Carvão, carros, dinheiro e árvores. O que está em causa na COP26?

Boris Johnson, o anfitrião da cimeira que hoje começa em Glasgow, pediu "compromissos ousados" aos líderes mundiais em quatro áreas. Mas a tarefa não é fácil.

No final de setembro, a um mês do início da cimeira do clima em Glasgow (COP26), o anfitrião Boris Johnson deixou um recado para os líderes mundiais que estarão na cidade escocesa: "Precisamos que todos tragam a sua ambição e ação, para que possamos limitar a subida das temperaturas e colocar o mundo no caminho certo para chegar às zero emissões líquidas. Isso significa compromissos ousados sobre o carvão, os carros, o dinheiro e as árvores: para impulsionar a nossa revolução verde industrial com energia limpa e carros elétricos, fechar a lacuna no financiamento climático prometido às nações em desenvolvimento e deter a desflorestação devastadora." A cimeira começa este domingo, mas porque é que esta não é uma tarefa fácil?

A meta dos 1,5 graus

Ainda antes de chegar aos "compromissos ousados" que o primeiro-ministro britânico defende, é importante estabelecer as metas que o mundo quer alcançar. E é aí que começa o primeiro problema. No Acordo de Paris, em 2015, os países concordaram em manter o aquecimento global "bem abaixo" dos dois graus Celsius em relação aos níveis pré-industriais, defendendo que deviam ser feitos esforços para que este não fosse além dos 1,5 graus.

Já este ano, o relatório do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) avisou que a meta dos 1,5 graus será alcançada já no início da próxima década, mais cedo do que o esperado, com o mundo a caminhar apressadamente para os dois graus (atualmente já estaremos com temperaturas 1,1 ou 1,2 graus acima dos níveis pré-industriais).

Os problemas que o mundo enfrentará com um aumento de 1,5 graus já são graves (subida do nível das águas, mais secas, mais cheias, tempestades mais graves), mas são ainda maiores caso chegue aos dois graus e agravam-se exponencialmente por cada décima acima.

A meta ainda é a que está em cima da mesa, mas como lembrou o enviado para o Clima dos EUA, John Kerry, após uma viagem à China em setembro, os 1,5 graus incluídos no Acordo de Paris eram meramente uma "aspiração". Mais, os dados indicam que ela é praticamente impossível de alcançar (só num cenário no relatório do IPCC é que o mundo consegue reagir, com zero emissões até 2050 e uma quebra de 45% dos níveis de 2010 até 2030, e ainda assim ultrapassando a meta antes de começar a reverter a situação). Pior, as promessas que os líderes mundiais devem levar à COP26 vão culminar num aquecimento na ordem dos 2,7 graus Celsius.

Carvão

O carvão é responsável por 46% das emissões de dióxido de carbono em todo o mundo, pelo que o fim do uso desta energia é considerada essencial para travar o aquecimento global. Nesse sentido, está a ser exigido aos países que acelerem a passagem para as energias verdes, travando a construção de novas centrais a carvão e diminuindo o tempo de vida das atuais.

Mas a China, que é o maior poluidor mundial e é responsável por quase um terço das emissões de dióxido de carbono, tem um plano considerado pouco ambicioso pelos restantes países. Na quinta-feira, Pequim apresentou as suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC, na sigla em inglês), onde atualiza os seus objetivos climáticos. Mas não trouxe novidades. O plano já tinha sido anunciado no ano passado pelo presidente Xi Jinping e passa pela promessa chinesa de começar a reduzir as emissões de dióxido de carbono antes de 2030 e alcançar a neutralidade até 2060.

Ponto positivo: na Assembleia Geral da ONU, Xi Jinping prometeu deixar de financiar projetos de carvão no estrangeiro (era responsável por 70% das novas construções). Contudo, não alargou essa promessa ao que se passa dentro das suas fronteiras e a recente crise energética obrigou a aumentar a produção para baixar preços e as importações.

Para piorar as coisas, a China não está sozinha na sua luta, com a Índia ou a Rússia a considerarem também ser importante reduzir as emissões de dióxido de carbono, mas a oporem-se ao fim do carvão. Um dos argumentos da Índia é que devem ser tidas em conta as emissões per capita, sabendo que estaria em vantagem devido aos seus 1,38 mil milhões de habitantes (só a China tem mais).

Moscovo surpreendeu ao prometer zero emissões até 2060, mas especialistas questionam como isso vai ocorrer quando os planos para o carvão até 2035 implicavam um aumento da produção. Depois há a Austrália, um dos maiores exportadores deste combustível. O primeiro-ministro Scott Morrison prometeu que o país alcançará a neutralizado zero até 2050, mas também que as minas vão continuar a trabalhar o maior tempo possível.

Carros

O carvão não é o único inimigo das alterações climáticas, com os olhos também virados para o petróleo e o gás - grandes empresas petrolíferas foram impedidas de participar na COP26, com as suas promessas de neutralidade zero a não serem levadas a sério. Os meios de transporte são responsáveis por 24% das emissões de carbono e os automóveis por quase três quartos dessas emissões. Daí a aposta que está a ser feita em veículos verdes, com zero emissões, mas para se alcançarem os objetivos de Paris essa transição tem que ser acelerada.

O país anfitrião da COP26, assim como a União Europeia, comprometeram-se a deixar de construir carros poluentes até 2035, com empresas como a Volkswagen, Mercedes-Benz ou GM a apontarem para 2036. Mas grandes mercados como os EUA ou a Índia ainda não se comprometeram nesse mesmo sentido. A China quer que em 2035 todos os carros vendidos no país sejam elétricos ou híbridos.

Contudo, a transição para os veículos elétricos não resolve todos os problemas. Porque o setor automóvel também é responsável por muitas emissões logo no processo de construção dos veículos e, no caso dos elétricos, as explorações dos metais raros necessários para as baterias podem ter um impacto adverso nos ambientes e comunidades locais - muitas das minas estão em países africanos, sendo muitas vezes acusadas de usar trabalho infantil. A aposta tem que ser na reciclagem. De acordo com um estudo do Instituto para Futuros Sustentáveis, esta poderá reduzir a procura de lítio em 25%, de cobalto em 35%, do níquel e do cobre em 55% até 2040.

Por outro lado, continua a haver a pressão dos países produtores de petróleo, que defendem uma abordagem "compreensível" das alterações climáticas. Para eles "não é realista" que a transição energética seja vista como "uma transição dos combustíveis fósseis para as energias renováveis" até 2050. Países como a Arábia Saudita, cuja economia depende dos combustíveis fósseis, não têm qualquer interesse em diminuir a produção e nem querem ouvir falar da recomendação da Agência Internacional de Energia que, este verão, defendeu o fim dos investimentos no setor.

Dinheiro

Promete ser outro dos grandes debates na COP26. As promessas dos países ricos (normalmente os mais poluidores) de dar cem mil milhões de dólares todos os anos para ajudar os países mais pobres (normalmente os que sofrem mais com o aquecimento global) ainda não foi alcançada. No ano passado, ficou-se pelos 80 mil milhões de dólares, sendo que o objetivo dos cem mil milhões anuais pode ser só alcançado em 2023. Pior, os países mais pobres podem precisar de muito mais.

A ideia é esse dinheiro ajudar não só à transição energéticas nesses países, mas também ajudar a mitigar os efeitos das alterações climáticas. E à medida que o aquecimento piora, são esperados mais efeitos adversos e será preciso mais dinheiro. De tal forma que os negociadores dos países mais pobres colocam em cima da mesa na cimeira de Glasgow a necessidade de serem precisos 750 mil milhões anuais.

Há países que já prometeram mais dinheiro, sendo que também é defendido um maior envolvimento do setor privado. O Reino Unido, por exemplo, já disse que vai duplicar os seus compromissos com o financiamento climático, prometendo 11,6 mil milhões de libras nos próximos cinco anos. Os próprios EUA, que regressaram ao Acordo de Paris após terem saído durante a presidência de Donald Trump, também já indicaram que vão duplicar o seu contributo até 2024, para os 11,4 mil milhões por ano. A União Europeia, que é o maior contribuidor anual, com 25 mil milhões de dólares, já frisou que irá pressionar os países desenvolvidos a comprometerem-se com mais dinheiro para os países pobres. Caso não se caminhe neste sentido, o tema das Finanças Climáticas promete ser uma fonte de tensão entre os dois blocos na COP26.

Árvores

Segundo os ativistas, a cada minuto são cortadas 2400 árvores no mundo, o que ao final de um ano equivale à desflorestação de uma área do tamanho da Bélgica (aproximadamente o tamanho do Alentejo). Um dos objetivos do Reino Unido é conseguir um compromisso para travar e reverter a desflorestação, uma vez que as florestas são uma importante fonte de absorção de dióxido de carbono (o corte das árvores é responsável por 10 a 15% das emissões), além de vitais para a biodiversidade.

Na cimeira deverá ser aprovado um acordo para as florestas. Apesar de os pormenores ainda estarem a ser afinados, este deverá abordar quatro áreas: a proteção dos povos indígenas, apontados como os principais defensores das florestas; a promoção de uma cadeia ambientalmente sustentável de oferta e procura de bens; o financiamento para a promoção de uma economia verde; e a defesa de regras que limitem o comércio internacional de produtos ligados à desflorestação.

Uma surpresa será a assinatura do Brasil no acordo, devendo assumir também o compromisso de acabar com a desflorestação ilegal antes de 2030. O país está constantemente debaixo de fogo por causa da Amazónia, sendo que deverá continuar a exigir receber dinheiro para manter a floresta de pé. O presidente Jair Bolsonaro não estará presente.

susana.f.salvador@dn.pt

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