Cabo Verde. Ulisses Correia e Silva renova maioria absoluta

Vitória do MPD nas legislativas provoca demissão da líder do PAICV, Janira ​​​​​​​Hopffer Almada.

César Avó
Ulisses Correia e Silva prometeu acabar com a pobreza extrema até ao final do próximo mandato.© Fernando DE PINA/LUSA

Três anos consecutivos de seca e uma pandemia que levou à maior contração da economia em 40 anos não levaram os eleitores cabo-verdianos a castigar o Movimento para a Democracia (MpD) do primeiro-ministro Ulisses Correia e Silva. Nas legislativas de domingo, o partido de centro-direita renovou a maioria absoluta, com 48,8% dos votos, o que se traduzirá em 38 eleitos para a assembleia (quando faltava apurar 1,4% das mesas de voto na Europa) composta por 72 deputados.

"Uma vitória conforme o esperado", disse no domingo à noite o líder do MpD e primeiro-ministro de 58 anos. "Fizemos uma boa campanha, um bom combate e conseguimos convencer os cabo-verdianos da justeza daquilo que foi o percurso da governação e da justeza das nossas propostas para o futuro", comentou.

Correia e Silva aproveitou a ocasião para reiterar a sua promessa de vacinar 70 % da população neste ano, retomar o crescimento da economia e, até ao fim do mandato, eliminar a pobreza. O MpD, que apenas perdeu para o Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV) nos círculos do Fogo, Europa, Américas e África, viu o seu líder reafirmar a importância da estabilidade graças a uma maioria parlamentar. "A estabilidade política foi sempre um tema importantíssimo para Cabo Verde. Até agora, todos os governos ganharam com a maioria absoluta e é bom que continuemos nesta senda, particularmente nesta fase, em que temos compromissos e temos desafios maiores", comentou.

Ulisses Correia e Silva, o ex-autarca da Cidade da Praia que pôs termo a 15 anos de governação de José Maria Neves do PAICV, não se coibiu de criticar a oposição, ao denominá-la de "negacionista" e "pouco contributiva". "Fizeram da política uma forma de ataque, não ao governo, mas ao país, com uma política de terra queimada", afirmou, tendo pedido uma oposição "forte, responsável e com sentido de Estado".

A oposição não vai ser comandada por Janira Hopffer Almada. Em função dos resultados, e apesar de ter eleito 30 deputados, mais um do que na legislatura anterior, a candidata de 42 anos demitiu-se.

"Como sempre disse, para mim, a política não pode ser encarada como profissão nem como carreira. Penso que na política é preciso ser-se coerente e consequente e retiro consequências políticas dos resultados destas eleições. Por isso, nos próximos dias apresentarei a minha demissão como presidente do PAICV aos órgãos do partido", reagiu Hopffer Almada aos 38,4% dos votos obtidos na sua segunda candidatura às legislativas.

Motivada pelos resultados das eleições autárquicas, a fasquia de Janira Hopffer Almada estava na vitória. "O PAICV tem uma meta clara, que é ganhar as eleições legislativas de 2021, ter a maioria para formar governo e implementar o projeto Cabo Verde para todos", afirmara.

Vitória a saber a pouco

O outro partido com representação na assembleia, a União Cabo-verdiana Independente e Democrática (UCID), também tem um resultado agridoce. É certo que subiu em percentagem, tendo agora chegado aos 8,8%, e em número de eleitos, passando de três para quatro. No entanto, os democratas-cristãos liderados por António Monteiro só elegem representantes na ilha de São Vicente. E, por outro lado, não alcançaram o objetivo principal de evitar uma maioria absoluta para poder exercer o papel de fiel da balança no parlamento. "Uma vitória que sabe a pouco", comentou o líder do partido.

A dependência do turismo, que representa um quarto do PIB do arquipélago, levou a que Cabo Verde tenha experimentado uma retração económica de 14,8% em 2020. Para 2021 as projeções apontam para uma retoma de 5,8%, "garantidos o controlo da pandemia no Ocidente, em particular nas economias parceiras de Cabo Verde, bem como no país", estima o banco central cabo-verdiano.

cesar.avo@dn.pt