A luso-americana que ajuda imigrantes na fronteira com o México

Advogada e diretora da organização Al Otro Lado, Erika Pinheiro ajuda imigrantes tanto em Tijuana como em San Diego. Ao DN, por Zoom, fala das políticas de Biden e Trump, do apoio às crianças desacompanhadas e do dia em que foi proibida de voltar ao México, onde vive, por ser considerada um perigo à segurança nacional.

São 09h00 em Tijuana, 16h00 em Lisboa, quando Erika Pinheiro entra na chamada de Zoom. É na cidade mexicana que a advogada luso-americana vive com o marido mexicano e o filho. Uma escolha óbvia para quem trabalha dos dois lados da fronteira para a organização Al Otro Lado, a apoiar os migrantes que tentam entrar nos EUA. Filha de portugueses - o pai, de Aveiro, foi primeiro para o Brasil e depois para os EUA já adolescente, a mãe, de Lisboa, tinha 7 anos quando os pais emigraram - que se conheceram e casaram em New Jersey, Erika garante que com Joe Biden na Casa Branca pouco ou nada mudou na fronteira. E desfaz a ideia de que a política de maior abertura do democrata em comparação com Trump esteja a provocar uma vaga de chegadas - "a maior parte já aqui estava antes". A conversa flui em inglês, com Erika a lamentar o seu "portunhol", que quando visita a família em Portugal lhe vale uns bem-humorados: "Ai Erika, que vergonha." Quanto ao trabalho, já lhe trouxe problemas. Como no dia em que foi impedida de reentrar no México porque os EUA tinham posto um alerta de segurança sobre o seu passaporte.

Há dias, Joe Biden disse aos migrantes "não venham". Mas muitos dos que se amontoam na fronteira com o México dizem estar a tentar entrar porque as suas políticas de imigração são mais abertas do que as de Trump. Esperava tantas chegadas?
Não é exatamente assim. O que vejo na fronteira é que a vasta maioria das pessoas que aqui estão estão cá há um ou dois anos. Durante a administração Trump as restrições à entrada devido à covid travaram os pedidos de asilo. Quem chegava à fronteira, em vez de ter acesso ao processo de asilo nos EUA, era imediatamente enviado de volta para o México. Os números que agora vemos, 40% são pessoas que tentam atravessar a fronteira mais do que uma vez. Se comparar 2021 com 2019 os números são semelhantes. Estas pessoas têm uma vaga ideia de que Biden é melhor do que Trump, mas não é o que parece nos media. O que se passa é que essa é uma narrativa que se foi construindo, vinda em parte dos guardas fronteiriços que são apoiantes de Trump. Há muita desinformação e isso reforça o sentimento anti-imigração, o que me preocupa porque foi o que levou à separação de famílias. Começaram a dizer que aquelas pessoas estavam a chegar e que nos queriam invadir. E o governo instituiu políticas cada vez mais duras. Por isso espero que agora olhem para as estatísticas em vez de se deixarem influenciar pela retórica.

Diria que foram então as políticas de Trump - expulsar imigrantes, recusar asilo, separar famílias - que agravaram esta vaga de imigrantes e que não tem que ver com os últimos meses?
Como disse, a maior parte destas pessoas já aqui estavam. Têm estado à espera. Antes de fecharem a fronteira devido às restrições por causa da covid, houve listas de espera - o processo de pedidos de asilo foi desacelerado. Só aqui em Tijuana há 9 mil migrantes que esperaram seis a nove meses até fecharem a fronteira em março de 2020. Estas pessoas estão aqui há quase dois anos. E os que chegaram depois nem sequer têm o nome na lista. Têm estado apenas à espera de que a fronteira reabra. Há muita confusão com este processo de pedidos de asilo. Só os que foram mandados de volta para o México ao abrigo do programa Remain in Mexico é que estão a ser processados neste momento. Diria que agora há mais esperança de que quem não está nesse programa tenha uma oportunidade. Todos os dias vou até à fronteira e falo com estas pessoas, e elas sabem que não cumprem os requisitos. Têm mais fé no presidente Biden do que em Trump, mas há muito desespero. E muita desinformação. A administração Biden cometeu um erro ao não ser mais clara em relação ao plano que tem para estas pessoas. Dizer "não venham" não é um plano.

Dizer "não venham" não vai chegar?
Não. É como dizer a alguém preso num prédio a arder para não sair. Não funciona. Se disserem que precisam de alguns meses para repensar o processo de asilo, as pessoas podem procurar soluções com base nisso. Também é preciso haver soluções para quem está em risco iminente. Temos o humanitarian parole - basta um advogado que apresente o caso e se alguém estiver em risco imediato, essa pessoa entra nos EUA.

O que vemos aqui da Europa é que a construção do muro parou e que parece haver mais abertura, mas aí no terreno a Erika viu mudanças concretas desde janeiro?
A vasta maioria das políticas de Trump permanecem. Mas o processamento dos requerentes de asilo que estavam no programa Remain in Mexico foi retomado. Vejo uma mudança na retórica da Casa Branca. E pessoalmente vejo uma mudança porque a administração Trump me pôs na lista de vigilância e agora estou a trabalhar diretamente com a Casa Branca. Sou uma das líderes da task force de boas-vindas da Califórnia, que junta cem organizações sem fins lucrativos que trabalham com o governo federal para reduzir a necessidade de detenções na fronteira e acelerar o processo de asilo. Isso não acontecia com Trump.

Muitas destas pessoas que estão a chegar ou já estão na fronteira são crianças que chegam sozinhas. Algumas com 6, 7 anos. O que fazem para as ajudar?
Aqui em Tijuana, a Al Otro Lado sempre trabalhou com crianças desacompanhadas. Trabalhamos com abrigos que as acolhem. Acompanhamo-las à fronteira para garantir que os processos avançam e ajudamo-las do outro lado a chegar aos familiares. O que aconteceu no último ano foi que a política que garantia às crianças desacompanhadas acesso ao asilo nos EUA foi alterada com Trump. Muitas foram rejeitadas à fronteira, ficavam retidas nos abrigos no México e se fossem identificadas pelas autoridades mexicanas podiam ser deportadas para os seus países, sem qualquer proteção. Este aumento que se sente agora tem que ver com famílias que mandam as crianças sozinhas porque sabem que os pais não têm hipótese de entrar nos EUA. Vejo isto todos os dias. Há famílias a viverem em acampamentos aqui que não têm condições sanitárias ou de saúde, mas que têm um familiar nos EUA que pode tomar conta dos seus filhos, por isso mandam a criança sozinha atravessar a fronteira. Essa criança de 6 anos não terá chegado aqui sozinha vinda das Honduras. Está na fronteira com a família.

Vê pessoas a tentar fugir de gangues, de assassinos, em situações perigosas. Aqui trata-se de muito mais do que procurar o sonho americano, é deixar para trás essa vida de perigos?
Temos de ter em conta duas coisas. No México o sistema de asilo é completamente desadequado, o orçamento é minúsculo. E há centenas de milhares de pessoas a tentar escapar, vindas não só da América central mas também de muitos outros países, através do México. Muitas destas pessoas preferiam ficar no México: falam espanhol, não arriscariam ser detidas nos EUA, mas o sistema de asilo está tão sobrecarregado que nem é uma possibilidade. E mesmo que alguns tenham estatuto de refugiado, muitas vezes são sequestrados, violados. As pessoas que os perseguiam nos seus países seguem-nos até aqui, sobretudo se tentam escapar a gangues. Para eles, não é seguro. Por isso tentam os Estados Unidos.

Muitas destas pessoas não são do México nem da América Central ou do Sul. De onde vêm?
Só na Al Otro Lado já ajudámos migrantes de mais de 50 países, que falam nem sei quantas línguas. Neste momento estamos a trabalhar com um grupo da Etiópia. Há um aumento do número de russos que chegam à fronteira - sobretudo minorias étnicas. Conheci ontem uma pessoa do Iémen. Acho que tentam vir para o México porque é muito difícil chegar à Europa. E é relativamente fácil para muitos deles irem de avião até ao Brasil ou ao Equador e depois virem a pé até aqui.

Acham mais fácil entrar nos EUA do que na Europa?
Alguns já tinham sido enviados de volta da Europa para a Líbia, onde foram escravizados, e depois vieram para aqui. Há quem tenha perdido familiares afogados no Mediterrâneo. E quando chegam à Europa, as taxas de aprovação dos pedidos de asilo são tão baixas - 1% ou 2% em alguns países -, enquanto nos EUA andam nos 30%.

A própria Erika já foi detida na fronteira... quando foi isso?
Há dois anos. Mas ainda estou a lidar com as repercussões. Na altura havia várias caravanas de migrantes a chegar à fronteira. Nós damos apoio legal a qualquer migrante que chegue, mas as caravanas estavam muito politizadas. Trump tuitava sobre elas. E na altura eu estava a tentar reunir famílias separadas. Tinha feito várias viagens à América Central e penso que isso agitou uma bandeira vermelha. Colocaram-me numa lista de pessoas a vigiar. Vários colegas foram detidos, outros impedidos de entrar no México. Sabíamos que algo se passava. Em janeiro de 2019 eu tinha acabado de conseguir vistos para os pais entrarem no México para se reunirem com os filhos. O meu plano era ir ter com eles à fronteira sul e ajudá-los. Fui então renovar o meu visto nos EUA, expliquei o que fazia, paguei e deram-me o visto. Mas quando estava a regressar ao México, onde vivo com o meu companheiro e o meu filho, de 10 meses na altura, o agente mexicano impediu-me de seguir caminho. Disse que havia algo estranho e para esperar numa sala. Passaram 15 minutos, meia hora. Eu continuava a perguntar o que se passava até que me disseram se eu sabia se havia um mandado de detenção em meu nome nos EUA. Disse que não e esperei de novo. Até que vieram interrogar-me. Se tinha treino com armas? Se fazia parte de um gangue ou milícia? Eram duas páginas de perguntas! Eu respondi a tudo. Levaram as respostas. Nessa altura liguei à minha advogada no México e informaram-me que um governo estrangeiro colocara um alerta no meu passaporte por constituir um risco para a segurança nacional. Os guardas explicaram que, não sendo o México, não podiam fazer nada. Mas que não me iam autorizar a entrar no país. Fiquei histérica. O meu bebé estava no México e não me deixavam ir buscá-lo. Eles arrastaram-me até às autoridades americanas, mas pelo caminho ainda consegui ir buscar o bebé com a ajuda de uma das agentes. De volta aos EUA, demorei um mês a conseguir um visto temporário. Pelo meio consegui que os meus amigos fossem levando o bebé de um lado para o outro da fronteira para o pai o ver. Foi uma experiência horrível, mas o consulado mexicano em San Diego ajudou-me. Entretanto os pais separados das famílias que estava a ajudar tinham chegado à fronteira e pouco mais de um mês depois de ter sido deportada fui ajudá-los a entrar nos EUA. Estava aterrorizada. Mas fi-lo e todos se reuniram com os filhos. Mas com a situação na fronteira, as mesmas questões estão a ressurgir agora. Há quem nos acuse de sermos os culpados do que está a acontecer. Sinto que a história se está a repetir. Já falei com o consulado português no México para ter nacionalidade. Espero ter o passaporte em breve e poder ir a Portugal com a família sem medos.

Trabalha de ambos os lados da fronteira, logo tem contacto com a comunidade portuguesa da Califórnia. Como é que eles veem a chegada destes novos imigrantes?
É preciso não esquecer que a maior parte dos portugueses emigraram para os EUA antes de 1974. As regras eram completamente diferentes, havia um programa ao qual qualquer um podia candidatar-se e, se cumprisse os requisitos, tinha autorização para ficar. Isso deixou há muito de existir. Por vezes fico desiludida com os portugueses porque sei que, como os meus pais, muita gente deixou Portugal por causa da ditadura, por não ter condições, não ter acesso à educação ou ser perseguido politicamente. Mas não tinham de passar pelo sistema de pedidos de asilo para entrar nos EUA. Chegavam e podiam ficar. Hoje muitos voltaram para a Europa e os que ficaram são segunda ou terceira geração. Como eu. Nascemos cá. Temos todos os privilégios. Somos brancos, europeus. É uma experiência completamente diferente da de alguém da América Central que chega à fronteira. Esperava que os portugueses tivessem mais empatia. Mas infelizmente há muitos conservadores. Até apoiantes de Trump. Tendem a alinhar com os conservadores brancos mais do que com a comunidade imigrante como um todo. Depende de onde são. O meu pai vive em New Jersey, onde há muitos imigrantes latinos e os portugueses estão integrados com eles. Têm uma mentalidade diferente de quem vive nos subúrbios, na Califórnia. Como, por exemplo, os congressistas Devin Nunes ou David Valadao, ambos republicanos e conservadores. É a tendência política da comunidade portuguesa.

Este background, como filho de imigrantes, é importante para o trabalho que faz?
Claro. Quando a família da minha mãe veio para os EUA, primeiro veio o pai, depois a mãe, e os filhos um a um. A minha mãe ficou com uma tia em Portugal, entre os dois e os sete anos, e ainda a magoa falar nisso. Com aquela idade não percebia que a mãe não a estava a abandonar. Quando vejo famílias separadas na fronteira, penso na minha mãe e na dor de ficar separada dos pais. E a minha própria separação dos familiares que estão na Europa. Eu sei que posso ir e vir quando quero, mas sinto empatia por quem não pode.

helena.r.tecedeiro@dn.pt

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