Eleições na Virgínia são advertência a Biden

Republicanos aproveitam paralisia no Congresso e demonstram que a vitória nas eleições intercalares de 2022 está ao seu alcance.

Há um ano Joe Biden vencia no estado da Virgínia com dez pontos de vantagem sobre Donald Trump nas eleições presidenciais, uma vantagem tão clara que não foi objeto de alegações de fraude. Agora o ex-governador democrata Terry McAuliffe ficou 2,1 pontos percentuais abaixo do milionário Glenn Youngkin. Um conservador sem experiência política que a meio da campanha abraçou as causas locais, como a rejeição nas escolas da teoria racial crítica, contou com o voto dos pais assustados e dos trumpistas.

Em Nova Jérsia, com 89% dos votos contados, o atual governador democrata, Phil Murphy, leva uma vantagem mínima sobre o oponente republicano, Jack Ciattarelli. De regresso aos EUA, o presidente continua a ver o seu partido dividido ao ponto de não conseguir aprovar duas leis fundamentais para alavancar a economia.

Joe Biden esteve na cimeira do clima (COP26), em Glasgow, a promover o seu plano bilionário de investimento que inclui medidas para uma economia mais verde. Mas a legislação continua presa no Senado, onde dois democratas se encontram do outro lado da barricada e nada garante que esta venha a ser aprovada. Antes de os resultados eleitorais serem conhecidos, o presidente rejeitou a ideia de que as sondagens com a sua popularidade a cair e a atividade legislativa congelada pudessem contribuir de forma negativa, tendo preferido olhar para a atualidade com otimismo. "Por muito más que as coisas estejam, em termos de preços que prejudicam agora as famílias, troquem este Dia de Ação de Graças pelo último Dia de Ação de Graças", desafiou.

Mas o ânimo dos norte-americanos não é o melhor. Se em novembro do ano passado a Gallup registava que 76% dos cidadãos estavam insatisfeitos, em setembro essa percentagem recuou apenas um ponto.

O estado da economia foi um dos fatores que levaram à primeira vitória republicana em Virgínia desde 2009 (e que incluiu a vitória de Winsome Sears para o cargo de vice-governadora, facto inaudito para uma afro-americana; de Jason Miyares para procurador-geral do estado, o primeiro latino; e ainda na câmara estadual, que tinha maioria democrata). Nas sondagens à boca das urnas, cerca de um terço dos eleitores disse que a economia era a principal prioridade, seguida de perto pela educação, que foi mencionada por cerca de um quarto dos eleitores.

Na realidade, a motivação dos eleitores divide-se entre temas transversais, da alçada federal, e outros de competências estaduais. A segurança nas escolas, depois de uma estudante ter sido vítima de uma agressão sexual numa casa de banho foi um dos temas que Youngkin - que terá realizado a campanha mais cara de sempre na Virgínia - transformou em campo de batalha, aproveitando para criticar as leis sobre o acesso de pessoas transgénero aos lavabos.

A isto juntaram-se as críticas ao encerramento das escolas durante a pandemia e a já referida campanha contra a possibilidade de os estudantes aprenderem sobre o racismo sistémico, com McAuliffe a afirmar que os pais não têm voto na matéria. Um tiro no pé que o republicano explorou e que levou o democrata a trazer Trump ao debate, mas sem assustar os eleitores.

Em Washington, os republicanos estarão tentados a seguir o modelo de Youngkin: manter a base de Trump de uma forma discreta e atacar questões como a economia ou a educação para conquistar a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado nas eleições intercalares de 2022.

Já os democratas sabem que o tempo para agir começa a escassear. O secretário dos Transportes Pete Buttigieg disse que os dois pacotes legislativos são "muito, muito, muito, muito populares" e que "é tempo de agir".

"É um sinal de que temos de produzir. O povo deu-nos a maioria nas duas casas por uma razão. Temos de obter resultados para as pessoas", comentou o senador democrata da Virgínia Tim Kaine. Mas para o colega da Virgínia Ocidental Joe Manchin, um dos senadores em desacordo com os grandes investimentos públicos, o sinal é outro: "[Os eleitores] Estavam preocupados com a inflação, com os custos elevados. E penso que falaram alto e claro na votação, por isso espero que todos ouçam."

cesar.avo@dn.pt

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