Negociações para formar governo na ressaca da vitória da extrema-direita 

Com maioria absoluta nas duas câmaras após eleições com abstenção recorde, coligação liderada por Giorgia Meloni escolhe nomes para o executivo.

César Avó
Giorgia Meloni à saída da sede do seu partido, na terça-feira.© PA/CLAUDIO PERI

Vencer as eleições foi "quase a parte fácil", disse o diretor do Corriere Della Sera ao comentar os resultados das legislativas de domingo, cujos resultados finais atribuíram 26% dos votos aos Irmãos de Itália, de Giorgia Meloni; 19% ao Partido Democrático, de Enrico Letta; 15,4% ao Movimento 5 Estrelas, de Giuseppe Conte; 8,8% à Liga, de Matteo Salvini; 8,1% à Força Itália, de Silvio Berlusconi; e 7,8% à aliança centrista Ação. Como Meloni, Salvini e Berlusconi assinaram um acordo pré-eleitoral - valorizado na lei eleitoral italiana - que incluiu ainda a lista Nós, Moderados, os 43,7% dos votos transformaram-se em cerca de 60% dos assentos na Câmara dos Deputados e do Senado.

As eleições ficaram também marcadas pela participação mais baixa de sempre, 63,9%, cerca de nove pontos inferior às anteriores, em 2018. Os valores agravam-se entre os menores de 25 anos (não chega aos 50%) e no sul, muito mais pobre do que o norte.

Entre as surpresas, destaque para Luigi Di Maio e Emma Bonino. O até agora ministro dos Negócios Estrangeiros, ex-líder do 5 Estrelas que bateu com a porta do movimento e liderou o Empenho Cívico, não conseguiu mais do que 0,5%. Não foi eleito, tal como Emma Bonino. A até agora senadora do partido +Europa foi representante dos italianos desde 1976, ora em Roma, ora no Parlamento Europeu, mas desta vez o seu partido não passou a barreira dos 3% para eleger deputados e a antiga comissária europeia perdeu o assento no Senado para uma candidata dos Irmãos de Itália.

Por norma, a formação de um governo italiano é um processo de semanas. No entanto, a clara maioria saída das urnas, o calendário - o governo em funções tem de enviar até 15 de outubro um esboço de Orçamento do Estado a Bruxelas -, e a complicada situação económica do país impelem os atores a apressarem-se para a distribuição de papéis.

O primeiro passo formal da nova legislatura dá-se no dia 13 de outubro, com a eleição dos presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados, órgãos que vão ficar com menos representantes em resultado da reforma aprovada em 2020: a Câmara Alta tem agora 200 senadores, em vez de 315, e a Câmara Baixa 400 deputados, menos 230 - o número total de eleitos no Parlamento português.

Só depois é que o presidente, Sergio Mattarella, inicia as audiências para encarregar um candidato para formar o Executivo que terá de merecer a confiança das duas câmaras.

Expulso do Senado em 2013, Berlusconi quer agora ser seu presidente.© MATTEO BAZZI / ANSA / AFP

Salvo alguma surpresa, caberá a Giorgia Meloni esse papel - e será a primeira líder resultante diretamente do voto popular desde 2011. As incógnitas residem nas políticas de uma coligação de conservadores, populistas e nacionalistas, em particular em relação ao exterior (UE e Ucrânia) e às políticas económicas e financeiras.

Vários observadores creem que Meloni e o seu partido tentarão dar sinais positivos à Europa, por exemplo ao escolher para ministro dos Negócios Estrangeiros Antonio Tajani, ex-presidente do Parlamento Europeu, bem como uma figura não controversa para as Finanças, como Fabio Panetta, da comissão executiva do Banco Central Europeu. Mas se Meloni insistir em renegociar os fundos de recuperação e resiliência (200 mil milhões de euros) com a Comissão, ou der ouvidos a Salvini sobre o apoio à Ucrânia, poderá estará a comprar conflitos com os países aliados e a juntar-se à Hungria de Viktor Orbán.

cesar.avo@dn.pt