Vozes da rádio russas semeiam o medo na zona de guerra na Ucrânia

Guerra de informação entre Rússia e Ucrânia e falta de acesso a notícias está a deixar confusos muitos ucranianos que estão fechados em caves, sem grande acesso ao que se passa nas ruas. A cidade de Lysychansk é disso um exemplo.

DN/AFP
 | foto Yasuyoshi CHIBA / AFP
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O rádio portátil na cave escura do jardim de infância atingido por um rocket transmitia notícias em russo por ondas de rádio sobre os triunfos militares do Kremlin na Ucrânia.

As seis mulheres assustadas e um homem solitário encolhidos no coração da zona de guerra do leste da Ucrânia não sabiam se deviam acreditar na voz monocórdica ou em quem estava realmente a patrulhar as ruas da cidade sitiada de Lysychansk acima das suas cabeças.

Tudo o que eles sabiam era que seu edifício tinha sido atingido dias antes por uma rajada de morteiros que deixou um rocket não detonado cravado no asfalto num ângulo agudo a poucos passos da porta das traseiras.

© Yasuyoshi CHIBA / AFP

Os seus maiores medos oscilavam entre a ideia de que a única entrada do abrigo onde se encontram pudesse ser bloqueada por destroços e que as forças do Kremlin pudessem bater à porta sem avisar.

"Os russos acabaram de dizer na rádio que conquistaram Bakhmut. É verdade?", pergunta Natalia Georgiyevna de forma ansiosa, referindo-se a uma cidade a cerca de 50 quilómetros a sudeste e que permanece sob o controlo total das forças ucranianas.

"Nós não sabemos nada", acrescenta Viktoria Viktorovna. "Imagino que ainda tenhamos ucranianos por aqui, certo?"

Vozes misteriosas

Quase três meses de guerra transformaram esta cidade de minas de carvão com 100 000 habitantes, a maioria falantes de russo, num terreno baldio onde falta de tudo, desde água e energia até rede de telemóvel.

A maioria das pessoas que saem dos seus abrigos durante as pausas da tarde nos combates vão para a única fonte natural da cidade para repor o seu stock de água, que devem depois ferver para garantir que é segura para beber.

© Yasuyoshi CHIBA / AFP

Algumas das mulheres na cave do jardim de infância disseram que não se aventuravam fora há dois meses. Este isolamento paralisante está a ser agravado pelas transmissões de rádio russas e ucranianas que surgem em ondas de rádio aleatórias e que apresentam notícias contraditórias.

As vozes não identificadas aparecem e desaparecem e, ocasionalmente, simplesmente desaparecem de vez. "Os russos estão a dizer que a ganhar e os ucranianos dizem o mesmo", diz Natalia Georgiyevna. "Quando ainda tínhamos internet conseguíamos ver as notícias. Mas agora... não faço ideia de quem são estas vozes ou de onde vêm".

Vazio informativo

O conceito de lados em guerra preenchendo vazios de informação com propaganda não é novo. A rádio era uma poderosa arma ocidental contra a União Soviética na época da Guerra Fria que Moscovo tentou bloquear.

A Rússia tem transmitido a sua versão das notícias em todo o leste da Ucrânia durante estes últimos oito anos de insurgência separatista pró-russa e que precedeu a invasão por parte do Kremlin iniciada a 24 de fevereiro.

As transmissões de Lysychansk estão a aumentar a sensação de paranoia que parece reinar há semanas nas ruas totalmente sem lei de uma extensa zona industrial junto à frente leste ucraniana. Os russos estão a aproximar-se, vindos de três direções, da cidade irmã de Lysychansk, Severodonetsk, ao norte.

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Os ucranianos estão a lutar com todas as suas forças para impedir os russos de avançar para o sul de um rio estratégico que divide as duas cidades. O que deixou pessoas como o mineiro Oleg Zaitsev preocupado tanto com a identidade dos homens armados que circulam de carro nas ruas como das bombas que caem do céu.

"Tenho medo que algum estranho se dirija a mim e peça os meus documentos. Hoje em dia, nunca se sabe de que lado estão", diz o homem de 53 anos, enquanto caminha de volta à cave. "Eles podem ser russos, e quem sabe o que acontece então."

Conflito urbano

Os moradores dizem que o ataque de morteiros do início da semana pareceu ter sido dirigido à escola primária que fica em frente ao pátio que abrigava uma das unidades ucranianas que defendiam a cidade.

O tema controverso de militares ocuparem prédios civis em tempos de conflito urbano está presente na guerra de propaganda que está a ser travada na Ucrânia.

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Alguns moradores são contra a ideia. Outros dizem que a Ucrânia não tem outra escolha porque a Rússia foi quem trouxe a guerra para as suas cidades.

Yevghen Polchikha, que também está abrigado numa cave, parece menos preocupado com a moralidade de abrigar soldados nas escolas do que com a possibilidade de o rocket que está preso no chão explodir. "Está lá deitado", desabafa o homem, de 58 anos. "O nosso jardim de infância parece robusto o suficiente. Mas nunca se sabe."