471 anos antes de Colombo. Vikings estiveram na América do Norte em 1021

Único local conhecido da ocupação viking na América do Norte continua a ser Anse aux Meadows, uma baía no extremo norte da ilha de Terra Nova

Os cientistas puderam datar com precisão, no ano de 1021, a presença de vikings no continente norte-americano após a travessia do Atlântico, graças à datação de radiação cósmica, a partir da qual detetaram vestígios em pedaços de madeira.

Há muito se sabe que os marinheiros escandinavos foram os primeiros europeus a desembarcar na América do Norte, por volta do ano 1000, muito antes de Cristóvão Colombo, que chegou ao sul do continente quase cinco séculos depois.

Com esta nova datação, os vikings chegaram ao "novo continente" 471 anos antes do genovês, que "descobriu" a América em 1492.

Até hoje, o único local conhecido da ocupação viking na América do Norte continua a ser Anse aux Meadows, uma baía no extremo norte da ilha de Terra Nova, onde permanecem as fundações em madeira de oito construções.

Mas, como observa o estudo publicado esta quarta-feira na Nature, a datação tradicional por carbono-14 realizada no século passado é mais do que imprecisa, em mais de 250 anos. No entanto, tudo indica uma ocupação breve e esporádica do local, segundo vestígios arqueológicos e as "Sagas", textos semilendários que narram as epopeias dos vikings.

A equipa liderada por Michael Dee e Margot Kuitems, respetivamente professor de cronologia isotópica e arqueóloga no Centro de Investigação Isotópica da Universidade holandesa de Groningen, contornou o obstáculo com um método original.

A Terra está constantemente sujeita à radiação cósmica, "que produz continuamente carbono-14 (uma forma mais pesada e muito mais rara do que o átomo de carbono) na alta atmosfera", explicou Margot Kuitems à AFP. Essa forma de carbono "entrará no ciclo do carbono, que é absorvido pelas plantas através da fotossíntese".

Às vezes, a radiação é muito mais poderosa: esses "eventos" de radiação cósmica elevam abruptamente o nível de carbono-14 na atmosfera.

Um estudo japonês isolou dois desses "eventos", em 775 e 993, cujos vestígios permanecem em árvores com idade conhecida. O súbito aumento do carbono-14 foi encontrado nas datas em questão nos seus anéis de crescimento, os círculos que são visíveis num tronco cortado e que ajudam a determinar a idade da árvore.

A equipa de Margot Kuitems procurou, fazendo uso de um espectrómetro de massa, o traço do evento de 993 em três amostras de pedaços de madeira retiradas do sítio de Anse aux Meadows. Especialistas canadianos determinaram que essas peças foram trabalhadas naquele local pelos vikings com recurso a ferramentas de ferro.

"Quando medimos a concentração de carbono-14 numa série de anéis, encontramos um aumento acentuado num deles e tivemos a certeza de que correspondia ao ano 993", disse a cientista. Bastou então contar o número de anéis entre o anel do "evento cósmico" e o último localizado antes da casca, para determinar a data em que a árvore foi derrubada. Resposta: o ano de 1021.

A medição funcionou para dois pedaços de madeira, dos quais os cientistas puderam até especificar que um pertencia a uma árvore derrubada na primavera e outra no verão-outono.

O Centro de Investigação Isotópica está na vanguarda deste método original de datação arqueológica, tendo assinado um primeiro estudo sobre o assunto em 2020, datando precisamente uma estrutura arqueológica no sul da Sibéria, utilizando o evento cósmico de 775.

Segundo Kuitems, existe hoje um "consenso" para explicar esses picos de radiação cósmica através de um "evento solar, como uma tempestade solar".

Outro pico no ano 660 foi recentemente confirmado e poderia, por sua vez, servir como um "marcador" de tempo, graças à melhoria contínua na precisão dos espectrómetros de massa.

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