Buscas a casa de Trump põem Justiça na mira dos republicanos

Líder da minoria ameaça com uma investigação ao Departamento de Justiça, que acusa de "politização", logo que os republicanos reconquistarem a maioria na Câmara dos Representantes.

As buscas do FBI à casa do ex-presidente dos EUA Donald Trump, alegadamente à procura de documentos classificados que ele terá levado consigo para Mar-a-Lago após sair da Casa Branca, desencadearam uma forte resposta da parte dos republicanos. O líder da minoria, Kevin McCarthy, ameaça desencadear uma investigação ao Departamento de Justiça, que acusa de ter alcançado um "estado intolerável de politização" e de se ter tornado numa arma dos democratas para impedir que Trump concorra a um novo mandato em 2024.

"Estes são dias sombrios para a nossa nação, a minha bela casa, Mar-a-Lago em Palm Beach, Florida, está sitiada e foi invadida e ocupada por numerosos agentes do FBI", disse Trump num comunicado na noite de segunda-feira (já madrugada em Portugal), explicando que um cofre tinha sido arrombado. "Depois de trabalhar e cooperar com as agências governamentais relevantes, esta busca sem aviso prévio da minha casa não foi nem necessária nem apropriada", acrescentou Trump, que estava em Nova Jérsia na altura. O seu Comité de Ação Política, Save America, aproveitou para lançar um apelo a donativos com o objetivo de fazer frente à "perseguição política" a Trump - que alguns dizem pode lançar a candidatura já este verão.

Os congressistas republicanos, falando de uma "ação sem precedentes", exigiam esta terça-feira respostas tanto do procurador-geral, Merrick Garland, como do diretor do FBI, Christopher A. Wray, querendo que testemunhem no Congresso para explicar as buscas. O líder da minoria foi mais longe, ameaçando com uma investigação ao Departamento de Justiça quando os republicanos reconquistarem - ele espera já em novembro - a maioria na Câmara dos Representantes. O próprio ex-vice-presidente Mike Pence, que não saiu nos melhores termos com Trump, mostrou-se "profundamente preocupado" e apontou o dedo à "partidarização" do Departamento de Justiça.

Documentos desaparecidos

As buscas estão relacionadas com o desaparecimento de documentos oficiais da Casa Branca. Por lei, os presidentes estão obrigados a transferir todas as cartas, documentos de trabalho e emails para os Arquivos Nacionais, sendo que Trump é acusado também de destruir vários registos quando ainda estava na Casa Branca.

Em fevereiro, o Washington Post tinha revelado que Trump terá levado pelo menos 15 caixas com material para Mar-a-Lago depois de deixar a presidência, tendo o departamento responsável por manter os arquivos alertado a sua equipa para o facto de documentos importantes estarem desaparecidos. Trump adiou a entrega das caixas, só o fazendo após ser ameaçado que seriam empreendidas ações para as recuperar. O Departamento de Justiça foi então notificado.

Para proceder às buscas inéditas, o FBI teria que convencer um juiz de que há causa provável para pensar que houve um crime - apesar de o facto de estas terem ocorrido não significa que Trump cometeu um crime - e que provas podiam ser encontradas no local. Ainda não é claro o que é que procuravam, sendo que agentes federais já tinham estado na propriedade com autorização de Trump. Dado o impacto destas buscas, elas teriam também que passar quase de certeza pelos líderes do FBI e do Departamento de Justiça. Estes organismos mantinham esta terça-feira o segredo em relação às buscas.

Outros processos: do 6 de janeiro à difamação

Invasão do Capitólio:
A comissão de congressistas que está a investigar os eventos de 6 de janeiro de 2021 não tem poder para acusar o ex-presidente de crimes federais, mas pode enviar as suas conclusões para os procuradores. Os trabalhos ainda não terminaram - ainda iam ouvir o ex-chefe da diplomacia Mike Pompeo - mas nas sessões públicas procuraram mostrar como Donald Trump violou a lei ao tentar evitar a derrota nas eleições de novembro de 2021 e instigando o ataque ao Capitólio. Pode ser acusado de conspirar para fraudar os EUA e conspiração para derrubar o governo.

Fraude eletrónica:
A comissão alega que Trump arrecadou 250 milhões de dólares dos seus apoiantes para ir a tribunal provar que as eleições lhe foram roubadas. Contudo, a maior parte do dinheiro foi usado para outros propósitos, pelo que pode ser acusado de fraude eletrónica.

Manipulação eleitoral na Geórgia:
A 2 de janeiro de 2021, Trump telefonou ao secretário de Estado da Geórgia, Brad Raffensperger, e pediu-lhe para "encontrar" os votos necessários para reverter a sua derrota no estado. Um grande júri investiga o caso desde maio e Trump pode ser acusado de conspiração para cometer fraude eleitoral, solicitação criminosa para cometer fraude eleitoral e interferência intencional no desempenho das funções eleitorais.

Processos em Nova Iorque:
O procurador distrital de Manhattan, Alvin Bragg, está a liderar uma investigação criminal para perceber se a empresa imobiliária da família Trump deturpou os valores das suas propriedades para garantir empréstimos bancários favoráveis e reduzir impostos. Já a procuradora de Nova Iorque, Letitia James, está a liderar a investigação civil para saber se houve inflação dos valores das propriedades. Trump, que concordou testemunhar neste último caso, rejeita ter feito algo ilegal e acusa os procuradores, ambos democratas, de perseguição política.

Difamação:
E. Jean Carroll, que trabalhou para a revista Elle, processou Trump por difamação em 2019, depois de ele ter negado tê-la violado na década de 1990, acusando-a de querer aumentar as vendas do seu livro com esta alegação.

susana.f.salvador@dn.pt

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