Severodonetsk cai, mas Kiev desvaloriza perda e reitera pedido de armamento

Avanço russo teve custo pesado para o exército invasor, alegam ucranianos e analistas ocidentais. Os primeiros acreditam na reversão dos ganhos no terreno com mais meios, os segundos preveem uma estagnação.

César Avó
Uma barricada feita com carros da polícia em Lysychansk, cidade vizinha de Severodonetsk.© ANATOLII STEPANOV/AFP

Um dia depois de um "sinal muito forte" - pegando nas palavras do presidente francês Emmanuel Macron - ter sido enviado de Bruxelas, com a abertura da porta da UE à candidatura de Kiev, e nas vésperas de outras cimeiras (G7 e NATO) em que é de esperar um continuado apoio à Ucrânia e condenação à Rússia, Moscovo obteve uma pequena, mas simbólica vitória na frente da batalha pelo Donbass, com a retirada das tropas ucranianas de Severodonetsk, enquanto o seu chefe da diplomacia insiste em comparar o país invadido com a Alemanha nazi.

Com a guerra resultante da "operação militar especial" russa a entrar no quinto mês, os russos continuam o seu avanço lento na região leste. "Infelizmente, teremos de retirar as nossas tropas de Severodonetsk, porque não faz sentido estarmos em posições destruídas: o número de mortos está a aumentar", disse o governador de Lugansk Serhiy Gaiday nas redes sociais. A cidade tem estado sitiada durante semanas pelas tropas russas, as quais registaram avanços significativos nos últimos dias depois de intensos combates nas ruas.

Para Moscovo, o controlo desta cidade que antes da guerra tinha cem mil habitantes é crucial para assumir o controlo de toda a região de Lugansk que, juntamente com Donetsk, constitui o Donbass. Gaiday comentou que a cidade agora perdida para o inimigo foi "bombardeada quase todos os dias nos últimos quatro meses" e que as tropas russas estão a avançar de Zolote e Toshkivka em direção a Lysychansk.

"Que eles tenham resistido durante um mês e meio é notável", disse o antigo ministro ucraniano da Defesa Andriy Zahorodnyuk. As forças russas, afirmou, estão "no limiar das suas capacidades". "O facto de estarmos a detê-las durante tanto tempo é um feito. Estamos a cansá-las." Segundo o norte-americano Instituto para o Estudo da Guerra, as tropas ucranianas "muito provavelmente reduziram as capacidades globais das forças russas, ao mesmo tempo que impediram que se concentrassem em eixos mais vantajosos", prevendo que "as operações ofensivas russas irão provavelmente estagnar nas próximas semanas".

Enquanto desvalorizou as perdas em Lugansk, o ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano voltou a pedir armamento pesado aos países ocidentais. "Têm vantagem com a artilharia e utilizam-na em toda a sua extensão, mas é a sua única vantagem. Se obtivermos um número adequado de armas pesadas e sistemas de artilharia modernos, estaremos em posição de virar a página a nosso favor", disse Dmytro Kuleba em entrevista ao alemão Bild.

Também Ihor Romanenko, ex-vice-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas da Ucrânia, menorizou a derrota. "É uma pequena perda, ainda há Lysychansk, e Severodonetsk serviu largamente o seu propósito", disse à Al Jazeera. O militar explicou que esta vitória tinha mais importância para Moscovo do que para Kiev, com os russos a deslocarem tropas do sul naquela direção, deixando as regiões de Kherson e de Zaporíjia menos guarnecidas. E é aí que as forças ucranianas estão a recuperar terreno. "A sua fraqueza é que só podem ganhar numa direção operacional de cada vez. Os nossos homens estão a usar esta fraqueza", disse Zahorodnyuk.

O ministro dos Negócios Estrangeiros russo voltou a evocar Hitler, desta vez ao comparar a situação atual ao ataque nazi à União Soviética.

Em Kherson, um funcionário nomeado por Moscovo como chefe do departamento da juventude e desporto da região de Kherson, Dmitry Savluchenko, foi morto numa explosão. Esta é o mais recente ato de guerrilha urbana naquela região do sul, depois de outros dois funcionários pró-russos terem sido alvo. O autarca de Enerhodar ficou em estado grave depois de uma explosão, e um carro armadilhado rebentou junto do gabinete do presidente da câmara de Melitopol, sem causar danos pessoais.

Moscovo em polifonia

A Rússia reagiu aos últimos desenvolvimentos fora do campo de batalha a várias vozes, embora todas críticas, e uma delas, a do chefe da diplomacia, a insistir na narrativa do nazismo, e a distorcer a história a seu favor. "Quando a Segunda Guerra Mundial estava prestes a começar, Hitler reuniu uma parte significativa, se não a maioria das nações europeias, para uma guerra contra a URSS. Hoje em dia, a União Europeia, juntamente com a NATO, está a reunir uma coligação atual para travar uma guerra contra a Federação Russa", disse Sergei Lavrov.

Em visita ao Azerbaijão, o MNE russo entrou em contradição, ao dizer que a decisão da UE em conceder à Ucrânia o estatuto de candidato não representava uma "ameaça ou risco" porque o bloco não é uma aliança militar. Mas aproveitou para se queixar de um "contexto russofóbico".

A porta-voz do seu ministério, Maria Zakharova, disse que a decisão tomada em Bruxelas é mais uma medida para "conter a Rússia". Noutro tom, porta-voz do Kremlin menorizou a decisão dos 27. "São assuntos internos europeus. É muito importante para nós que todos estes processos não tragam mais problemas para nós e mais problemas nas relações destes países connosco", considerou Dmitri Peskov.

Já o seu líder voltou a responsabilizar o Ocidente pela crise alimentar que se avizinha, ao alegar que é "difícil" para a Rússia exportar cereais e considerou uma "histeria" a reação global ao bloqueio russo dos cereais ucranianos. Em resposta, os ministros dos Negócios Estrangeiros do G7 lembraram que as sanções à Rússia não abarcam a exportação de cereais. A alemã Annalena Baerbock disse que Moscovo "tomou refém o mundo inteiro".

cesar.avo@dn.pt