A primeira-ministra da Nova Zelândia regressou das suas férias de verão e decidiu que não tem energia para enfrentar mais um ano no cargo - ainda para mais um com eleições previstas para outubro e numa altura em que a sua popularidade tem vindo a cair. De surpresa e fazendo um esforço para conter as lágrimas, Jacinda Ardern anunciou que vai deixar a chefia dos trabalhistas e do governo assim que o partido eleger um sucessor ou sucessora, o mais tardar a 7 de fevereiro.."Dei tudo de mim para ser primeira-ministra, mas isso também exigiu muito de mim", disse aquela que, quando foi eleita em 2017, se tornou na mais jovem primeira-ministra do mundo, com 37 anos. "Não posso e não devo fazer o trabalho a menos que tenha um tanque cheio e um pouco de reserva para os desafios não planeados e inesperados que inevitavelmente surgem", acrescentou. "Tendo refletido no verão, sei que não tenho mais aquele pouco extra no tanque para fazer justiça ao trabalho. É simples.".Ardern sabe bem o que são desafios não planeados. Desde que chegou ao poder enfrentou o pior atentado terrorista na história da Nova Zelândia e a pandemia de covid-19, entre outros problemas. A resposta aos ataques contra as mesquitas de Christchurch, que causaram 51 mortos em março de 2019, marcou a sua imagem em todo o mundo. A primeira-ministra foi elogiada não só pela rápida reforma da lei das armas, como pela pressão para que as redes sociais combatessem o discurso de ódio. E pela compaixão e empatia que demonstrou..Já a resposta à pandemia, apresentando um país unido contra a covid-19 - "uma equipa de cinco milhões" - e a transmissão comunitária da doença, garantiu-lhe um segundo mandato de três anos em outubro de 2020, desta vez com maioria absoluta ao contrário do que aconteceu em 2017. Estávamos em plena "Jacindamania", tendo a sua popularidade chegado a ser superior a 60%. Esta quinta-feira, muitos líderes mundiais elogiaram o seu trabalho e inspiração ao longo dos anos..Mas a pressão contínua - o país só reabriu totalmente as fronteiras em agosto do ano passado - e o impacto económica dos confinamentos, deixaram as suas marcas. "Estes acontecimentos têm sido desgastantes por causa do peso, do peso absoluto e da sua natureza contínua. Nunca houve realmente um momento em que sentimos que estávamos apenas a governar", referiu Ardern. "Os políticos são humanos. Damos tudo o que temos, pelo tempo que pudermos, e depois é hora. E, para mim, é hora", afirmou, dizendo saber que muito irá ser dito sobre as "verdadeiras razões" para a sua saída e explicando que não tem planos em relação ao que vai fazer..Ardern deixou ainda claro ter sido um privilégio liderar o país, lembrando que tem a responsabilidade de saber quando não é a pessoa certa para governar. "Espero deixar os neozelandeses com a crença de que podem ser gentis, mas fortes, empáticos, mas decisivos, otimistas, mas focados. E que podem ser os vossos próprios tipos de líder. Alguém que sabe quando é tempo de sair", afirmou Ardern. A crise económica, com a perspetiva de uma recessão e a inflação em alta, assim como o aumento do crime no país, contribuíram para a queda da popularidade de Ardern - era de apenas 29% no mês passado..Nas sondagens para as eleições de 14 de outubro, o Partido Trabalhista surge com 33,1% das intenções de voto, atrás do Partido Nacional, que tem 39,4% - o líder da oposição, Chris Luxon, foi um dos que agradeceu o "serviço" de Ardern, escrevendo no Twitter que ela "deu tudo de si num trabalho extremamente exigente"..A primeira-ministra disse contudo que não sai por ter receio de perder as eleições. "A equipa do Partido Trabalhista está incrivelmente bem posicionada para disputar as próximas eleições", vincou. "Não estou a sair por acreditar que não possamos ganhar as eleições, mas porque acredito que o Partido Trabalhista pode e vai ganhar. Precisamos de novos ombros para os desafios deste ano e dos próximos três", referiu..O sucessor ou sucessora de Ardern pode ser escolhido já este domingo, numa votação entre os 64 deputados do partido. Basta conseguir reunir o apoio de pelo menos dois terços deles. Caso isso não aconteça, a decisão caberá aos militantes do partido, com a primeira-ministra a pedir que o processo fique decidido até dia 7 de fevereiro. Ardern vai continuar como deputada eleita pelo círculo eleitoral de Mt. Albert (nos arredores de Auckland) até abril, de forma a que não seja necessário intercalares para a substituir..A primeira-ministra deixou ainda uma mensagem à família, que disse ter sido quem mais sacrificou: a filha Neve, que faz cinco anos em junho - Ardern foi a primeira chefe de governo desde a indiana Indira Gandhi a ser mãe no cargo -, e o companheiro de uma década, Clarke Gayford. "Para a Neve, a mamã está desejosa de estar lá quando começares a escola este ano. E Clarke, vamos finalmente casar", afirmou. O casamento de ambos estava previsto para janeiro do ano passado, acabando cancelado pela política anticovid da própria Ardern..susana.f.salvador@dn.pt