O livro de reportagens de Cândida Pinto e David Araújo, à venda desde a semana passada, não foi promovido com a habitual cerimónia de lançamento. Pelo nobre motivo de que a dupla regressou ao país objeto da obra e no qual, há um ano, foi apanhada pelo eclodir da invasão russa..Em 27 capítulos, os repórteres da RTP fazem um retrato do país invadido e das suas gentes num conjunto de reportagens realizadas entre fevereiro e maio de 2022, e que os levou de Kiev a cidades que mais tarde acabariam por ser dizimadas e ocupadas pelas forças russas, como Mariupol e Severodonetsk, outras visitadas logo após a expulsão dos invasores, como Bucha, Irpin, Hostomel e Borodyanka, outras onde a tricolor russa não foi hasteada, como Kharkiv, Kramatorsk ou Zaporíjia, ou ainda Bakhmut, que continua a resistir às investidas de mercenários e exército russo..Sem alguma vez perder a linguagem jornalística nem cair no sentimentalismo, há espaço para explorar alguns temas de bastidores que de outra forma não caberiam no formato de um telejornal. Um capítulo é dedicado aos fixers (o faz-tudo que providencia transporte, tradução e o que mais for preciso) e no qual se conta que o primeiro, Ilya, se despediu no dia 24 para se juntar ao exército; outro sobre os hotéis, ou melhor, sobre as pessoas que lhes dão vida ; ou o último, dedicado às mensagens em forma de fotografia enviadas pelo repórter de imagem à sua filha adolescente..A conversa com o DN desenrola-se ao telefone, durante o almoço de ambos em Kiev, mas o registo da mesma perde-se por falta de memória no gravador. É um contratempo risível se comparado com as dificuldades e provações pelas quais passam no quotidiano os protagonistas de Ucrânia Insubmissa e que os autores retratam através de um registo sóbrio e profissional como é a sua marca, e adicionada por novas camadas que um livro permite, das fotografias de um ao texto de outra..A falta de memória do gravador contrasta também com o estilo vívido do livro, cujos protagonistas e acontecimentos são descritos de forma pormenorizada e integrados em contexto. "Escrevi ainda a quente", diz Cândida Pinto..A veterana jornalista - que aqui se estreia num livro de reportagem depois de ter contado a história de Snu Abecassis em Snu e a vida privada com Sá Carneiro - explica para quem não está familiarizado que os textos das reportagens emitidas foram totalmente reescritos, uma vez que a linguagem é outra. Também David Araújo, que ilustra Ucrânia Insubmissa de forma profusa, distingue a linguagem e o tempo da fotografia em relação à reportagem televisiva, e, claro, que surge em segundo plano. Afinal de contas, o repórter de imagem e fotógrafo, coautor de Estórias por trás da História: Venezuela, é enviado pela estação televisiva..Desafiados a escolher um dos ucranianos com que se cruzaram que melhor encarne o espírito que dá título ao livro, Cândida Pinto prefere destacar o coletivo. Já David Araújo acaba por eleger o casal de noivos escolhido para a capa do livro. Apesar de estarem a servir na Força de Defesa Territorial, os reservistas trocaram alianças não perante um clérigo mas um comandante, uma prova de que a vida continua com as devidas adaptações - em oposição aos horrores testemunhados em Bucha ou Borodyanka. "O amor é estarmos juntos nos tempos de paz mas também durante a guerra. Se atravessarmos a guerra juntos, nenhum problema poderá ser maior", disse a noiva, Anastasia Moshim, aos repórteres..Um ano depois, Cândida Pinto nota que o esforço do governo em combater a corrupção - um ponto central, entre outros, para as negociações de adesão à União Europeia poderem começar - não é apenas fogo de vista e transparece no quotidiano. Para David Araújo, a determinação dos ucranianos não foi quebrada, mas observa que os cidadãos não querem voltar a passar pelo mesmo..Ucrânia Insubmissa Cândida Pinto e David Araújo Dom Quixote 320 páginas.cesar.avo@dn.pt