Biden não poupa no ataque a Trump que o acusa de fazer "teatro político"

Democrata disse que o "ex-presidente derrotado" dá mais valor ao "ego ferido" do que à democracia. Na resposta, republicano acusou-o de usar o seu nome para dividir mais a América.

O presidente dos EUA, Joe Biden, não poupou ontem nas palavras para atacar o seu antecessor, acusando-o de ser uma ameaça à democracia e de ser o responsável pelo ataque de há um ano ao Capitólio. Mas no seu discurso para assinalar o aniversário nunca se referiu a Donald Trump pelo nome, optando por chamá-lo sempre de "ex-presidente" e até de "ex-presidente derrotado". Em resposta, Trump acusou-o de fazer "teatro político" para distrair do facto de ter "fracassado completa e totalmente" no seu trabalho.

"Pela primeira vez na nossa história, um presidente não só perdeu as eleições, como tentou impedir a transição pacífica do poder quando uma multidão violenta invadiu o Capitólio", disse Biden no seu discurso, reiterando que o que aconteceu foi uma "insurreição armada". O presidente deixou claro que os EUA têm que impedir que isso volte a acontecer e falou nas três grandes mentiras que foram "criadas e espalhadas" pelo antecessor: que a insurreição ocorreu no dia das eleições, que não podemos confiar no resultado desse escrutínio e que aqueles que invadiram o Capitólio são os verdadeiros patriotas.

Biden, que precisou de aclarar a voz várias vezes ao longo do discurso, acusou Trump de "dar mais valor ao poder do que aos princípios". E defendeu que "o seu ego ferido vale mais para ele do que a nossa democracia", já que "não pode aceitar que perdeu". Apoiando os braços no púlpito e inclinando-se para a câmara, quase como se estivesse a falar diretamente para Trump, reforçou a ideia: "Ele não é apenas o ex-presidente. É o ex-presidente derrotado", acentuando esta última palavra.

Trump tinha inicialmente previsto dar uma conferência de imprensa para assinalar a data, mas cancelou-a alguns dias antes para alívio dos republicanos - muitos optaram por ficar à margem dos eventos e acusaram os democratas de "explorarem politicamente" o ataque. Há quase um ano sem redes sociais, o ex-presidente não ficou contudo em silêncio, emitindo um comunicado no qual acusou Biden de usar o seu nome "para tentar dividir mais a América". Para Trump, o discurso do presidente democrata foi um "teatro político", sendo "apenas uma distração para o facto de Biden ter fracassado completa e totalmente."

Uma sondagem da AP e do Centro NORC revelou que dois terços dos norte-americanos descrevem os acontecimentos de 6 de janeiro de 2020 como muito ou extremamente violentos, incluindo 9 em 10 democratas. Mas 3 em 10 republicanos dizem que o ataque durante a sessão em que se certificava a vitória eleitoral de Biden, em que pelo menos cinco pessoas morreram, não foi violento e outros 3 em 10 que foi um pouco violento. Sobre a culpa do ex-presidente, 57% dos inquiridos consideram que tem uma "responsabilidade significativa" sobre o que aconteceu. Um aumento em relação à sondagem de há um ano, quando 50% diziam o mesmo.

Lei eleitoral

Além dos ataques a Trump, Biden lembrou sempre que o poder pertence ao povo - o início do preâmbulo da Constituição dos EUA é precisamente, "nós, o povo", para reforçar essa ideia. O presidente alertou para o risco que existe atualmente, reiterando que não irá permitir que alguém "encoste uma faca ao pescoço da democracia".

Biden questionou depois se os EUA vão ser "uma nação que aceita a violência política como a norma" ou "uma nação onde permitimos que autoridades eleitorais partidárias derrubem a vontade expressa do povo". O presidente disse que os EUA não podem ser essa nação e defendeu que o Senado tem que passar a lei eleitoral que está atualmente em discussão: "Temos que ser firmes, resolutos na nossa defesa do direito de votar e de garantir que esse voto conte." Biden fará um discurso só sobre este tema para a semana. Também a vice-presidente Kamala Harris, que falou primeiro lembrando os acontecimentos de há um ano, chamou a atenção para os perigos da "fragilidade da democracia".

Biden alertou que os riscos não existem apenas nos EUA. "Estamos a viver num ponto de inflexão na história, tanto em casa como lá fora. Estamos de novo envolvidos numa luta entre a democracia e a autocracia", referiu, tendo falado especificamente da China e da Rússia. Segundo Biden, estes são países que querem que os EUA se pareça mais com eles e estão "a apostar que os dias da democracia estejam a chegar ao fim".

Na véspera do aniversário do ataque, o ex-presidente Jimmy Carter, cujo centro que leva o seu nome já monitorizou eleições em quatro dezenas de países, alertou para o risco de colapso das bases da democracia nos EUA. "Temo agora que o que lutámos tão arduamente para conseguir globalmente - o direito a eleições livres e justas, sem impedimentos de políticos e homens-fortes que procuram nada mais do que fazer crescer o seu poder - se tornou perigosamente frágil em casa", escreveu no The New York Times. "A nossa grande nação balança à beira de um abismo cada vez maior. Sem ação imediata, corremos o risco genuíno de um conflito civil e de perder a nossa preciosa democracia", avisou.

susana.f.salvador@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG