"Com Bolsonaro, o Brasil está a "nazificar-se""

Adriana Dias, especialista na relação do nazismo com o país, encontrou cartas e cartazes do hoje presidente em sites pró-Hitler, um deles português, de 2004. Para ela, a simbologia do Terceiro Reich do governo de extrema-direita "não é acaso, é projeto"

Adriana Dias, doutora em antropologia social pela Universidade Estadual de Campinas, descobriu em abril, por acaso, cartas e cartazes do então deputado federal Jair Bolsonaro em sites neonazis, um deles com sede em Portugal. Três meses depois, ao ver noticiada na imprensa uma reunião do presidente da República do Brasil com Beatrix von Storch, neta de um ministro de Adolf Hitler e deputada da AfD, partido alemão acusado de xenofobia e ultra-nacionalismo, a pesquisadora sentiu necessidade de tornar público o achado.

A estudar a relação do nazismo com o Brasil desde 2002 - "parece uma vida" - a maior especialista do assunto no país confidencia ao DN que "nunca teve tanto trabalho como nos últimos anos...".

Com Bolsonaro no poder, uma especialista na relação entre o nazismo e o Brasil trabalha mais?
Muito, muito mais. Desde a ascensão do Bolsonaro como candidato começou a aumentar o número de grupos e o número de membros dentro dos grupos neonazis no Brasil em cerca de 60% ao ano. Neste momento está em cerca de 150% ao ano. Em paralelo, aumenta também a violência do discurso desses grupos, anunciando-se ameaças mais visíveis e coisas do tipo.

Nos últimos tempos, encontrou uma carta de Bolsonaro num site neonazi antigo. Como se deu a descoberta?
Nós estávamos a preparar-nos para um colóquio em Minas Gerais quando eu pedi ao meu marido para pegar uns sites que eu pesquisava na época da graduação e do mestrado, em 2004, e aos quais não regressava há muito tempo. Eu denunciava esses sites, com o objetivo de que eles saíssem do ar, por isso, antes de eles saírem do ar, imprimia o conteúdo para pesquisa posterior. Quando estou a folhear, abro exatamente numa carta do Bolsonaro. Apanhei um susto muito grande porque em 2004, o Bolsonaro não estava no meu foco, aliás não estava no foco de ninguém - a não ser dos nazis. Na sequência, eu e a minha assistente varremos todos os sites da mesma altura e encontramos em mais dois referências a ele, entre os quais num, muito famoso, com sede em Portugal.

Qual?
O ECONAC. Continha material português e brasileiro, links para todos os sites neonazis mundiais, peças de revisionismo histórico, entrevistas, era muito forte. Foi retirado do ar em 2008. Bom, lá estava um cartaz do Bolsonaro que tinha link para o site bolsonaro.com.br, onde estavam as intervenções dele na Câmara dos Deputados. O ECONAC tinha mais de 300 mil acessos. Entretanto, mais de 90% do tráfego do site do Bolsonaro vinha do ECONAC - isso é fácil de perceber através daquele contadorzinho que havia naqueles tempos para gerir o tráfego na internet. Então era impossível ele não saber que os acessos ao site dele vinham de lá.

A reunião recente com Beatrix von Storch, deputada alemã da AfD, é então apenas a última das muitas eventuais ligações de Bolsonaro com o neonazismo?
Foi essa reunião, com uma neta do ministro das finanças do Hitler [Lutz von Krosigk] que retirou propriedades de todos os perseguidos pelo regime nazi, membro de um partido coalhado de nazis, que me serviu de gancho para alertar a imprensa, porque a minha descoberta do Bolsonaro naqueles sites antigos já é de abril. Mas ele disse lá no cercadinho [lugar à saída do Alvorada onde o presidente costuma falar com apoiantes] que não sabia quem ela era, que não tem tempo para saber quem são as pessoas, ou seja, o presidente da República recebe uma fila de pessoas por dia sem saber quem são? Claro que não é assim, claro que ele sabia mas claro que ele nega. Desde essa descoberta, no entanto, eu vejo todos os sinais dele não como acasos ou como atos aleatórios mas como projeto.

Aquele gesto supremacista branco no Senado de Filipe Martins, conselheiro de Bolsonaro, ou o copo de leite bebido pelo presidente numa live, considerado também símbolo supremacista, são piscadelas de olho a essa base?
É uma forma deles se comunicarem, de manterem a base ativa. Como o Bolsonaro tem um discurso, que chamamos de discurso de superfície, de apoio a Israel, mas não a um Israel real e sim a um Israel imaginado pelos evangélicos conservadores, que são outra das bases de apoio eleitoral do governo, ele precisa de manter um discurso, que chamamos de discurso profundo, o tempo todo para a rede nazi que o apoia desde 2004.

O Brasil é hoje um polo de neonazismo?
O Brasil está a "nazificar-se", sim. Aquele discurso do [ex-secretário da Cultura] Roberto Alvim a imitar o [ministro da propaganda nazi] Joseph Goebbels foi feito em laboratório para ver se as pessoas reagiam.

Quando a bolsonarista Daniela Reinehr, cujo pai é hitlerista, tomou posse como governadora de Santa Catarina, falou-se que esse estado, com muita descendência alemã, seria o epicentro no neonazismo brasileiro. Isso é confirmável?
Não sei se é o epicentro mas é onde existem mais células neonazis e onde as autoridades estaduais vêm sendo mais tolerantes. O Ministério Público local tem tentado mudar isso mas sem o legislativo e o executivo catarinenses ajudarem vai ser difícil mudar completamente.

Há uma sensação de impunidade não apenas lá mas em todo o Brasil com Bolsonaro no poder?
Sim, eles sentem-se apoiados e impuníveis. O ideal seria que a população seja educada a não aceitar movimentos de ódio. Mas, pelo menos, que eles sejam silenciados e sofram coerção para se restringirem ao seu submundo. Quando, pelo contrário, há um presidente com discurso inflamatório que incentiva, claro que no Twitter teremos apoiantes de Bolsonaro legitimados a escreverem "um só povo, uma só nação, um só líder", a tradução do "ein Volk, ein Reich, ein Führer", do Hitler.... Por outro lado, não se esqueça que o Brasil foi o país que mais teve apoiantes do nazismo depois da Alemanha.

Por causa dos descendentes alemães?
Por vários motivos, aliás, a relação do nazismo com a América do Sul ainda precisa de ser mais estudada. Entretanto, no Brasil, a ditadura militar recusou-se a responder a cartas do governo israelita sobre o Josef Mengele [o "anjo da morte" dos campos de concentração viveu por décadas no país], o Getúlio Vargas mandou a Olga Benário [mulher judia do líder comunista brasileiro Luiz Carlos Prestes] para a Alemanha e agora temos esta situação. Quando está sob regime totalitário, o Brasil aproxima-se muito no nazismo.

Qual a solução para travar este crescimento, na sua opinião?
Além de mudar para um governo democrático urgente, claro, temos de gerar um trabalho educacional contra o discurso de ódio e amplificar a legislação. Por exemplo, a lei só criminaliza a suástica como símbolo, daí um professor de Santa Catarina [Wandercy Pugliesi] que tem a suástica na piscina muda-a, na cara do sistema judicial brasileiro, para 88, que significa Heil Hitler, porque o oito é o número da letra H, e está tudo bem porque dizer Heil Hitler não é crime no Brasil. Enfim...

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