Bolsonaro usa manifestações para pedir a cabeça de juiz do Supremo

Adesão aos protestos a favor do presidente e contra os outros poderes da República em Brasília desilude núcleo duro do governo. Alexandre de Moraes foi o alvo da maioria dos ataques.

Jair Bolsonaro usou os protestos a seu favor nesta terça-feira, dia 7, data de celebração da independência do Brasil, para atacar o Supremo Tribunal Federal (STF) em geral e o juiz Alexandre de Moraes em particular. Em discurso em Brasília para milhares de apoiantes com faixas a pedir "intervenção militar já", o presidente da República disse que não pode continuar a admitir que uma pessoa coloque "em risco a liberdade dos brasileiros".

"Não podemos continuar aceitando que uma pessoa específica da região dos três poderes continue barbarizando a nossa população. Não podemos aceitar mais prisões políticas no nosso Brasil. Ou o chefe desse poder enquadra o seu ou esse poder pode sofrer aquilo que nós não queremos", ameaçou. "O Supremo Tribunal Federal perdeu as condições mínimas de continuar dentro daquele tribunal".

Em Brasília, Bolsonaro não citou o nome de Moraes; em São Paulo, onde discursaria seis horas depois perante uma Avenida Paulista cheia, verbalizou o nome do juiz.

"Nós todos aqui, sem exceção, somos aqueles que dirão para onde o Brasil deverá ir. Temos na nossa bandeira escrito ordem e progresso. É isso que nós queremos. Não queremos rutura, não queremos brigar com poder nenhum. Mas não podemos admitir que uma pessoa turve a nossa democracia. Não podemos admitir que uma pessoa coloque em risco a nossa liberdade".

O alvo de Bolsonaro é um juiz de 52 anos, nomeado por Michel Temer para o STF em 2017, que mandou investigar ou prender bolsonaristas que vêm ameaçando a ordem democrática, como, por exemplo, Roberto Jefferson, o ex-deputado que delatou o Mensalão, esquema de compra de deputados no primeiro governo de Lula da Silva de que foi beneficiário. Hoje bolsonarista, Jefferson publicou vídeos, armado, a ameaçar atacar o STF e o Congresso Nacional, outro dos poderes sob mira dos apoiantes do governo.

Moraes, por outro lado, exercerá o cargo de presidente do Tribunal Superior Eleitoral no próximo ano e Bolsonaro já disse não confiar no voto eletrónico, usado no Brasil desde 1995 sem nenhuma comprovação de fraude.

Pelas redes sociais, o juiz disse, a meio do discurso presidencial, que "neste 7 de Setembro, comemoramos a nossa Independência, que garantiu a nossa liberdade e que somente se fortalece com o absoluto respeito à Democracia".

Bolsonaro, entretanto, continuou a falar aos apoiantes, do cimo de um camião ao qual chegou num Rolls Royce conduzido por Nelson Piquet, antigo campeão de Fórmula Um. "Este retrato que estamos vendo neste dia não é de mim nem de ninguém em cima deste carro, este retrato é de vocês, é um comunicado, é um ultimato para todos os que estão na Praça dos Três Poderes, inclusive eu, presidente da República, para onde devemos ir".

Bolsonaro anunciou ainda a convocação do Conselho da República, órgão de consulta do presidente que se pronuncia sobre temas, segundo a Constituição, como "estado de defesa e estado de sítio" e "questões relevantes para a estabilidade das instituições democráticas". "Amanhã estarei no Conselho da República para nós, juntamente com o presidente da Câmara [deputado Arthur Lira], do Senado [senador Rodrigo Pacheco] e do STF [juiz Luiz Fux], com essa fotografia, mostrar para onde nós todos devemos ir".

Fazem parte do órgão o presidente da República, o vice-presidente, os presidentes do poder legislativo, Câmara e Senado, os líderes parlamentares das duas casas, o ministro da Justiça e seis cidadãos - dois escolhidos pela Câmara, dois pelo Senado e dois pelo presidente. Segundo a imprensa, nenhum deles foi informado ainda da convocação.

Depois de falar do camião, Bolsonaro sobrevoou Brasília de helicóptero e terá ficado desiludido com o que o viu. Mesmo reunindo milhares de pessoas, os protestos desiludiram o núcleo duro bolsonarista - segundo o jornal Valor Económico estiveram na capital apenas 5% dos esperados.

"O que ele viu do helicóptero deixou claro o fracasso do plano. As imagens do presidente de cenho franzido enquanto observava a multidão da porta da aeronave eram o retrato da deceção", escreveu a colunista Thais Oyama. "Bolsonaro foi para matar ou morrer, pelo que se viu, a segunda hipótese ficou mais provável", concluiu.

Em paralelo, presidenciáveis em 2022 criticaram o ato e reafirmaram compromisso com a democracia. "Ao invés de somar, Bolsonaro estimula a divisão, o ódio e a violência", disse Lula, líder destacado das sondagens. "Porque este é o papel de um presidente: manter acesa a confiança no presente e no futuro, mostrar que é possível superar os obstáculos, porque é dele que vem o exemplo para o país".

Uma das consequências políticas imediatas dos atos, entretanto, foi um pedido de reunião de Bruno Araújo, presidente do PSDB, o partido de Fernando Henrique Cardoso, Aécio Neves e outros, para discutir pedido de impeachment de Bolsonaro.

Houve manifestações a favor de Bolsonaro também em São Paulo, enchendo a Avenida Paulista, para onde o presidente se deslocou depois de discursar na capital do país, no Rio de Janeiro, nos quais Fabrício Queiroz, o operacional do esquema milionário de corrupção envolvendo a família presidencial foi muito festejado, e em, pelo menos, mais 67 cidades. Em 191 cidades registaram-se protestos contra o governo, o que gerou, até ao fecho da edição, pequenas escaramuças em Brasília e em São Paulo.

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