Bagdad receia nova escalada de violência entre milícias e EUA 

Os ataques aéreos norte-americanos a milícias pró-iranianas na Síria e no Iraque são a resposta aos ataques de drones, reavivando o receio de um conflito descontrolado.

O primeiro-ministro do Iraque Mustafa al-Khadimi assistiu no sábado ao desfile das Forças de Mobilização Popular (FMP, Hachd al-Chaabi), uma constelação de milícias unificadas criada em 2014 após o ayatollah al-Sistani ter conclamado os fiéis a derrotarem o Estado Islâmico pelas armas. Sete anos depois da criação das FMP, a parada foi uma demonstração do poderio militar das milícias. Horas depois, os Estados Unidos alvejaram instalações das milícias pró-iranianas Kataeb Hezbollah e Kataeb Sayyid al-Shuhada, em dois locais na Síria e um no Iraque, numa ação que o porta-voz do Pentágono descreveu como "ataques defensivos" e "retaliatórios". Na segunda-feira, al-Khadimi teve uma reação invulgarmente dura para com o aliado norte-americano.

Milhares de milicianos desfilaram a pé, em veículos militares e em tanques, ao lado de barcos, drones e armamento numa base militar na província de Dyala para comemorar o sétimo aniversário das FMP, aliança paramilitar dominada pelas fações xiitas pró-iranianas, mas onde também fazem parte grupos cristãos, sunitas e yazidis. "Eu prezo os vossos sacrifícios, e os sacrifícios das forças armadas iraquianas na luta contra o Estado Islâmico", disse do alto do palanque o primeiro-ministro acerca das FMP, integradas no exército em 2017.

A estima do homem que é também o comandante das forças armadas em relação a esta aliança paramilitar ficará por aí. Há um mês, em protesto pela detenção de um comandante, Qasim Muslih, por suspeitas de terrorismo, as FMP cercaram a área dos edifícios governamentais e das embaixadas, a designada zona verde. Graças à integração no exército, as Forças de Mobilização Popular são dotadas anualmente de um valor próximo de dois mil milhões de euros. Nos últimos anos, as fações pró-iranianas expandiram o poder militar, político e económico e nem a liquidação extrajudicial por parte dos EUA ao comandante Abu Mahdi al-Muhandis bem como ao iraniano Qasseim Soleimani, o líder da Força Quds, reverteu ou limitou a tendência.

As fações são acusadas de matar manifestantes que em finais de 2019 exigiam a demissão da elite governante do Iraque. E começaram a atacar as bases onde estão os soldados (cerca de 2500) e pessoal contratado dos EUA. Só neste ano contam-se 40 ataques e o uso de pequenos drones carregados de explosivos pelas milícias para atacar o pessoal norte-americano é uma das principais preocupações da missão militar dos EUA.

Mas perante os ataques aéreos realizados pelas forças norte-americanas, que resultaram em pelo menos sete mortos e seis feridos, o primeiro-ministro iraquiano mostrou-se indignado com a "flagrante e inaceitável violação da soberania e da segurança nacional iraquiana". Disse ainda Kadhimi que "o Iraque reitera a sua recusa em ser uma arena de ajuste de contas", e exortou todas as partes a evitarem qualquer nova escalada. Do lado norte-americano, o secretário de Estado Antony Blinken defendeu os bombardeamentos, os segundos desde que Joe Biden está na Casa Branca. "Esta ação de autodefesa envia uma mensagem muito importante e forte. Espero que a mensagem enviada pelos ataques seja ouvida e dissuada ações futuras", disse Blinken em Roma.

No entanto, os ataques podem ter o efeito contrário. Na segunda-feira a base Al-Omar, na Síria, foi atacada por grupos pró-iranianos. Antes, as FMP disseram que os milicianos atacados pelos EUA estavam no local para evitar que os jihadistas se infiltrassem no Iraque, negando ter participado em quaisquer ataques contra os EUA. "Reservamo-nos o direito legal de responder a estes ataques e de responsabilizar os seus autores em solo iraquiano", disseram as FMP.

Impasse nuclear

Os ataques dos EUA aconteceram dois dias depois de Washington e Paris terem avisado o Irão de que o tempo estava a esgotar-se para regressar ao acordo nuclear de 2015, tendo expressado receio de que as atividades atómicas de Teerão pudessem avançar se as conversações em curso em Viena se arrastassem.

A Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) da ONU afirmou na sexta-feira não ter recebido resposta de Teerão sobre a possível prorrogação de um acordo temporário abrangendo inspeções em instalações nucleares iranianas, que expirou na quinta-feira. A questão do acesso às câmaras de vigilância da AIEA faz parte das negociações em andamento para tentar salvar o acordo nuclear internacional do Irão assinado em Viena em 2015.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros de França, um dos países signatários do acordo, pediu ao Irão que "conceda imediatamente pleno acesso" à AIEA, com o objetivo de "assegurar o conhecimento das atividades nucleares iranianas". Teerão respondeu ontem, por fim, com uma não resposta, ao declarar que não tomou nenhuma decisão sobre apagar ou conservar as imagens gravadas pelas câmaras de vigilância. "Não se tomou nenhuma decisão sobre a eliminação dos dados" gravados por essas câmaras, afirmou o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Said Khatibzadeh. Uma lei aprovada em dezembro pelo Parlamento iraniano restringiu, em fevereiro, o acesso dos inspetores da AIEA a algumas instalações nucleares. Desde então, o regime recusa fornecer imagens das câmaras e de outros instrumentos de supervisão instalados pela agência nesses locais.

Biden e Rivlin discutem Irão

O presidente dos Estados Unidos Joe Biden recebeu ontem na Casa Branca o homólogo de Israel, Reuven Rivlin. A visita acontece a dias de Rivlin terminar o mandato de sete anos - no dia 7 de julho sucede-lhe no cargo Isaac Herzog -, pelo que poderia ser visto como uma visita de cortesia e de agradecimento aos EUA, tal como disse antes de partir para Washington.

Mas foi mais do que isso, tendo discutido com Biden temas como a Síria, a trégua com Gaza e os planos de reconstrução, e o Irão. Sobre o regime iraniano, há um consenso alargado, e que inclui o novo governo de coligação liderado por Naftali Bennett, de que é um erro os Estados Unidos estarem a negociar o regresso ao acordo nuclear.

cesar.avo@dn.pt

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