Agrónomo, fundador da organização não governamental ADRA - Acção para o Desenvolvimento Rural e Ambiente, Fernando Pacheco admite que "não gosta de deixar Angola por muito tempo". Nascido em Calulo-Libolo, Cuanza Sul, em 1949, veio a Lisboa para lançar dois livros (Conversas Interpelantes na Mulemba e Crónicas da Nossa terra) mas a sua estadia entre nós não duraria mais do que dois ou três dias porque essa terra, que ele percorre há décadas de Norte a Sul na qualidade de agrónomo, é a sua prioridade desde que, adolescente, descobriu que não era português..Editados pela Kacimbo, a editora fundada pelo escritor angolano Ondjaki, as duas obras reúnem em volume uma boa parte da extensa colaboração de Fernando Pacheco na imprensa do seu país. Uma colaboração sempre interventiva, nem sempre cómoda quer para as autoridades, quer para os seus concidadãos. Como escreve Manuel Ennes Ferreira na introdução a Conversas Interpelantes na Mulemba: "Fernando Pacheco não questiona apenas os mais velhos (o governo e o partido responsável pela governação de Angola desde a independência do país em 1975) mas igualmente quem está sentado a seu lado debaixo da frondosa ramagem: a sociedade civil e os partidos políticos". Em foco, estão temas tão diversos como a pobreza, a alimentação insegura, a fome, o papel dos municípios, os vários ciclos eleitorais, o ensino e, como não podia deixar de ser dada a formação e experiência profissional do autor, o estado da agricultura..Para Fernando Pacheco, a vontade de intervir na sociedade nasceu cedo, como o próprio conta em Conversas Interpelantes: "Era criança quando tomei consciência de que não era português, ao contrário do que me diziam o professor na escola de Calulo e as matérias que era obrigado a estudar. Muito cedo também percebi o significado da discriminação, pois os negros e os mulatos não podiam estudar na escola oficial." Foi, por isso, com júbilo que o jovem aluno do Liceu Salvador Correia, em Luanda, soube dos ataques às prisões coloniais a 4 de fevereiro de 1961, que desencadeariam a luta pela independência e seriam a faúlha da própria guerra colonial..Com Angola independente, Fernando Pacheco foi para o terreno. Foi sucessivamente diretor nacional do Ministério da Agricultura, delegado do mesmo ministério na província de Malanje, diretor do departamento de Política Agrária do MPLA e, em 1990, fundou a organização não governamental ADRA, de que foi diretor geral e presidente do conselho diretivo. Destas missões, recorda em particular o desalento de um agricultor que, a certa altura, lhe terá dito: "Sabe, o nosso azar é não termos sorte." O autor identifica o problema colocado pelo êxodo rural maciço: "O inchaço das cidades com migrantes das áreas rurais é hoje uma grande dor de cabeça. Enganou-se quem julgou que a paz travaria esse movimento. Aconteceu o contrário - e não poderia ser de outro modo, dada a situação da população rural." Fernando Pacheco considera, por isso, que a aposta no apoio à agricultura familiar pode ser a resposta a muitos problemas sócio-económicos do país, já que, diz, este setor tem capacidade para responder à procura do mercado: "Não se pode pensar em colmatar a ausência de mercado nas áreas rurais por via administrativa. O Estado deve promover a construção de infra-estruturas (...) mas também estimular os atuais atores (...).".Colunista do Novo Jornal desde 2008, considera que "já passaria mal sem esta rotina de escrita que esta coluna semanal" lhe impõe e também admite que se sente muito estimulado pelos leitores que o interpelam na rua e o desafiam a continuar. "É o melhor prémio", afirma Fernando Pacheco. Com a apresentação destes dois títulos, a Kacimbo fez a sua primeira sessão de lançamento fora de território angolano. Do seu catálogo fazem parte obras de não ficção e ficção, a mais recente das quais é O Livro do Deslembramento, de Ondjaki..dnot@dn.pt