Dez anos após morte de Bin Laden, Al-Qaeda está viva e promete "guerra"

Com Zawahiri no comando, virou-se para os franchisings - do Iémen à Somália, passando pelo Norte de África. Mas peritos garantem que é cedo para fazer "obituário" do grupo.

"Bin Laden está morto e a Al-Qaeda enfraquecida no Afeganistão. Chegou a hora de terminar a guerra sem fim", afirmava o presidente Joe Biden, num discurso em que confirmava a saída das tropas americanas até 11 de setembro. A data é simbólica, por corresponder aos 20 anos dos atentados que fizeram quase 3000 mortos nos EUA, mas ontem, véspera de se assinalar outra data simbólica - os dez anos da operação da Team 6 dos Seal que levou à morte de Bin Laden em Abbottabad, no Paquistão - a organização que o saudita liderou e que esteve por detrás dos ataques de 2001,a Al-Qaeda, fez prova de vida.

"A guerra contra os EUA vai continuar em todas as outras frentes a não ser que os americanos sejam expulsos do restante mundo islâmico", garantiram dois operacionais da Al-Qaeda numa entrevista à CNN conduzida através de intermediários.

A Al-Qaeda raramente responde a entrevistas, preferindo divulgar a mensagem através da sua própria propaganda. Hoje a organização que chegou a aterrorizar o mundo com os seus atentados - além do 11 de Setembro, os de Bali em 2002, que fizeram 202 mortos, os de Madrid em 2004 (190) ou os de Londres em 2005 (52) - está reduzida a uma sombra de si mesma. Mas veio agora dizer que está pronta para voltar, em parceria com os talibãs. "Obrigada aos afegãos pela proteção que deram aos nossos aliados, tantos grupos jihadistas têm operado com sucesso em diferentes partes do mundo islâmico há tanto tempo", explicou um dos operacionais da Al-Qaeda.

Um dos argumentos de Biden para a retirada do Afeganistão - que defendia desde os seus tempos como vice-presidente de Barack Obama - foi um acordo assinado com os talibãs, em que estes se comprometem a cortar as relações com a Al-Qaeda, que levaram os EUA a invadirem o país logo em outubro de 2001, quando os talibãs recusaram entregar Bin Laden.

A entrevista foi feita pelo jornalista freelance Saleem Mehsud através de intermediários, mas a veracidade das respostas foi confirmada pelos especialistas. Entre eles Peter Bergen, perito em terrorismo da CNN e autor de vários livros sobre Bin Laden que considerou as respostas "genuínas". Para Bergen, o facto de Al-Qaeda manter ligações aos talibãs só "vem confirmar o que a ONU tem dito, de que os talibãs consultaram regularmente a Al-Qaeda durante as negociações com os EUA".

Os operacionais da organização reivindicaram uma vitória no Afeganistão. "Os americanos estão agora derrotados", afirmaram, antes de traçar um paralelo com a retirada das tropas soviéticas do Afeganistão em 1989 e o consequente colapso da sua economia - "A guerra dos EUA no Afeganistão teve um papel decisivo ao atingir a economia americana". Uma argumentação que se inspirou no próprio Bin Laden, que promoveu a ideia simplista de que os soviéticos foram à bancarrota no Afeganistão.

A Base e o seu franchising

A organização cujo nome significa "A Base" nasceu nos anos 80 como rede de recrutamento de mujaedines para combater os soviéticos no Afeganistão. Oficialmente fundada em 1988 por Osama bin Laden e outros mujaedines árabes que se tinham juntado à jihad, a Al-Qaeda procurou depois expandir o seu raio de ação. E quando o Iraque de Saddam Hussein invadiu o Koweit em 1990, deixando a Arábia Saudita em risco, Bin Laden, nascido num família de magnatas da construção, ofereceu ao rei os serviços dos seus mujaedines. Mas Fahd preferiu abrir as portas às tropas americanas, enfurecendo Bin Laden que denunciou a presença de militares estrangeiros na "terra das duas mesquitas sagradas". Foi banido e forçado a exilar-se no Sudão. Por pressão dos EUA, em 1996, encontra refúgio no Afeganistão.

Hoje, a Al-Qaeda poucas semelhanças tem com a rede que atacou os EUA em 2001. A liderança foi assumida por Ayman al-Zawahiri, um médico egípcio com 69 anos, de saúde frágil e que já foi várias vezes dado como morto. Pouco carismático, escondido num refúgio que se estima ficar na fronteira entre Afeganistão e Paquistão, Zawahiri viu o protagonismo do terrorismo internacional passar para o Estado Islâmico, o grupo jihadista que esteve à frente de um autoproclamado califado entre 2014 e 2019, na Síria e no Iraque. Com uma comunicação ativa nas redes sociais, o Estado Islâmico recrutou seguidores em todo o mundo, multiplicando os atentados no Ocidente contra os "infiéis".

A Al-Qaeda virou-se para os franchisings: da península Arábica ao Magrebe, da Somália ao Iémen. "A Al-Qaeda tornou-se cada vez mais descentralizada e a autoridade está principalmente nas mãos dos chefes das suas filiais", explicou à AFP o think tank Counter Terrorism Project. Mas para os que ditaram a morte da organização, Colin Clarke, diretor de investigação do Soufan Center deixa o alerta: "É muito cedo para escrever o obituário da Al-Qaeda".

helena.r.tecedeiro@dn.pt

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