Jair Bolsonaro pode não ter conseguido derreter a pulseira eletrónica com um ferro de solda após, segundo o próprio, um ataque de paranóia, mas conseguiu, com esse gesto inusitado, derreter boa parte do capital político de que ele, e por extensão a família, ainda dispunha. A direita tradicional brasileira vê chegar agora a oportunidade ideal para lançar a candidatura do menos radical Tarcísio de Freitas à presidência em 2026, contra Lula da Silva, tendo outro nome do grupo – e não um Bolsonaro – como vice.“Os aliados já esperavam a prisão de Bolsonaro, em razão da condenação pela tentativa de golpe de Estado, mas tinham a estratégia pronta para rebatê-la com a tese de perseguição política”, escreve a comentadora política Andréia Sadi no portal G1. “Mas quando Bolsonaro é preso pelas próprias mãos – ao violar uma pulseira eletrónica –, essa estratégia fica enfraquecida”, continua. E completa: “Além disso, há o temor de que o apelido Bolsonaro, embora ajude a ganhar votos, contribua mais ainda para a rejeição”.Para Elio Gaspari, colunista do jornal Folha de S. Paulo, “a direita não precisa mais de Bolsonaro”. “Ela deve-lhe o mérito de a ter tirado do armário mas os surtos transformaram-no num transtorno. O patrono da cloroquina [remédio que o ex-presidente acreditava combater a covid-19], que dizia ter ‘o meu Exército’, tornou-se um mau espírito encostado no velho conservadorismo nacional”.Porém, escreve Gaspari, “será árdua a tarefa de livrar-se do mau espírito sem ofendê-lo, os filhos de Bolsonaro gastam mais tempo condenando Tarcísio do que Lula e o seu governo”. “A prisão de Jair Bolsonaro tem impacto direto nas eleições de 2026, e deve acelerar a reorganização das forças políticas e obrigar a direita a antecipar a escolha do seu candidato, tornando-se menos dependente da família Bolsonaro”, resume o jornalista Octavio Guedes no canal GloboNews. “A tendência é de uma bifurcação inevitável. O Brasil continuará tendo uma extrema-direita bolsonarista, provavelmente liderada pelo clã, mas abre-se espaço para o surgimento de uma liderança moderada, de centro-direita e democrática”, defende.“Líderes do centrão [bloco de partidos de direita e de centro-direita que apoiaram Bolsonaro nos últimos anos] avaliam que o caso [da pulseira violada] enfraquece o ex-presidente e cria espaço para reaquecer a pressão por um dueto presidencial em 2026 liderado por Tarcísio e com um vice oriundo do próprio grupo, isolando os filhos do líder de extrema-direita”, acrescenta Guilherme Arandas, do jornal Diário do Centro do Mundo.O grande desafio para a sucessão é saber o timing dessa ruptura. A questão central é quando essa direita democrática conseguirá romper a pulseira eletrónica que o bolsonarismo colocou na sua perna…”, afirma Octavio Guedes. O sucessorO plano da direita democrática para romper com o bolsonarismo sem cortar relações definitivas com uma corrente e um nome que ainda vale muitos votos é pela via do pragmatismo. Líderes do “centrão” argumentam que a melhor possibilidade de Bolsonaro sair da cadeia antes de cumprir a pena de 27 anos e quatro meses a que foi condenado por golpe de estado e outros crimes é via eleição de Tarcísio.Afinal, o governador de São Paulo, segundo todas as sondagens o nome mais competitivo contra Lula, vem repetindo que lutaria pelo indulto do ex-presidente caso estivesse no Palácio do Planalto.Há, entretanto, dois obstáculos no caminho. O primeiro: Tarcísio hesita em arriscar a disputa pela presidência. O ex-ministro da Infraestrutura de Bolsonaro sabe que a reeleição no governo de São Paulo é tarefa muito mais fácil do que concorrer à presidência da República contra o favorito Lula. Nos cálculos do governador paulista, em 2030, quando o atual presidente já não poderá recandidatar-se, o ainda jovem governador paulista (tem hoje 50 anos) teria muito mais possibilidades de vitória. “Concorrer já seria um all in”, disse sob reserva um aliado de Tarcísio ao jornal Metrópoles, referindo-se à expressão do póquer que significa apostar tudo numa só jogada. O segundo obstáculo: mesmo que Tarcísio aceite a aposta, o bolsonarismo deve insistir num membro da família como candidato a vice. O centrão, no entanto, que já lançou o nome de Ciro Nogueira, ex-ministro de Bolsonaro e presidente do direitista partido Progressistas, para eventual vice de Tarcísio, trabalhará para que isso não suceda. E está em boa posição para o conseguir. Afinal, o deputado Eduardo Bolsonaro caiu em desgraça política, após liderar lóbi para o aumento de taxas contra setores fundamentais da economia brasileira nos EUA; o senador Flávio Bolsonaro, visto como o mais “razoável” dos filhos de Jair, ajudou a precipitar a prisão preventiva do pai ao convocar, com palavras de ordem bélicas, vigílias contra a decisão do Supremo Tribunal Federal; e o nome de Michelle Bolsonaro, mesmo tendo resultados surpreendentes nas sondagens, é rejeitada pelos próprios filhos do ex-presidente. .Jair Bolsonaro começa a cumprir pena de 27 anos em sala de 12m².Bolsonaro justifica tentativa de tirar pulseira eletrónica com “surto, alucinação e paranoia”