A visita de Lula vista do Brasil: Chico, Tivoli e os Lusominions

Além dos acordos assinados e dos recados do presidente sobre política brasileira, imprensa e redes sociais destacaram entrega do Prémio Camões a Chico Buarque, luxos da viagem e a versão Chega do bolsonarismo.
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A visita de Lula da Silva a Portugal mereceu aberturas de página diárias nos três principais diários do país -- Folha de S. Paulo, O Globo e O Estado de S. Paulo --, espaço generoso nos jornais televisivos e, de vez em quando, até diretos nos canais de notícias 24 horas. Os acordos económicos e sociais foram os temas em maior destaque, seguidos dos ecos da guerra na Ucrânia e dos recados do presidente para dentro do Brasil. Mas assuntos à margem do institucional animaram as redes sociais.

Jornais como O Globo, com sede no Rio de Janeiro, ou a Folha, de São Paulo, aprofundaram a declaração conjunta que anunciou "13 novos instrumentos de cooperação para aprofundar as relações bilaterais". "Um dos pontos com maior potencial de impacto é o acordo para concessão de equivalência de estudos, referente ao ensino fundamental e médio, no Brasil, e ao ensino básico e secundário, em Portugal", escreveu a correspondente da Folha em Portugal.

Ela identificou, entretanto, uma gafe de Lula por usar o estereótipo de que todos os portugueses no Brasil são padeiros (ou vice-versa). "Nenhum brasileiro consegue comprar pão de manhã sem conversar com um português", atirou Lula durante a Cimeira Luso-Brasileira.

No Estadão houve menção aos acordos sobre proteção de testemunhas e à cooperação entre a Fundação Oswaldo Cruz, instituição brasileira de pesquisa em Ciências Biológicas, e organismos de saúde portugueses. Todos os jornais se referiram ao acordo para a produção dos Super Tucanos, aviões da Embraer, em Portugal.

O discurso de Lula no Fórum Empresarial, em Matosinhos, foi transmitido ao vivo pela Globonews, mas os comentadores da emissora limitaram as suas opiniões aos ataques de Lula à taxa de juros brasileira de 13,75%, tema recorrente dos primeiros 100 dias de governo, e às críticas do presidente à política de privatização levada a cabo pelos governos anteriores.

Às tantas, questionado sobre a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito às invasões de 8 de janeiro, o próprio Lula repreendeu a imprensa brasileira pelo excesso de interesse em questões locais. "Fazer uma viagem a Portugal, fazer acordos com Portugal, discutir assuntos de interesse do mundo e, depois, eu ficar respondendo a perguntas sobre problemas internos do Brasil, não é muito justo para quem vai nos ouvir."

Os "assuntos do interesse do mundo" a que aludiu Lula incluíram o incómodo tema da guerra na Ucrânia que, segundo a enviada do site Terra, "ofuscou parte da agenda oficial" do presidente do Brasil. "Eu sei o que é integridade territorial e todos sabem que a Rússia errou", disse Lula em Portugal. Afirmação que foi lida por observadores brasileiros como uma espécie de correção de rota face a declarações recentes, em que o político pareceu equiparar as posições de Ucrânia e Rússia no conflito.

O Prémio Camões atribuído, finalmente, a Chico Buarque foi destaque no Jornal Nacional, da TV Globo, o mais assistido e influente dos espaços televisivos noticiosos. A frase "o ex-presidente teve a rara fineza de não sujar o meu diploma do Prémio Camões, deixando o espaço em branco para a assinatura do nosso presidente Lula", a propósito da recusa, em 2019, de Bolsonaro em assinar a distinção, ganhou especial atenção. No fim da reportagem, a pivô da Globo acrescentou que, "procurado pelo Jornal Nacional, o ex-presidente Jair Bolsonaro não quis comentar".

Na cerimónia, Chico fez uma piada a propósito da compra de uma gravata para Lula pela primeira-dama Janja da Silva numa loja na Avenida da Liberdade, dando sequência à controvérsia criada no Brasil sobre o episódio -- uma controvérsia recorrente sempre que governantes do esquerdista PT frequentam lugares luxuosos.

Na Jovem Pan, emissora conotada com o bolsonarismo, um pivô teceu mesmo longas considerações sobre o tema. E um colunista do site Metrópoles assinou um artigo dedicado às compras da primeira-dama na Ermenegildo Zegna. Ainda a propósito de Janja, o site Poder360 deu eco a críticas de André Ventura, do Chega, à condecoração que lhe foi atribuída por Marcelo Rebelo de Sousa.

Na publicação Oeste, próxima do ex-presidente, uma reportagem da SIC a questionar o tamanho da comitiva de Lula foi muito destacada.

O Nossa, site dedicado a temas de lifestyle, dedicou artigo ao Tivoli, sob o título Diária de 22 mil reais, história e luxo: conheça o hotel de Lula em Lisboa. O luxo do hotel foi, aliás, um dos principais alvos da atenção dos repórteres enviados a Portugal.

Nas redes sociais, o discurso de Lula no 25 de Abril, gerou natural repercussão por merecer aplausos de pé da maioria dos deputados, mas também protestos dos parlamentares da "ultradireita portuguesa", como os media brasileiros catalogaram o Chega.

E a criação de um neologismo: aqueles deputados foram chamados na internet por apoiantes de Lula de Lusominions, em alusão ao termo Bolsominions, usado pejorativamente para caracterizar acólitos de Bolsonaro por comparação com o exército de ajudantes do malvado Gru, os Minions (Mínimos, em Portugal), dos filmes de animação da Universal Pictures.

dnot@dn.pt

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