demonstra uma vontade evidente das autoridades de acelerar todo o processo”. Além da forma expedita como os casos foram tratados, também chocou o direito negado aos acusados de ter acesso a um advogado da sua escolha. Esse direito só foi exercido após um recurso junto do Supremo Tribunal.A Amnistia Internacional identificou 30 iranianos, entre os quais este sete, e incluindo alguns menores, em risco de execução em qualquer momento. “Enquanto a ameaça de um ataque americano pairar, a máquina de execução não estará totalmente em movimento. Se o regime estabilizar e essa pressão desaparecer, muitos serão enforcados”, prevê a mesma fonte. Em janeiro, o presidente dos EUA agradeceu às autoridades iranianas por cancelarem 800 execuções de prisioneiros políticos devido à pressão que havia feito.