Putin desafia Ocidente "colonialista" com anexação "para sempre" 

Líder russo declarou que Kherson, Zaporíjia, Lugansk e Donetsk passarão a ser da Rússia, enquanto sofre derrotas militares e condenações generalizadas no Ocidente.

César Avó
EPA/YURI KOCHETKOV© Depois de um discurso de 40 minutos e da pompa na cerimónia do Kremlin, Putin dirigiu-se aos moscovitas: "A vitória será nossa", proclamou.

Trinta habitantes de Zaporíjia não chegaram a viver o "dia histórico" proclamado por Vladimir Putin, depois de este ter assinado a anexação daquela região, bem como de outras três ucranianas: um ataque de mísseis atingiu, no início da manhã, um antigo mercado de automóveis onde estavam reunidas dezenas de pessoas que iam levar bens aos familiares ao lado ocupado pelos russos. Além das três dezenas de mortos ficaram ainda feridas 88 pessoas, no que foi o ataque mais sangrento a civis na Ucrânia desde o bombardeamento da estação ferroviária de Kramatorsk, em abril.

Horas mais tarde, Yevhen Balitsky, o suposto representante das vítimas, pelo menos aos olhos da Rússia, foi visto aos gritos junto de Vladimir Putin. Estava com os outros três chefes designados pelo Kremlin das regiões sob ocupação e, de mãos dadas com o ex-agente do KGB, bradaram pela Rússia. Foi o auge de um espetáculo encenado para emprestar legitimidade a uma pretensão ilegal e mascarado com um discurso do presidente russo centrado nas mágoas do passado e nos ataques ao Ocidente e seu "satanismo". O cerimonial teve consequências imediatas: o presidente da Ucrânia pediu a integração do país na NATO, enquanto o secretário-geral da organização juntou a sua voz à larga maioria dos líderes ocidentais e condenou as ações russas.

"O povo escolheu. Foi uma eleição clara. Penso que haverá apoio federal e constitucional para que as quatro regiões passem a formar parte da Federação Russa e isto porque é a vontade de milhões de pessoas." Vladimir Putin

No salão de São Jorge, no palácio do Kremlin, o homem que mexe nas fronteiras dos países vizinhos desde 2008 mostrou-se disposto a negociar com Kiev, mas afirmou que as quatro regiões não são negociáveis e que os seus habitantes serão russos "para sempre". E disse qual é a receita a seguir: "Defenderemos a nossa terra com todas as forças e meios à nossa disposição e faremos todo o possível para garantir a segurança do nosso povo. Esta é a grande missão libertadora do nosso povo."

Putin e os representantes escolhidos por Moscovo das regiões que a Rússia quer anexar.© EPA/GRIGORY SYSOEV / SPUTNIK / KREMLIN POOL

O discurso não deve ter sido transmitido em Donetsk. Um número calculado em cerca de cinco mil soldados russos tentavam escapar de Lyman, cercados pelo exército ucraniano, e retirar-se para Kremina e Svatove, já em Lugansk, que deverão ser os próximos locais a recuperar por Kiev. Para Seth Jones, do grupo de reflexão Centro de Estudos Internacionais e de Segurança, com sede em Washington, a queda de Lyman vai realçar "a desconexão do Kremlin entre a fantasia e a realidade". À Reuters, Jones disse que "através dos referendos fraudulentos, Putin está a tentar consolidar o controlo de áreas que na realidade está a perder" sendo que a perda daquela vila, um ponto logístico importante, é "mais um golpe no objetivo de Putin de se apoderar de todo o Donbass".

"Putin tenta capturar territórios que nem sequer controla no terreno. Nada muda para a Ucrânia: continuamos a libertar a nossa terra e o nosso povo, restituindo a nossa integridade territorial." Dmytro Kuleba

Em Kherson, a outra região que Moscovo reclama como sua, os militares russos estão entrincheirados em largas quantidades, embora nas últimas semanas os ataques continuados de artilharia com precisão estejam a levar a grandes dificuldades logísticas. Na última noite, um bombardeamento atingiu as instalações onde vários oficiais russos viviam na cidade de Kherson. O coronel do FSB Alexei Katerinichev, vice-chefe da segurança, foi morto.

Ao comunicar a sua decisão de incorporar as regiões ucranianas na Federação Russa, Putin insistiu no momento que é para si a maior tragédia, o desmembramento da União Soviética. "Em 1991, as elites de então [os líderes de Moscovo, Minsk e Kiev] decidiram dissolver a URSS sem ouvir a vontade dos seus cidadãos, e as pessoas foram subitamente afastadas da sua pátria. Isto desmembrou a nossa comunidade, tornou-se numa catástrofe nacional", repetindo uma ideia que nega aos ucranianos (e bielorrussos) o seu direito à soberania e autodeterminação.

Para Putin, a invasão da Ucrânia representa um momento de viragem. "A destruição da hegemonia ocidental que começou é irreversível. Nada será como era antes. O campo de batalha para o qual o destino e a história nos chamaram é o campo de batalha do nosso povo, para uma grande Rússia histórica", num piscar de olhos aos nacionalistas.

O seu discurso tentou chegar a vários públicos, e não só aos líderes ocidentais quando prometeu defender o território russo (e por extensão, o ucraniano sob ocupação) com todos os meios, repetindo a velada ameaça nuclear. Aos grupos extremistas, o autocrata deu argumentos, ao dizer que as democracias ocidentais são "ditaduras" responsáveis pelo "declínio da fé e dos valores tradicionais" e que a promoção da cultura ocidental é uma forma de racismo, "não com as características de uma religião, mas sim de um satanismo absoluto".

No seu ataque ao Ocidente, Putin tentou ainda ganhar pontos junto de países que foram colonizados. "As elites ocidentais continuam a ser colonizadoras como sempre foram. Dividiram o mundo nos seus vassalos - os chamados países civilizados - e em todos os outros", continuou. Daí que, num exercício que na língua colonizadora por excelência se chama de whataboutism, o líder russo disse que os países ocidentais não têm "qualquer direito moral" de condenar a anexação de partes da Ucrânia.

Pedido de adesão à NATO

Após ter reunido o Conselho de Defesa e Segurança Nacional, o presidente ucraniano respondeu a Putin, ao dizer que está pronto para negociações, mas "com um presidente russo diferente", e pediu a adesão rápida à NATO - precisamente um dos argumentos do Kremlin, as suas preocupações de segurança devido à expansão da Aliança Atlântica a leste.

A iniciativa de Volodymyr Zelensky recebeu palavras encorajadoras dos chefes da diplomacia dos EUA e do Canadá, mas é sobretudo simbólica, para já. O secretário-geral da NATO Jens Stoltenberg lembrou que há uma "política de portas abertas" e que a Ucrânia tem o direito a decidir o seu caminho, mas uma decisão dessas tem de obter consenso. "O nosso enfoque agora é dar apoio imediato à Ucrânia, para ajudar a Ucrânia a defender-se contra a invasão brutal russa", afirmou.

Enquanto União Europeia, Reino Unido e EUA se preparam para mais sanções à Rússia em resultado da "maior escalada desde o início da invasão", como disse Stoltenberg, o presidente norte-americano deixou uma advertência, ao dizer que nem o seu país nem os aliados se deixarão "intimidar" pelo discurso do líder russo. "Os EUA estão completamente preparados, com os nossos aliados da NATO, para defender cada centímetro do território da NATO. Sr. Putin, não interprete mal o que eu digo: cada centímetro."

cesar.avo@dn.pt