Um coro de indignação percorreu diversas capitais na sequência do segundo maior ataque russo com drones e mísseis à Ucrânia, nas primeiras horas de quinta-feira. A capital foi a zona mais fustigada, com todos os bairros atingidos quer pelos mísseis (31) e drones (598) quer pelos seus destroços. Ao fim do dia, o balanço provisório apontava para 22 mortos, entre os quais três menores, e 19 feridos. O ataque com mísseis hipersónicos causou também destruição no edifício da delegação da União Europeia em Kiev, bem como no British Council, o que levou Bruxelas e Londres a convocarem os diplomatas russos. “Não podemos ser ingénuos em relação à Rússia. Não podemos ser ingénuos em relação a Vladimir Putin. E a noite passada é prova disso”, comentou o secretário-geral da NATO Mark Rutte, uma das muitas vozes que se insurgiram contra o ataque russo. Inclusive do secretário-geral da ONU, António Guterres, que apelou para um cessar-fogo que conduza à paz “que respeite plenamente a soberania, a independência e a integridade territorial da Ucrânia”. Já o chanceler alemão Friedrich Merz concluiu que, depois deste ataque, “a reunião entre Zelensky e Putin não deverá realizar-se”.O Kremlin disse que não há qualquer acordo para uma “trégua aérea”, portanto, as forças russas “continuam a atacar alvos militares e paramilitares“, disse Dmitri Peskov. “Ao mesmo tempo, a Rússia continua interessada em prosseguir com o processo de negociação”, acrescentou.Resposta da ComissãoA chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, chamou o encarregado de negócios russo Karen Malayan para protestar pelo facto de a delegação da UE ter sido atingida pelo impacto dos mísseis, tendo lembrado que “nenhuma missão diplomática deve ser um alvo”. Já a presidente da Comissão Europeia mostrou-se “indignada” com o ataque a Kiev, lembrou que está em preparação o 19.º pacote de sanções contra a Rússia e anunciou uma viagem por sete países do norte e leste europeu. “O ataque da noite passada ocorreu nas proximidades da missão diplomática, a representação da nossa União. Dois mísseis atingiram uma distância de 50 metros da delegação em 20 segundos. Este é mais um sombrio alerta do que está em jogo. Mostra que o Kremlin não vai parar por nada para aterrorizar a Ucrânia, matando cegamente civis - homens, mulheres e crianças - e até mesmo visando a União Europeia. É por isso que continuamos a exercer a máxima pressão sobre a Rússia”, afirmou Ursula von der Leyen, referindo-se aos ativos russos congelados e a outras medidas punitivas.A sua visita às capitais dos países bálticos, Finlândia, Polónia, Bulgária e Roménia começa hoje e termina na segunda-feira e tem como objetivo “expressar a total solidariedade da UE” para com estes estados que estão na linha da frente da proteção das fronteiras com a Rússia e a Bielorrússia, e também para mostrar os progressos na indústria europeia de defesa..“A Rússia opta pela balística, não pela mesa de negociações. Opta por continuar a matar, não por pôr fim à guerra. E isto significa que a Rússia continua a não temer as consequências.”Volodymyr Zelensky. Além da declaração à imprensa com recurso a fotografias do estado em que ficou o escritório da UE em Kiev, Ursula von der Leyen telefonou a Volodymyr Zelensky e a Donald Trump. Sobre a conversa com o líder ucraniano, foi o próprio quem revelou, na redes sociais, que se centrou nos “esforços diplomáticos” para acabar com a guerra. “Há muito trabalho a ser feito em vários níveis precisamente com esse objetivo. Mas até que a Rússia tome medidas concretas em direção à paz, a pressão sobre ela deve ser intensificada”, defendeu. Zelensky disse ter recebido da dirigente alemã pormenores sobre a preparação das futuras sanções da UE contra a Rússia. Sobre este tema, a presidente do braço executivo da UE não avançou mais pormenores. .“O ataque noturno a Kiev demonstra uma escolha deliberada de intensificar os ataques e ridicularizar os esforços de paz. A Rússia deve cessar as matanças e negociar.”Kaja Kallas.Segundo a agência Bloomberg, os 27 estarão a explorar, pela primeira vez, o uso de sanções secundárias contra países terceiros que possam estar a ajudar a Rússia a contornar as sanções. Este mecanismo está previsto desde 2023 mas nunca foi ativado. O tema deve ser abordado na reunião informal dos ministros dos Negócios Estrangeiros que decorre hoje e amanhã em Copenhaga. O 19.º pacote de sanções deverá ser apresentado nos próximos dias. A Hungria e a Eslováquia, com lideranças pró-russas, têm dificultado a aprovação das anteriores medidas. .“Putin está a matar crianças e civis e a sabotar as esperanças de paz. Este banho de sangue tem de acabar.”Keir Starmer.A iniciativa diplomática de Ursula von der Leyen passou também por uma conversa com o presidente dos EUA, mas nada foi divulgado sobre a mesma. “Putin deve sentar-se à mesa das negociações”, afirmou a presidente da Comissão ao informar sobre o telefonema. “Devemos garantir uma paz justa e duradoura para a Ucrânia, com garantias de segurança firmes e credíveis que transformarão o país num porco-espinho de aço. A Europa desempenhará plenamente o seu papel.”Nem feliz nem surpreendidoDo lado norte-americano o primeiro a reagir foi o enviado especial Keith Kellogg, ao afirmar que os “ataques hediondos ameaçam a paz que o presidente Trump está a tentar alcançar”. Horas depois, a porta-voz da Casa Branca não atribuiu especial importância ao sucedido. Karoline Leavitt disse que o presidente “não está feliz, mas também não está surpreendido” com o ataque russo. Além disso, disse que “estes são dois países que estão em guerra há muito tempo” e, se Trump deseja o fim da guerra, “os líderes dos dois países também devem querer que ela termine”, sinalizando mais uma vez que a pressão à Rússia não aparenta estar na agenda presidencial. Outro sinal foi dado por Leavitt ao equivaler os métodos russos - que configuram crimes de guerra segundo o direito internacional - com a resposta ucraniana: “A Rússia lançou este ataque a Kiev e, da mesma forma, a Ucrânia recentemente desferiu um golpe nas refinarias de petróleo da Rússia.”Os ataques com drones de longo alcance à infraestrutura energética russa deram-se em Samara, uma região do Volga a leste de Moscovo, e na região de Krasnodar, no sul do país. Segundo o comandante das forças não tripuladas, Robert ‘Madyar’ Brovdi, devido aos ataques ucranianos às refinarias e oleodutos, “a gasolina está a tornar-se num bem escasso, e o gás e o petróleo estão a esgotar-se rapidamente”. Segundo o Estado-Maior ucraniano, as instalações da petrolífera Rosneft em Novokuibyshevski, que já tinha sido atingida no início do mês, tinha uma capacidade anual de refinação de 6,25 milhões de toneladas de petróleo por ano, enquanto a refinaria em Afipski, em Krasnodar, processava até 7 milhões de toneladas anuais. A recente campanha ucraniana de ataque à indústria petrolífera já atingiu mais de uma dezena de infraestruturas, o que equivale à perda de mais de 50 milhões de toneladas de petróleo, ou 17% da capacidade de refinação anual do país, segundo cálculos da Reuters realizados antes destes últimos dois ataques. .225Imóveis residenciais foram danificados pela salva de mísseis e drones em Kiev, que causaram pelo menos a morte a 22 pessoas. Vinte e três famílias tiveram de ser realojadas.. Como o comandante ucraniano referiu, as consequências estão à vista: o preço da gasolina subiu mais de 50% e algumas regiões enfrentam a escassez de combustíveis, numa altura em que há mais procura devido ao turismo interno. Na anexada Crimeia, as autoridades russas instituíram um sistema de senhas de racionamento e apelaram para a paciência dos habitantes. Face a esta situação, o governo russo prolongou a proibição das exportações de gasolina (não confundir com o petróleo) até ao fim de outubro.Outros dois ataques ucranianos foram notícia nas últimas horas. Um ou mais drones provocaram um incêndio numa floresta nas proximidades do chamado palácio de Putin, na costa do Mar Negro (região de Krasnodar). O luxuoso edifício foi revelado por Alexei Navalny, o ativista entretanto morto às mãos do regime. Uma corveta russa da classe Buyan-M, que navegava no mar de Azov, junto à península da Crimeia, foi atingida com um drone, tendo ficado danificada no radar. Em resultado, a corveta, que estaria a preparar-se para lançar mísseis de cruzeiro Kalibr, foi obrigada a abortar a missão e a retirar-se, segundo Kiev. Em contrapartida, um drone de superfície atingiu o navio ucraniano de reconhecimento Simferopol, tendo causado pelo menos a morte de um marinheiro e um número indeterminado de feridos.