Dina Boluarte, a advogada que é a primeira mulher presidente do Peru

Vice-presidente de 60 anos assumiu o cargo depois da destituição de Pedro Castillo. É a sexta chefe de Estado do país desde 2018 e tem pela frente o desafio de acabar o mandato.

Dois dias depois de uma comissão parlamentar ter rejeitado e arquivado uma denúncia de alegada infração constitucional que lhe podia ter custado o cargo de vice-presidente, Dina Boluarte tornou-se a primeira mulher a assumir a chefia do Estado no Peru. A advogada de 60 anos tomou posse após a destituição e prisão de Pedro Castillo, horas depois de ter tentado dissolver o Congresso no que foi visto como uma tentativa de golpe.

No seu primeiro discurso como presidente, Boluarte apelou a uma "trégua política para instalar um governo de unidade nacional". Eleita pelo partido marxista Peru Livre, o mesmo de Castillo, foi expulsa no início do ano - por "falha grave", depois de ter dito que nunca foi próxima da ideologia dessa formação política. Sem partido ou um acordo com a oposição de direita, que está em maioria no Congresso, enfrentará os mesmos desafios que o antecessor.

Keiko Fujimori, filha do antigo presidente Alberto Fujimori e candidata derrotada por Castillo, já disse que a apoiará. Resta saber até quando. O ex-presidente, no poder desde julho de 2021, esteve constantemente debaixo de fogo e já tinha passado por duas tentativas de impeachment antes de tentar evitar a terceira votação com medidas inconstitucionais.

Boluarte diz querer terminar o mandato, até julho de 2026, mas poderá ser obrigada a convocar eleições antecipadas. "Cabe-nos a nós conversar, dialogar, pôr-nos de acordo, algo tão simples como impraticável nos últimos meses", afirmou. "Convoco por isso um amplo processo de diálogo entre todas as forças políticas representadas ou não no Congresso", disse. O seu primeiro teste será perceber se consegue ou não formar um governo.

Nascida a 31 de maio de 1962 em Chalhuanca, na região andina de Apurímac, Boluarte estudou Direito na Universidade de San Martín de Porres. Mãe divorciada, foi advogada no Registo Nacional de Identificação e Estado Civil e, em 2018, candidata à Câmara de Surquillo. Em 2020 tentou, sem sucesso, a eleição como deputada, tornando-se vice-presidente um ano depois e ministra do Desenvolvimento e Inclusão Social (pasta da qual foi afastada em novembro). No início da semana tinha sido salva da destituição, após ser acusada de exercer um cargo numa entidade privada ao mesmo tempo que era funcionária pública.

A primeira mulher presidente do Peru é a sexta chefe de Estado do país desde 2018. Pedro Pablo Kuczynski, no poder desde julho de 2016, demitiu-se em março desse ano antes de enfrentar um segundo voto de impeachment. O vice-presidente Martín Vizcarra, que lhe sucedeu, seria destituído em novembro de 2020 por "incapacidade moral". O líder do Congresso Manuel Merino assumiu então o poder, mas cinco dias depois demitiu-se devido às mortes nos protestos contra a sua nomeação. O deputado Francisco Sagasti foi eleito pelos outros membros do Congresso, acabando em julho de 2021 o mandato iniciado por Kuczynski. Seguiu-se a eleição-surpresa de Castillo, um professor rural e ex-líder sindical, agora destituído também por "incapacidade moral". Está preso, após ser acusado pela procuradoria de "sedição".

susana.f.salvador@dn.pt

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