Do alarme de Guterres à Guerra Fria de Biden com Bolsonaro pelo meio

Secretário-geral alertou para as divisões no mundo e o líder dos EUA poupou críticas abertas à China. Presidente brasileiro traçou imagem idílica do Brasil.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, deu o tiro de partida para a 76.ª sessão da Assembleia Geral da organização com um alerta: "Estou aqui para soar o alarme. O mundo tem de acordar", defendeu, alertando que este "nunca esteve mais dividido". O português mencionou a preocupação que representa o embate entre as duas grandes potências, EUA e China, avisando que podem criar um problema "muito menos previsível e muito mais perigoso do que a Guerra Fria". Na sua intervenção, o presidente norte-americano, Joe Biden, reiterou que não está à procura "de uma nova guerra fria", sem referir diretamente a China, cuja ascensão tem considerado, noutros palcos, como o principal desafio do século XXI.

Os EUA estão "prontos para trabalhar com qualquer país que procure uma resolução pacífica para desafios conjuntos, mesmo tendo divergências intensas em outras áreas", referiu Biden. O presidente defendeu que "segurança, prosperidade e liberdades" de todos "estão interconectadas" e que, por isso, existe a necessidade de "trabalhar juntos como nunca antes".

Biden, que fez a sua estreia na Assembleia Geral da ONU, disse ter terminado 20 anos de conflito no Afeganistão, fechando uma era de "guerra implacável" para abrir uma nova era de "diplomacia implacável". Além disso referiu que desde que chegou à Casa Branca deu prioridade a revitalizar as alianças dos EUA, desde a NATO até à União Europeia, passando pela aliança com o Japão, a Índia e a Austrália. "Os EUA vão continuar a defender-se, a defender os seus aliados e os nossos interesses contra ataques, incluindo ameaças terroristas, e estamos preparados para usar a força se necessário", disse.

Contudo, defendeu, "o poder militar deve ser a nossa última ferramenta, não a primeira, e não deve ser usada como a resposta para todos os problemas que vemos em redor do mundo", alegou. "As bombas e as balas não podem defender contra a covid-19 ou as suas futuras variantes. Para lutar contra esta pandemia, precisamos de um ato coletivo de ciência e vontade política", disse Biden, que lembrou os 4,5 milhões de mortos. Em relação ao aquecimento global, e em vésperas da conferência do clima de Glasgow, os EUA comprometeram-se a "duplicar" o montante de ajuda aos países mais pobres para enfrentar as alterações climáticas.

As divisões de Guterres

As alterações climáticas são um dos seis grandes temas de divisão que o secretário-geral mencionou no seu discurso na Assembleia Geral - que decorre até à próxima segunda-feira. Os outros cinco temas que abordou passam pelo assalto à paz em todo o mundo, o fosso entre ricos e pobres, a desigualdade de género, a divisão tecnológica ou digital e a geracional.

Grande parte dos problemas advêm da pandemia de covid-19, mas Guterres sublinhou ainda uma outra "doença contagiosa": a desconfiança a vários níveis - sejam as teorias da conspiração que entram em contradição com a ciência, a população sem confiança nos seus governos ou ainda a falta de cooperação entre países em temas que dependem do multilateralismo. Considerou uma "obscenidade" e "falha ética" não haver uma distribuição uniforme das vacinas, por exemplo.

O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, defendeu a vacinação - apesar de ele próprio não ser vacinado -, mas mostrou-se contra a ideia do "passaporte sanitário". E voltou a defender tratamentos precoces para lutar contra a pandemia, cuja eficácia não está comprovada cientificamente.

No seu discurso, tradicionalmente o primeiro ainda antes do líder do país anfitrião, traçou uma imagem de um Brasil idílico, mencionando dados positivos na economia ou no meio ambiente que foram desmentidos por agências de verificação de factos. "Estamos há dois anos e oito meses sem casos concretos de corrupção", afirmou ainda, alegando que o país estava "à beira do socialismo" antes de ele chegar ao Palácio do Planalto. Uma mensagem também para os seus apoiantes, a dois anos das próximas presidenciais.

susana.f.salvador@dn.pt

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