Ameaça nuclear sobe de tom à medida que ucranianos recuperam território 

Líder checheno defende uso de bombas atómicas no dia em que Lyman volta ao controlo de Kiev e se denuncia novo massacre de civis por parte dos russos.

As tropas russas conheceram mais uma derrota ontem, ao abandonarem Lyman, vila na confluência das regiões de Kharkiv, Donetsk e Lugansk e importante via de comunicação ferroviária. E com este avanço ucraniano outros são esperados nos próximos dias na região de Lugansk, podendo repetir-se o cenário ocorrido com a libertação de Izium, em Kharkiv, ou seja, a retomada de um largo pedaço de território.

Só que este sucesso de Kiev decorre horas depois do espetáculo protagonizado por Vladimir Putin no Kremlin e na Praça Vermelha, durante o qual o líder russo garantiu que as quatro regiões anexadas - Lugansk incluída - iriam ser defendidas por todos os meios, pelo que os comentadores do regime exigem medidas. O líder da Chechénia, que já ameaçou invadir a Polónia, pediu o uso de bombas atómicas.

"Não sei o que é que o Ministério da Defesa relata ao comandante-em-chefe [Putin], mas na minha opinião devem ser tomadas medidas mais drásticas, como a declaração da lei marcial nas zonas fronteiriças e o uso de armas nucleares de baixo rendimento", escreveu Ramzan Kadyrov, o líder da região da Chechénia, no final de uma tirada em que culpa o general Lapin, comandante da região, de ter retirado o quartel-general 150 quilómetros das linhas da frente.

"Por mim despromovia-o a soldado raso e, com uma metralhadora nas mãos, enviava-o para a linha da frente para limpar a vergonha com sangue", defendeu o checheno que chefia a região através do terror.

As declarações são as mais explícitas até agora de um aliado de Putin a criticar em específico um militar e, mais grave, a retomar a ameaça nuclear. A retórica recebeu a aprovação de outra figura controversa, Yevgeny Prigozhin, o dono do grupo de mercenários Wagner. "Enviem todos esses pedaços de lixo descalços, com metralhadoras, diretamente para a frente", alargando o leque a outros responsáveis militares.

Enquanto isso, os aliados europeus mostram-se inabaláveis face às ameaças: a ministra da Defesa da Alemanha Christine Lambrecht visitou pela primeira vez a Ucrânia, tendo prometido o envio, em breve, do avançado sistema antiaéreo IRIS-T, e o Le Monde noticiou o envio de mais obuses de longo alcance Caesar de produção francesa (entre seis e 12), que estariam destinados à Dinamarca.

As autoridades ucranianas acusaram entretanto os militares russos de matar 24 civis, incluindo uma grávida e 13 crianças, num ataque a uma caravana numa área recentemente recapturada na região de Kharkiv. Uma investigação preliminar aponta que o ataque a seis automóveis e uma camioneta decorreu no dia 25.

Kiev apelou também à libertação imediata do diretor da Central Nuclear de Zaporíjia, dirigida por ucranianos, mas sob controlo militar de Moscovo, tendo condenado a "detenção ilegal" de Ihor Murashov. Este, segundo a agência nuclear da Ucrânia Energoatom, foi "conduzido numa direção desconhecida", de olhos vendados.

cesar.avo@dn.pt

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