Duas cadeiras e uma mulher de pé. A diplomacia segundo Erdogan

O presidente da Turquia deu um claro sinal de desdém para com os líderes europeus, em especial para Ursula von der Leyen, numa altura em que esta se mostra preocupada com os direitos das mulheres turcas.

Depois de Moscovo, Ancara. Há dois meses o chefe da diplomacia europeia Josep Borrell foi humilhado durante a visita a Moscovo. Levava uma reprimenda pelo comportamento do regime de Vladimir Putin em relação ao opositor Alexei Navalny, mas trouxe na bagagem críticas de "falta de fiabilidade" por parte do homólogo Serguei Lavrov e ficou a saber da expulsão de diplomatas europeus.

Agora, foi a vez da Turquia, outro regime com um historial recente de atropelos aos concidadãos e de tensão com a União Europeia dar um sinal de desprezo. O incidente ocorreu no início do encontro do presidente turco Recep Tayyip Erdogan com o presidente do Conselho Europeu Charles Michel e a presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen. No palácio presidencial de Ancara, faraónica construção com mais de mil quartos da era Erdogan, faltou uma cadeira para sentar lado a lado os três dignitários.

Um vídeo que o eurodeputado Sergey Lagodinsky publicou com comentários mostra Erdogan e Michel a instalarem-se em cadeiras douradas, enquanto von der Leyen ficou de pé, incrédula, a gesticular e a emitir uma chamada de atenção vocal. ""Ehm" é o novo termo para "não é assim que deve ser a relação UE-Turquia"", escreveu o membro alemão do Parlamento Europeu.

A desconsideração diplomática ganhou combustível nas redes sociais e de pronto ficou conhecida como SofaGate, em alusão ao sofá em que a dirigente foi instalada, de frente para o chefe da diplomacia turco, Mevlut Cavusoglu. A eurodeputada holandesa Sophie in 't Veld observou que nas reuniões entre Erdogan e o par anterior de presidentes da UE, ambos homens, os três líderes estavam sentados um ao lado do outro, em cadeiras equivalentes. "Não foi uma coincidência, foi deliberado", escreveu.

A Turquia tem experiência neste recente neste tipo de incidentes diplomáticos, quer do lado da vítima, quer do lado do agressor. Em 2010, o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros israelita Danny Ayalon convocou o embaixador turco para protestar pela exibição de uma série televisiva em que os israelitas eram vistos como assassinos de crianças. O diplomata turco foi sentado numa cadeira ostensivamente mais baixa do que a do ministro.

Em 2018, resultado de uma crise diplomática entre Ancara e Telavive, o embaixador israelita é expulso. Ao apresentar-se no aeroporto foi obrigado a uma inspeção minuciosa, na qual teve de se descalçar, enquanto era filmado pelos media. Horas depois, a vingança pelo mesmo método: o encarregado de negócios turco em Telavive foi convocado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros e objeto de uma revista nos mesmos termos, com a imprensa israelita convidada a documentar o momento, como recorda o Times of Israel.

Após a reunião, que decorreu duas semanas depois de Erdogan ter retirado a Turquia de um tratado internacional destinado a prevenir a violência contra as mulheres, a Convenção de Istambul, von der Leyen não fez qualquer menção ao incidente. Mas exprimiu a sua preocupação sobre os direitos das mulheres. "Estou profundamente preocupada com o facto de a Turquia se ter retirado da Convenção de Istambul", disse aos jornalistas. "Trata-se de proteger as mulheres e proteger as crianças contra a violência. E este é claramente o sinal errado neste momento".

cesar.avo@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG