Cyntia de Paula: "As associações fizeram campanha pelo voto e contra as ameaças golpistas"

Em Portugal, 81 mil brasileiros inscreveram-se para votar, o dobro de há quatro anos, quando Jair Bolsonaro ganhou entre a comunidade no país. Cyntia de Paula, a presidente da Casa do Brasil, espera que desta vez haja um maior equilíbrio de votos nestas presidenciais.
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A comunidade brasileira aumenta todos os dias, 204 669 imigrantes em 2021, além dos que têm a dupla nacionalidade. E 80 896 inscreveram-se em Portugal para votar na eleição do presidente do Brasil, duplicando o número de 2018.

O número de imigrantes brasileiros cresceu mas não ao mesmo ritmo que os inscritos para estas eleições presidenciais. O que é que justifica esta evolução?

De facto, a comunidade aumentou, atingimos continuamente números recorde. Mas a razão principal deve-se ao facto de muitos movimentos internacionais, não só em Portugal, muitos coletivos, terem realizado campanhas para que as pessoas fizessem a transferência do título para votarem em Portugal. Muitas associações, a Casa do Brasil, o próprio consulado, tiveram a preocupação de incentivar as pessoas ao voto, de as informar sobre o direito a transferirem o título e houve muita procura de informação. Ainda hoje, perguntam como podem transferir o voto, o que já não é possível [o prazo acabou a 4 de maio].

Porque é que essa preocupação foi mais efetiva desta vez?

Acredito que seja para que as pessoas tenham o direito de voto assegurado, mas também para que possam assegurar que o Brasil tenha um presidente democrata. O voto no Brasil é obrigatório e há implicações se as pessoas não votarem (é facultativo para jovens de 16 e 17 anos, maiores de 70 anos e analfabetos). Ficam impedidos de concorrer a cargos públicos, têm dificuldades para obter o passaporte, etc. Sempre houve esse estímulo para as pessoas transferirem o título para votarem, mas há novas questões e que têm a ver com a defesa da democracia, com o combate ao discurso do ódio. As associações mais ligadas aos direitos humanos, em defesa da democracia, fizeram campanha não necessariamente a apelar ao voto num candidato ou outro, mas contra essas ameaças golpistas, contra os discursos que implementam a desconfiança no sistema eleitoral (voto eletrónico), pela democracia. Surgiram muitos coletivos que têm uma vertente política, como o Andorinha e tantos outros, que têm esse preocupação de diálogo. Apesar de estarmos fora do nosso país, queremos políticos que representem a democracia, que tenham políticas para a igualdade e justiça social, que garantam a Constituição.

Essas campanhas poderão não ter sido a favor de um candidato mas foram contra um candidato: Jair Bolsonaro.

A Casa do Brasil não tem um candidato, é pela democracia e, nesse sentido, entendemos que Jair Bolsonaro não representa a nossa missão. Não representa os valores em que acreditamos, não representa os pilares da democracia. Somos contra todo o tipo de discriminação, contra o racismo, a xenofobia, a homofobia, contra qualquer situação que não garanta a liberdade, a democracia e a igualdade. Sempre nos posicionámos contra governos que têm esse discurso golpista e não trabalham para a garantia dos pilares da democracia.

Bolsonaro ganhou em Portugal nas eleições de há quatro anos, com cerca de 65 % dos votos na segunda volta . Será diferente desta vez?

Estamos com a expectativa que haja uma redução dessa desigualdade, que haja um maior equilíbrio entre os dois candidatos mais votados. Tendo em conta que os cidadãos desses movimentos mais envolvidos contra políticas de extrema-direita se terão recenseado, estamos com a expectativa que haja esse equilíbrio na votação. Mas só vendo os resultados.

Conseguiram perceber qual é o perfil maioritário dos brasileiros recenseados?

Temos uma sensibilidade, pode ter havido mais pessoas envolvidas politicamente contra governos de extrema-direita a recensearem-se. Mas é uma sensibilidade, não temos dados. E uma esperança.

Até porque há quem tenha imigrado por estar contra Bolsonaro.

Há essa transformação na imigração nos últimos anos, diria até que teve início antes do golpe contra a presidente Dilma. Há cada vez mais uma imigração politizada, consciente dos valores da democracia. Pode ser uma bolha, a imigração brasileira é muito grande e não é porque as pessoas migram que se podem tornar mais ou menos politizadas. Trazem dos países de origem as consciências políticas e continuam a exercê-las. Mas temos esperança numa mudança.

Essa esperança é a vitória de Lula da Silva ou simplesmente que haja um equilíbrio na distribuição dos votos?

O que pensamos é que poderá haver um maior equilíbrio, é difícil fazer a previsão de quem ganha. Só mesmo aquando soubermos o resultado das eleições, na segunda-feira.

Qual é o candidato que vão aplaudir se ganhar?

Enquanto Cyntia, espero que seja o fim dessa gestão presidencial, que não nos representa. A Casa do Brasil espera que seja uma resposta eleitoral pela democracia, pela defesa da igualdade e da justiça social, e não por um candidato que não nos representa. Independentemente da pessoa, o importante é que quem for eleito represente a democracia.

Acredita que as eleições serão decididas este domingo, sem necessidade de uma segunda volta?

Temos essa esperança.

Um último apelo.

Apelo aos brasileiros recenseados para exercer o dever do voto. Espero que votem com consciência, porque o nosso país também nos desrespeita. Esperamos que, independentemente do candidato que ganhe, não se concretize o discurso golpista. É importante que ganhe quem tiver uma visão pela democracia, pelas políticas em que a Casa do Brasil acredita. Esperamos, ainda, que o próximo governo do Brasil tenha um diálogo constante com os outros países para que os direitos das pessoas migrantes sejam assegurados.

ceuneves@dn.pt

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