Avião do antigo ditador Ceausescu vendido em leilão por 120 mil euros

Cerca de 150 colecionadores disputaram o avião do ditador romeno, na noite de quinta-feira, através de licitações feitas por telefone e através da internet.

O avião do antigo ditador romeno Nicolae Ceausescu, que simbolizava a sua independência face à então União Soviética, foi vendido por 120 mil euros num leilão realizado quinta-feira em Bucareste, após ter testemunhado a turbulenta história da Roménia durante décadas.

Cerca de 150 colecionadores e entusiastas da aviação disputaram na noite de quinta-feira, por telefone e pela internet, o aparelho, cuja base inicial de licitação era de 25 mil euros, segundo Alina Panico, porta-voz da casa de leilões Artmark, com sede na capital romena.

Com o carimbo de "República Socialista da Roménia", o avião - "Rombac Super One-Eleven" - de médio curso, foi fabricado em Bucareste, em 1986, e foi o quinto de um total de nove projetados sob licença da British Aircraft Corporation (BAC).

A Roménia tornara-se o primeiro país da Europa Oriental a fabricar aviões a jato fora da extinta URSS.

Tratava-se de uma forma de "coroar a independência industrial" desejada por Ceausescu (secretário-geral do Partido Comunista romeno entre 1965 e 1989, servindo também, a partir de 1974, como Presidente da República Socialista da Roménia, tendo o Governo sido derrubado na revolução de 1989) para fazer face ao poder soviético.

Ceausescu, que governava a Roménia com "mão de ferro" desde 1965 foi derrubado por um movimento anticomunista e foi executado a tiro em 25 de dezembro de 1989, ao lado de Elena.

"Para os romenos, foi um orgulho construir este tipo de avião com tecnologia de ponta", referiu à agência noticiosa France-Presse (AFP) Gheorghe Mirica, um ex-piloto do exército que pôde testar o "Rombac" durante um voo de teste.

Para atender às exigências do ditador, a cabine teve de ser equipada para incluir um quarto e um escritório, para que, com a mulher, Elena, pudessem jogar gamão, o seu passatempo preferido, disse à AFP, sob anonimato, um antigo piloto que chegou a pilotar o aparelho com o casal.

A história insólita do avião remonta a 1988, quando, na primeira visita de um dirigente comunista a Londres, Ceausescu assinou um contrato no valor de 300 milhões de libras que autorizava a Roménia a fabricar o modelo "Rombac" em Bucareste.

Percecionado, à época, como uma personalidade à parte dentro do bloco soviético, Ceausescu foi recebido em Londres com honras: teve direito a um passeio numa carruagem dourada para o Palácio de Buckingham ao lado da rainha Isabel II e a um banquete de Estado.

Para a BAC, que tinha cada vez mais dificuldade em vender os seus aviões eficientes, mas considerados muito barulhentos, o pacto foi "uma dádiva de Deus", lembrou o ex-piloto à AFP.

Segundo Mirica, além disso, os britânicos também queriam "quebrar o gelo com os países comunistas graças a alguém que se distanciou de Moscovo", sobretudo durante a invasão da Checoslováquia, em 1968, pelas tropas do Pacto de Varsóvia.

Entre os nove exemplares de "Rombac" fabricados na Roménia, alguns voaram com as cores de uma pequena empresa, a LAR, criada na década de 1970 pelo regime comunista com destino exclusivo ara Telavive.

Único país do bloco soviético a manter relações diplomáticas com Israel após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, a Roménia também foi o único país a operar voos para este destino.

Bucareste comprometera-se a fabricar um total de 80 aviões, mas a queda de Ceausescu, em 1989, significou o fim do ambicioso projeto.

O avião presidencial com motivos azuis é então adquirido pela estatal Romavia, que o aluga à empresa paquistanesa AeroAsia, antes de o deixar ao abandono num hangar.

A Romavia abre falência em 2014 e é a sua propriedade que foi agora vendida.

Outros serão alugados para a empresa de baixo custo Ryanair, antes de serem desmembrados ou abandonados.

Para evitar que o famoso avião acabasse no ferro-velho, um punhado de entusiastas conseguiu em março que a aeronave fosse registada pelas autoridades como "património nacional".

"Não pode ser desmembrado ou modificado e, acima de tudo, não pode sair do território romeno", explicou Adrian Ciutan, ex-técnico da "Rombac" e um dos entusiastas.

Nesse sentido, adiantou, poderá transformar-se num um museu e ainda pode voar, desde que o novo proprietário concorde com um investimento significativo para substituir o motor, acrescentou.

Vários aviadores romenos entrevistados pela AFP garantem, porém, que Ceausescu preferia voar num "Boeing 707".

No mesmo leilão, um carro de luxo Paykan Hillman Hunter, doado a Ceausescu pelo Xá do Irão, em 1974, foi comprado por 95.000 euros por um cidadão romeno.

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