O coordenador do observatório Corporate Europe, Olivier Hoedeman, considera que o "escândalo de suborno" agora conhecido como Qatargate "é um produto de anos de negligência que volta a assombrar as instituições da UE"..O coordenador desta instituição, que se tem dedicado a investigar as ligações dos grupos de interesse em Bruxelas, descreve práticas que demonstram "uma grave negligência por parte das instituições da UE e dos políticos europeus [...] ao longo da última década"..Entre os eurodeputados há quem receie que este possa ser um caso mais extenso "na sua gravidade". O eurodeputado Paulo Rangel questiona-se, por exemplo, "qual é o móbil" por trás do caso que levou à detenção da eurodeputada do Partido Socialista grego PASOK, Eva Kaili, depois de ter sido descoberta em "flagrante delito" na posse de centenas de milhares de euros em dinheiro, num caso de suspeitas de corrupção com ligação ao Qatar..Este caso levanta questões como "o financiamento das ONG [organizações não-governamentais]", sobre o qual deveria existir "mais transparência", defende Paulo Rangel, que gostaria ainda de ver revista "a questão do livre-trânsito para os antigos deputados", que têm acesso às instituições sem qualquer controlo, quando muitos deles são hoje representantes de grupos de interesses.."Há dados que mostram que são 485 ex-deputados europeus que estão neste momento a trabalhar em grupos de interesse", afirma a eurodeputada Marisa Matias, acrescentando que em relação à Comissão Europeia também há "uma quantidade de comissários que vão de um lado para o outro".."Dá para imaginar se todos tivéssemos acesso a uma visão geral de quem são os lobistas e com quem eles se reúnem", frisa o coordenador do observatório Corporate Europe, apelando à implementação de "regras que impedissem os lobistas [...] de transitar livremente pelos corredores das instituições"..Olivier Hoedeman acusa as instituições de "ignorarem" durante "muitos anos" os apelos para que sejam criadas medidas "eficazes contra o regime de lobby repressivo", quando "estas propostas já existem há algum tempo mas não foram ouvidas"..A presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, já disse que pretende "lançar um processo de reforma para ver quem tem acesso às nossas instalações, como as ONG, como as pessoas são financiadas e que ligações têm com países terceiros"..O coordenador do observatório Corporate Europe lamenta que "nos últimos meses a crise energética possa ter agravado o problema", uma vez que "a União Europeia e vários governos de Estados-membros claramente bajularam o regime do Qatar para garantir uma maior importação de gás e petróleo após a invasão russa da Ucrânia"..Recentemente, na inauguração do Mundial, o vice-presidente da Comissão Europeia, Margaritis Schinas, deslocou-se ao Qatar e as afirmações do político grego não passaram despercebidas, ao ponto de terem sido encaradas como amistosas em relação ao país que tem sido amplamente criticado, nomeadamente em matéria de direitos humanos e de direitos laborais..Von der Leyen garante que os serviços da Comissão "estão a verificar o registo de transparência, em que são publicadas todas as reuniões de membros do colégio e membros dos seus gabinetes com representantes de grupos de interesses", para se certificarem de que a onda de choque não atinge o executivo comunitário e garantir que os contactos com o Qatar não são suspeitos..A presidente da Comissão Europeia admite que mesmo a Comissão Europeia mantém contactos regulares com o Qatar para tratar de "questões globais, como as alterações climáticas, [...] questões regionais, como a paz e estabilidade no Afeganistão e no Médio Oriente, e em questões bilaterais, como a diversificação [energética], para nos afastarmos da Rússia e dos combustíveis fósseis russos"..O caso de Eva Kaili, que está desde 11 de dezembro em prisão preventiva, acusada de "corrupção, lavagem de dinheiro e de participar numa organização criminosa" com ligação ao Qatar, vem colocar o Parlamento Europeu perante o imperativo de rever os seus códigos de conduta.."Pediremos mais transparência nas reuniões com atores externos e com os que lhes estão ligados", prometeu Metsola, agora que este caso veio pôr em causa a instituição, que se bate há anos contra a corrupção..Num comunicado, a delegação do PCP em Bruxelas apelou ao "cabal apuramento dos factos e à responsabilização dos envolvidos", mas pede também para o Parlamento "não precipitar medidas que criem mais dificuldades às entidades já existentes" e levem a "conceções que estão imbuídas de caráter inquisitorial".."Ninguém varrerá isto para debaixo do tapete", assevera a presidente do Parlamento Europeu, prometendo lançar "uma investigação interna para analisar todos os factos relacionados com o PE e ver como os nossos sistemas podem tornar-se ainda mais seguros"..O próprio grupo dos Socialistas e Democratas a que pertence a deputada já veio dizer que pretende constituir-se como assistente do processo em curso, como parte lesada, dado as consequências reputacionais para o grupo político.."Estamos furiosos com esta situação", declarou Pedro Marques, da delegação do Partido Socialista no Parlamento Europeu e colega de bancada de Eva Kaili, confessando-se "pessoalmente enojado com a situação", que é "demasiado má".."Já conhecíamos as sistemáticas alegações de corrupção na atribuição do Mundial ao Qatar [...] e agora também aqui, [no Parlamento Europeu], a corrupção de uma das principais instituições da democracia europeia", lamentou, assegurando que, "em nome do grupo, pediu aos colegas que têm algum elemento das suas equipas envolvido nas investigações que suspendessem as suas funções, o que já aconteceu"..Eva Kaili e Maria Spyraki "são suspeitas de fraude lesiva do orçamento da UE", num caso de gestão de dinheiro público, relacionado com o "subsídio parlamentar destinado à remuneração dos assistentes parlamentares acreditados em Estrasburgo"..Na passada quinta-feira, a procuradoria federal belga pediu o levantamento da imunidade parlamentar de Eva Kaili para que possa responder num outro caso de justiça que envolve outra deputada, também grega, do grupo da maior família política no Parlamento Europeu, o PPE..dnot@dn.pt