Boris Johnson não resiste, mas também não desiste

Primeiro-ministro cedeu depois de mais de meia centena de demissões no seu governo, desencadeando uma corrida à liderança do Partido Conservador. Mas quer continuar no poder até ser eleito o sucessor ou sucessora, o que poderá ser só depois do verão.

Menos de 24 horas após ter dito que não iria sair, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, acabou por não resistir à pressão da demissão dos seus ministros e anunciar que vai deixar a liderança do Partido Conservador e eventualmente a chefia do governo. A corrida para lhe suceder está lançada, mas Johnson não desiste e continua no poder até ser escolhido um sucessor ou sucessora, num processo que poderá só ficar terminado depois do verão. Mas há quem defenda que não tem condições para ficar e deve sair já, nomeando um primeiro-ministro interino. Ele promete não fazer grandes mudanças políticas até sair.

No sistema parlamentar britânico, o primeiro-ministro é o líder do partido mais votado, daí que a demissão de Johnson da liderança partidária vá resultar num novo chefe de governo. Tudo sem a necessidade de eleições gerais. Os prazos do processo eleitoral interno devem ser anunciados na segunda-feira, mas já se sabem os passos que têm que ser dados. Os eventuais candidatos à liderança têm que ter (segundo as regras atuais, que podem contudo ser mudadas) o apoio de oito deputados do partido para formalizar a candidatura - muitos estão a pensar avançar, mas só uma, a procuradora de Inglaterra e Gales, Suella Braverman, já o anunciou.

Depois da formalização dos candidatos, cabe ao grupo parlamentar - que tem 358 membros - reduzir a lista a apenas dois nomes, através de várias votações sucessivas. Na primeira os candidatos têm que ter o apoio de no mínimo 5% dos deputados (18 votos), na segunda de 10% (36), sendo que a partir daí o menos votado vai sendo excluído. A decisão final cabe aos militantes conservadores, que decidem o líder entre os dois nomes escolhidos pelo grupo parlamentar - quando David Cameron renunciou após perder o referendo do Brexit, Theresa May venceu por aclamação depois de a adversária, Andrea Leadsom, ter desistido.

Interino

Apesar de se ter demitido de líder dos conservadores, Johnson, de 58 anos, quer continuar como primeiro-ministro até à escolha do sucessor - eventualmente só em outubro, mês da convenção do partido, visto que as férias parlamentares começam a 22 de julho e só acabam em setembro. Em teoria, Johnson não abdicou da chefia do governo, mantendo os mesmos poderes que tinha até agora. Contudo, num conselho de ministros - entretanto nomeou um novo executivo para os próximos meses -, disse que não irá procurar implementar novas políticas ou mudanças de rumo significativas, deixando as "grandes decisões fiscais" para o sucessor. Mas isso pode deixar o governo paralisado.

Na prática, Johnson será uma espécie de primeiro-ministro interino, apesar de várias pessoas defenderem a sua saída imediata. Uma das vozes mais ativas nesse sentido foi a do ex-primeiro-ministro John Major (1990-1997), que considerou "insensata" e "insustentável" a proposta de ele ficar no cargo após ter perdido o apoio do partido.

Nesse sentido, também não caiu bem o discurso de renúncia, onde ficou claro que sai obrigado porque foi "a vontade do grupo parlamentar conservador que deve haver um novo líder". Johnson repetiu que teve o maior mandato eleitoral de um conservador desde Margaret Thatcher, com uma maioria confortável de 80 deputados, e apontou o dedo à "mentalidade de manada" no Parlamento britânico, lembrando contudo que "ninguém é indispensável" em política.

O primeiro-ministro, que ficará sempre conhecido por ter conseguido o Brexit e se orgulha do processo de vacinação britânico contra a covid-19, acaba por cair não por questões políticas, mas por causa dos escândalos que envolveram o partido. Entre eles o partygate, que poderá ter um segundo ato, já que o primeiro-ministro está a ser acusado de se agarrar ao poder para poder ter a festa de casamento que não teve no ano passado, quando casou em maio com Carrie numa pequena cerimónia, por causa da pandemia. Uma receção maior está prevista para o final deste mês em Chequers, a residência de verão dos primeiros-ministros britânicos, à qual não terá acesso quando deixar o cargo. Downing Street não negou que a festa está a ser preparada.

Oposição

O líder do Partido Trabalhista, Keir Starmer, pediu aos conservadores para afastarem Johnson de imediato, defendendo que não podem "impingi-lo ao país nos próximos meses". Starmer diz que é preciso "uma verdadeira mudança de governo", dizendo estar considerar uma moção de censura contra o governo - mas o Labour não tem a maioria suficiente para que esta possa passar e precisaria do apoio de toda a oposição e de muitos conservadores para ter sucesso. Caso passasse, não desencadearia de imediato eleições antecipadas, tendo os conservadores 14 dias para passar um novo voto, eventualmente com um primeiro-ministro interino.

Quem quer chefiar o governo?

Com a saída de Boris Johnson, vários conservadores estudam entrar na corrida à sucessão. A lista é longa e será reduzida pelos deputados a apenas dois antes de os militantes serem chamados a decidir.

Rishi Sunak: O ex-ministro das Finanças, de 42 anos, é um dos favoritos depois de ter sido um dos primeiros a demitir-se. Isto apesar da polémica em torno da fortuna da mulher - milionária, não pagava impostos no Reino Unido - e de críticas na resposta ao aumento do custo de vida.

Ben Wallace: O ministro da Defesa, de 52 anos, tem-se destacado na resposta britânica à guerra na Ucrânia - e antes disso na saída do Afeganistão. Esta quinta-feira surgia numa sondagem YouGov como o favorito dos conservadores e estará a discutir com a família uma eventual candidatura.

Penny Mordaunt: A ex-ministra da Defesa e atual secretária de Estado para a Política Comercial, de 49 anos, foi uma das vozes mais críticas dentro do governo em relação ao partygate. É uma defensora do Brexit e outra das favoritas dentro do partido.

Sajid Javid: O até há dias ministro da Saúde, que antes tinha estado nas Finanças, é outro dos eventuais candidatos. Aos 52 anos, o filho de um motorista de autocarros oriundo do Paquistão também tem sido questionado sobre a sua fortuna, como Sunak.

Jeremy Hunt: Em 2019, o ex-chefe da diplomacia e ex-ministro da Saúde foi o adversário de Johnson na corrida à liderança. Tem 55 anos e é um dos poucos eventuais candidatos de que se fala que não fez parte do atual governo.

Priti Patel: A ministra do Interior, de 50 anos, é um dos nomes da ala mais conservadora do partido. Era vista como uma das principais aliadas de Johnson, mas também pediu que ele se demitisse. Tem tido uma posição forte contra os migrantes.

Liz Truss: A chefe da diplomacia, de 46 anos, já foi apelidada de "nova Dama de Ferro", numa comparação com Margaret Thatcher. Estava em viagem durante esta crise, a caminho da cimeira do G20 em Bali. Há mais de dez anos que ocupa cargos no governo.

Nadhim Zahawi: O ex-ministro da Educação, nascido no Iraque há 55 anos, foi promovido à pasta das Finanças depois da demissão de Rishi Sunak. Mas horas depois foi um dos que enviou uma carta pressionando Johnson a demitir-se.

Tom Tugendhat: O deputado de 49 anos, ex-jornalista e antigo militar, tem sido um dos mais críticos do governo e no passado não escondeu que gostaria de ser um dia líder do partido.

Suella Braverman: A procuradora-geral para Inglaterra e Gales, de 42 anos, foi a primeira a declarar que era candidata, ainda antes de Johnson anunciar a demissão.

susana.f.salvador@dn.pt

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