Mais de 500 funcionários do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos pedem ao seu chefe para que comece a descrever a situação na Faixa de Gaza como um “genocídio”, considerando que estão a ser cumpridos os critérios legais para isso. O alto comissário, Volker Türk, admitiu na resposta a “frustração face à incapacidade da comunidade internacional para pôr fim a esta situação”, mas a ONU tem defendido que cabe aos tribunais internacionais determinar se existe um genocídio ou não. Na carta, a que a Reuters teve acesso, um quarto dos cerca de dois mil funcionários lembram que o alto comissariado tem “uma forte responsabilidade legal e moral de denunciar atos de genocídio”. E que não o fazer “mina a credibilidade da ONU e do próprio sistema de direitos humanos”, lembrando as críticas de que foram alvo por não fazerem mais para travar o genocídio no Ruanda, que matou mais de um milhão de pessoas em 1994. Pedem por isso de Türk “uma posição clara e pública”.Várias organizações de direitos humanos, como a Amnistia Internacional, falam de genocídio na Faixa de Gaza, mas nenhum responsável da ONU usa esse termo. A perita independente Francesca Albanese, relatora-especial para os Territórios Palestinianos, também falou em genocídio e agora é alvo de sanções dos EUA. Uma sondagem da Universidade Quinnipiac revelou entretanto que 50% dos eleitores norte-americanos acreditam que Israel está a cometer genocídio na Faixa de Gaza.Segundo a convenção para a prevenção do genocídio, de 1948, este crime é definido como “atos cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso”, seja através da morte dos membros desse grupo, causar-lhes danos físicos ou mentais graves ou submetê-los a condições de vida calculadas para provocar a sua destruição física, total ou parcial. Israel começou a guerra em resposta ao ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023, que matou cerca de 1200 pessoas e permitiu ao grupo terrorista palestiniano fazer 251 reféns (50 deles ainda estão na Faixa de Gaza). Nos mais de 22 meses de operação militar, cerca de 63 mil pessoas já morreram no enclave palestiniano, segundo as autoridades de saúde de Gaza (controladas pelo Hamas) que não diferenciam entre civis e combatentes.Além disso, na semana passada, a agência da ONU que monitoriza a segurança alimentar (IPC, na sigla em inglês) declarou que há na cidade de Gaza uma situação de Fome (no inglês famine, sendo que por vezes a palavra surge em maiúscula em português para diferenciar da simples vontade de comer). “A Fome é uma situação em que pelo menos uma em cada cinco famílias sofre uma extrema falta de alimentos e enfrenta a fome e a miséria, resultando em níveis extremamente críticos de subnutrição aguda e morte”, segundo o IPC, que só a declarou outras quatro vezes em 20 anos. Israel rejeita qualquer acusação de genocídio - a África do Sul apresentou queixa no Tribunal Internacional de Justiça, mas esse processo pode demorar anos - e exige que a declaração de Fome seja retirada. Numa carta enviada ao IPC, o diretor-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita, Eden Bar Tal, alega que este organismo da ONU “escondeu dados contraditórios” e escolheu os números que lhe interessavam, denunciando “um relatório manipulado e forjado, fabricado para fins políticos”. Depois de visitar o sul do enclave palestiniano, a diretora do Programa Alimentar Mundial, Cindy McCain, disse esta quinta-feira (28 de agosto) “basta” e apelou à reabertura dos 200 pontos de distribuição de ajuda desta agência. “Gaza está num ponto de rutura. O desespero está a aumentar e - eu vi isso em primeira mão”, disse, admitindo que está a entrar “um pouco mais de ajuda” mas que isso ainda é “insuficiente” face às necessidades dos mais vulneráveis..Relatora da ONU. Dezenas de empresas "lucram" com "genocídio e ocupação" da Palestina por Israel.“Não é só pelo genocídio que está a acontecer agora que temo pela futura presença de palestinianos em Israel”