Adolf Eichmann. Áudios inéditos do arquiteto do Holocausto revelados agora

Nos áudios, ouve-se o suposto arquiteto do Holocausto a bater numa mosca e a descrevê-la como tendo "uma natureza judaica" e a dizer que os judeus inaptos para trabalhar deviam ser enviados para a "Solução Final".

Seis décadas após o julgamento histórico em Jerusalém de Adolf Eichmann, considerado um dos arquitetos do Holocausto, uma nova série de documentários israelitas revelou áudios das confissões do homem que foi sequestrado, levado para Israel, considerado culpado por crimes de guerra e contra a humanidade e enforcado em 1962.

Os áudios, que haviam sido negadas aos promotores israelitas na altura do julgamento de Einchmann, serviram de base para uma nova série, intitulada "A Confissão do Diabo: As Gravações Perdidas de Eichmann".

As gravações caíram em várias mãos privadas após terem sido feitas em 1957 por um simpatizante holandês do regime nazi, tendo por fim, em 2020, ficado na posse de um arquivo do governo alemão, que por sua vez deu aos criadores da série permissão para as usar.

Eichmann foi para a forca a insistir que era apenas um mero funcionário a cumprir ordens, negando ser responsável pelos crimes de que havia sido considerado culpado. A série documental intercala as palavras de Eichmann, em alemão e a defender o Holocausto, com encenações de encontros de simpatizantes nazis em 1957, em Buenos Aires.

Num documentário que expõe o antissemitismo e a ambição de aniquilar judeus de Eichmann, pode ouvir-se o arquiteto do Holocausto a bater numa mosca que zumbia numa sala e a descreve-la como tendo "uma natureza judaica".

Nos áudios, ouve-se Eichmann a dizer que "não se importava" se os judeus que enviou para Auschwitz vivessem ou morressem, negando ter conhecimento do destino deles durante o seu julgamento. "Judeus que estão aptos para trabalhar deveriam ser enviados para trabalhar. Judeus que não estão aptos a trabalhar devem ser enviados para a Solução Final [a morte], ponto final", ouve-se num áudio, de acordo com o jornal The New York Times.

"Se tivéssemos matado 10,3 milhões de judeus, eu diria com satisfação: 'Bom, destruímos um inimigo'. Então teríamos cumprido a nossa missão", afirmou, referindo-se a todos os judeus da Europa.

O realizador e autor da série e neto de sobreviventes do Holocausto, Yariv Mozer, diz que "esta é uma prova contra os negacionistas do Holocausto e uma maneira de mostrar a verdadeira face de Eichmann".

Os documentários foram recentemente exibidos para comandantes e oficiais do corpo de informações, numa clara indicação da importância com que tem sido visto em Israel.

O julgamento de Eichmann aconteceu em 1961, depois de agentes da secreta israelita, Mossad, o terem sequestrado na Argentina e levado para Israel, tendo sido julgado com base em mais de 700 páginas de transcrições de áudios gravados em Buenos Aires. Contudo, Eichmann afirmou que as transcrições distorceram as suas palavras, desafiando o promotor-chefe, Gideon Hausner, a apresentar os áudios originais, acreditando que estavam bem escondidos.

Os áudios foram feitos por Willem Sassen, um jornalista holandês e propagandista nazi durante a Segunda Guerra Mundial, que fez parte do grupo de nazis que se refugiaram em Buenos Aires. Sassen e Eichmann avançaram para um projeto de gravações tendo em vista a publicação de um livro após a morte de Eichmann.

Após a captura de Eichmann por parte dos israelitas, Sassen vendeu as transcrições à revista Life, que publicou um trecho resumido em duas partes, mas Hausner descreveu essa versão como tendo sido "cosmetizada".

A seguir à execução de Eichmann, os áudios originais foram vendidos a uma editora europeia e posteriormente adquiridos por uma empresa que quis permanecer no anonimato e depositá-los nos arquivos federais alemães em Koblenz, com instruções de que deveriam ser usadas apenas para fins académicos.

As autoridades alemãs e o proprietário dos áudios deram aos cineastas israelitas acesso gratuito a 15 horas das gravações que ainda existem (de um total de cerca de 70 horas).

Uma versão de 108 minutos da série documental estreou como filme de abertura do festival de cinema Docaviv, em Telavive. E uma versão de 180 minutos foi para o ar em três episódios para a televisão israelita. A Metro-Goldwyn-Mayer está a procurar parceiros para licenciar e transmitir a série em todo o mundo.

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