Eleição é teste ao futuro de Boris em plena rebelião conservadora

No meio de escândalos, primeiro-ministro precisou dos votos da oposição para aprovar mais medidas contra a covid-19. Hoje enfrenta possível derrota num bastião dos Tories.

Em circunstâncias normais, as eleições intercalares no círculo eleitoral de North Shropshire não representariam qualquer problema para Boris Johnson. Afinal, a população nesta zona rural é maioritariamente branca, ligeiramente mais velha do que a média em Inglaterra, votou 60% a favor do Brexit e sempre elegeu conservadores para o Parlamento - com uma vantagem de 23 mil votos no escrutínio em 2019. Mas as eleições intercalares de hoje ocorrem no meio de vários escândalos, em plena rebelião de 99 deputados conservadores contra o primeiro-ministro britânico e podem agravar ainda mais a situação de Johnson, que está a 54 cartas de ver a sua liderança contestada.

Os escândalos começam logo na razão para haver estas intercalares. Owen Paterson era o deputado por North Shropshire desde 1997, tendo tido vários cargos ministeriais nos governos de David Cameron. Este ano, uma investigação parlamentar revelou que violou as regras de lobbying, aproveitado o seu cargo para garantir benefícios para duas empresas onde era consultor pago. A comissão que o investigou defendeu que devia ser suspenso, mas Johnson saiu em sua defesa e, em vez de o suspender, fez passar uma lei para rever a forma como os deputados são investigados. Contudo, diante da pressão interna, o primeiro-ministro acabaria por recuar e em vez de enfrentar um voto sobre a sua eventual punição, Paterson acabou por se demitir.

A este escândalo, juntam-se as polémicas a envolver as festas de Natal em Downing Street em 2020, quando as regras impediam este tipo de eventos. Boris Johnson tem dito que não foram quebradas as regras, mas já veio a público que o próprio primeiro-ministro participou num jogo de perguntas virtual com outros dois colaboradores ao seu lado na mesma sala (quando isso também não era permitido).

A cereja em cima do bolo prende-se com o facto de as obras de renovação do seu apartamento em Downing Street terem sido alegadamente pagas por um doador do Partido Conservador, sem que tal fosse revelado. E as questões sobre as suas luxuosas férias de verão em Marbella, pagas pela família de Zac Goldsmith - escolhido para a Câmara dos Lordes após ter perdido o seu lugar de deputado. As consequências destes escândalos já se sentem na popularidade do primeiro-ministro, que caiu 11 pontos em relação a novembro, segundo a mais recente sondagem YouGov.

Rebelião

Na terça-feira, um grupo de 99 deputados conservadores (mais de um quarto da bancada de 361 representantes) mostrou o seu desagrado com o primeiro-ministro votando contra um pacote de medidas para combater a covid-19, nomeadamente a exigência de passaporte de vacinação para entrar em alguns espaços. A legislação do chamado Plano B contra a pandemia, em plena vaga desencadeada pela variante Ómicron, só passou graças à votação dos deputados da oposição trabalhista.

Algo que o líder do Labour fez ontem questão de mencionar na habitual sessão semanal de perguntas ao chefe do governo (a última antes do novo ano). Keir Starmer disse que Johnson é "o pior primeiro-ministro no pior momento" para enfrentar a covid-19 e que é "demasiado fraco para liderar". E deixou claro que "os seus próprios deputados estão fartos. Não o defendem. Não aparecem para o apoiar. Não votam em medidas básicas de saúde pública". Johnson respondeu com os números do emprego (mais 500 mil do que no início da pandemia) e os números da vacinação contra a covid-19.

A rebelião é considerada "uma mensagem muito clara" de que os conservadores "não estão felizes com a forma como o governo está a atuar", disse à Times Radio o antigo secretário de Estado de Theresa May, Mark Harper. À Sky News, o deputado Geoffrey Clifton-Brown disse esperar que Johnson perceba a mensagem e atue. "Ele tem que saber que existe algum perigo. E tem que perceber isso porque se não o fizer, então estará ainda em mais perigo. Eu ainda o apoio, mas ele tem que mudar", afirmou.

De acordo com as regras dos Tories, se 15% dos deputados conservadores (isto é, 54) escreverem uma carta ao presidente do Comité 1922 (formado pelos deputados que não têm cargos no governo) a pedir uma moção de censura ao líder do partido, esta tem que avançar. Só Graham Brady sabe quantas cartas já recebeu, visto que quem as escreve pode manter-se anónimo. A moção de censura é depois votada entre todos os deputados, sendo que se o líder conseguir mais de 50% de votos, fica "salvo" durante um ano. May sobreviveu a uma em dezembro de 2018, mas acabaria por se demitir sete meses depois.

Johnson parece ainda não estar em risco, mas uma eventual derrota do candidato conservador, Neil Shastri-Hurst, em North Shropshire, poderá mudar a situação. As casas de apostas apontam o favoritismo de Helen Morgan, dos liberais-democratas. Estes foram terceiros em 2019, atrás também do Labour, mas os trabalhistas apesar de dizerem que são agora favoritos, parecem não ter feito uma verdadeira aposta nestas intercalares.

O resultado irá depender de vários fatores: não só saber se o eventual desencanto dos eleitores conservadores com o primeiro-ministro os deixará em casa - Johnson não fez campanha na zona para não piorar a situação -, como também se os eleitores trabalhistas e dos Verdes apostam no voto tático nos liberais-democratas.

susana.f.salvador@dn.pt

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