Biden em viagem para patrocinar aproximação israelo-árabe

Uma defesa aérea comum na região para travar a ameaça iraniana é um dos objetivos da iniciativa. Em Israel, presidente norte-americano vai ver a primeira arma laser.

O presidente dos Estados Unidos inicia em Israel uma viagem, que o leva ainda à Cisjordânia na sexta-feira e à Arábia Saudita no dia seguinte. Oficialmente motivada por questões de segurança e a pedido de Telavive, a deslocação foi alvo de críticas - a começar pelos democratas - desde o momento em que foi anunciada. Em termos internos, a Administração Biden mantém-se impopular e acumula sinais de não conseguir reverter o seu destino. A visita a um Estado que o próprio tinha condenado como "pária", e a aparente incapacidade para reverter algumas medidas de Donald Trump relativas à Palestina, levaram a equipa presidencial a baixar as expectativas da iniciativa.

O que leva Joe Biden a realizar uma viagem de quatro dias ao Médio Oriente quando, na aparência, não leva na bagagem uma nova abordagem para alguns dos problemas de que os Estados Unidos acabam por ser parte? O patrocínio da aproximação entre Israel e Arábia Saudita e o aprofundamento de uma coligação de Estados contra o Irão é a resposta e não tanto a questão do preço do petróleo, embora esse tema possa vir a ser abordado.

"Seria simplesmente errado olhar para esta viagem como sendo apenas sobre petróleo", disse a porta-voz da Casa Branca, Karine Jean-Pierre.

O líder norte-americano aterra no Aeroporto Ben Gurion, em Telavive - e daí partirá no sábado para Jidá, um percurso carregado de simbolismo, tendo em conta que a Arábia não reconhece Israel, tal como Trump fez em 2017, mas no sentido inverso -, para um primeiro dia dedicado à defesa e armamento israelitas e ao Holocausto.

Biden deverá ver de perto os sistemas de defesa Cúpula de Ferro e o novíssimo Feixe de Ferro (Iron Beam), a primeira arma que usa um raio laser. Os media israelitas adiantam que os norte-americanos deverão avançar com a aquisição deste sistema de defesa aérea.

A prioridade, contudo, é concretizar a ideia de uma defesa comum de Israel e dos países muçulmanos da região. "A motivação número um é a ameaça comum que ambos [líderes árabes e israelitas] pressentem do Irão e dos seus aliados", disse Daniel Shapiro, ex-embaixador dos EUA em Israel.

"Sabem que toda a região está preocupada com o Irão e as suas capacidades crescentes de mísseis balísticos, para não mencionar o seu apoio contínuo ao terrorismo em toda a região", comentou o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional na Casa Branca, John Kirby. Este disse ainda que os EUA estão a estimular a coordenação dos sistemas regionais de defesa aérea como um passo inicial na aliança, "para que haja de facto uma proteção eficaz para lidar com o Irão".

Sem a presença de israelitas, mas com o seu maior aliado presente, Joe Biden irá participar na cimeira do Conselho de Cooperação do Golfo. Diplomatas andaram em intensa atividade nas últimas semanas para apresentar algumas medidas em paralelo.

É esperado que o Egito finalize a transferência de Tiran e Sanafir para a Arábia Saudita: as ilhas do Mar Vermelho, segundo o tratado de paz israelo-egípcio, têm de ser desmilitarizadas com observadores internacionais a assegurá-lo, bem como à liberdade de navegação.

Telavive não obsta à transferência desde que os EUA sejam o garante de que as condições se mantenham. Em contrapartida, é esperado que Riade abra o espaço aéreo aos voos israelitas para oriente, bem como a realização de voos diretos entre Israel e a Arábia Saudita para peregrinos muçulmanos.

Para trás fica a ostracização da Arábia Saudita prometida por Biden na sequência do assassínio do ativista Jamal Kashoggi. Em Jidá, Biden irá encontrar-se com o rei Salman e a sua equipa, o que inclui o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, o homem para quem todas as investigações apontam como o mandante da liquidação de Kashoggi.

No meio destas iniciativas para a chamada normalização das relações com Israel, no seguimento dos Acordos de Abraão, em 2020, que lugar para a Palestina? A administração Biden não reverteu um único passo da política de Trump, apesar da promessa de reabrir o consulado dos EUA em Jerusalém aos palestinianos. A missão palestiniana em Washington, também encerrada durante o mandato do antecessor, continua fechada. E a decisão de Trump reconhecer os colonatos israelitas na Cisjordânia como legítimos não foi revogada.

Para piorar o ambiente, os palestinianos não esconderam a mágoa pelo facto de os norte-americanos terem dito que o assassínio da jornalista da Al Jazeera Shireen Abu Akleh, em maio, por um soldado israelita não foi "intencional, mas antes o resultado de circunstâncias trágicas".

A repórter palestiniano-norte-americana estava a fazer a cobertura de uma intervenção militar no campo de refugiados de Jenin quando foi baleada. O projétil foi enviado para os EUA, mas as perícias foram inconclusivas porque a bala estava "muito danificada".

Biden deverá visitar um hospital em Jerusalém Oriental, o que, a concretizar-se, será a primeira ida de um presidente dos EUA à área de maioria palestiniana fora da Cidade Velha. Do programa faz ainda parte uma visita ao presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, em Belém, momento em que é esperado um anúncio de ajuda financeira por parte de Washington.

cesar.avo@dn.pt

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