A guerra que ninguém quer. Taiwan espera pelo melhor, mas prepara-se para o pior

Defesa da democracia é tão sagrada para os taiwaneses, como reunificação da China o é para os governantes de Pequim. Guerra na Ucrânia pode ter muito pouco em comum com situação no estreito de Taiwan, mas pôs na ordem do dia o receio de uma ação de força.

São quatro dezenas, sentados em cadeiras de plástico a tomar apontamentos numas secretárias iguais às que se podem encontrar em qualquer escola. A sala de aula improvisada recebe os civis que decidiram juntar-se ao programa de treino proporcionado pela Academia Kuma. No piso de baixo do edifício adjacente à igreja presbiteriana Ché-lám, no centro de Taipé, os "alunos" escutam com atenção um formador que aponta para uma mira telescópica projetada no ecrã. Ao seu lado, um mapa mostra a ilha de Taiwan e o estreito que a separa da China continental. A matéria, nesta manhã de sábado, é "Guerra Moderna" e a bandeira ucraniana presa ao portão da igreja não deixa dúvidas: inspirados no exemplo da Ucrânia, estes taiwaneses estão a preparar-se para uma eventual invasão por parte da China, que vê a ilha, onde em 1949 os nacionalistas de Chiang Kai-chek se refugiaram após a derrota na guerra civil frente aos comunistas de Mao-Tse tung, como província rebelde. Com Pequim a readmitir nas últimas semanas recorrer à força para conseguir a reunificação.

"Recebemos pessoas de todas as idades. O mais jovem tem 13 anos e o mais velho 70", explica Bruce Hsu. Envergando uma T-shirt preta com o emblema da academia, um urso com uma espingarda nas patas, o co-fundador da academia Kuma vai dizendo que esta não é uma academia militar, "quem depois quiser, pode alistar-se numa". Aqui aprende-se sobre técnicas de guerra modernas, mas sobretudo a proteger-se em caso de invasão, a sobreviver na natureza, a encontrar água, a parar o sangramento e a tratar feridas, mas também a identificar fake news, uma verdadeira arma nos conflitos modernos.

Antigo professor, formado nos Países Baixos e Alemanha, Bruce Hsu fundou a Academia Kuma em junho de 2021, mas garante ter tido muito mais procura desde a invasão da Ucrânia, em fevereiro último.

Com financiamento totalmente privado, a Academia Kuma oferece sete a oito sessões de formação mensais, número que espera duplicar em 2023. Quanto à potencial invasão chinesa, Bruce Hsu, com a ajuda na tradução para o inglês de Raymond C-E Sung, vice-CEO da Taiwan New Constitution Foundation, garante que as sondagens mostram a vontade dos taiwaneses de resistir à reunificação pela força.

Sentado ao lado do amigo, Raymond afirma por seu lado que a sociedade civil "tem de se preparar para o pior". Até porque, "não é uma questão de "se", é uma questão de "quando"". E ele acredita que se um bloqueio da ilha pode acontecer a qualquer momento, uma invasão não deve ocorrer antes de 2025, ou mesmo 2027, simbólico centésimo aniversário do Exército de Libertação Popular.

Quanto ao apoio no terreno dos EUA - que em 1979 cortaram relações diplomáticas com Taiwan , formalmente República da China, mas mantêm relações comerciais e um forte apoio militar -, Raymond acredita que não será necessário: um conflito em Taiwan será disputado sobretudo no mar e no ar, não havendo necessidade de colocar "tropas no solo".

O ministro dos Negócios Estrangeiros de Taiwan também se mostra preocupado. "Se a economia chinesa abrandar - muito culpa da política de covid-zero de Pequim - isso levar à deterioração da estabilidade social e se Pequim não conseguir gerir os protestos, um governo autoritário pode querer criar uma diversão. Taiwan é o ideal." E acrescenta Joseph Wu: "Tememos ser o bode expiatório dos problemas internos chineses".

Apesar de tudo, o chefe da diplomacia taiwanesa garante que a esperança na ilha é que "não deixemos a guerra acontecer", apesar do aumento das tensões com Pequim. Mas até lá "defender Taiwan é a nossa responsabilidade". Daí que defenda estas iniciativas para a mobilização de civis para a defesa territorial.

Refúgio dos nacionalistas

Quando em 1912 os revolucionários chineses derrubaram o império Qing e, liderados por Sun Yat-Sen, fundaram a República da China, Taiwan estava sob ocupação japonesa ( desde 1895) e só em 1945, após a rendição do Japão no final da II Guerra Mundial, é que a ilha passou a estar sob administração chinesa. O momento de viragem deu-se em 1949 quando Chiang Kai-shek, líder do nacionalista Kuomintang, derrotado pelos comunistas de Mao na guerra civil (depois de terem sido aliados na luta contra o ocupante japonês), se muda para Taiwan com o governo da República da China. Foram mais de dois milhões de pessoas a chegar com ele à ilha a que os navegadores portugueses deram o nome de Formosa no século XVI .

Outrora consensual, hoje a figura de Chiang Kai-shek tornou-se divisiva em Taiwan, com os apoiantes a considerá-lo um herói e os detratores e denunciá-lo como um ditador, devido à perseguição a que votou qualquer opositor durante os anos do Terror Branco, e a defender a retirada da sua estátua do Memorial que lhe é dedicado, no centro de Taipé. Verdade é que o enorme edifício branco, de telhado azul, com os seus 89 degraus, um por cada ano de vida do líder, é paragem obrigatória para quem visita a capital taiwanesa. E à hora certa, a mudança da guarda atrai locais e turistas, diante da enorme estátua do companheiro de luta e sucessor de Sun Yat-sen, o "pai" da República da China. Um Chiang que até à sua morte, em 1975, sempre defendeu a intenção de um dia retomar a China, reunificando o país.

Paragem obrigatória é também o Museu do Palácio Nacional. Criado em 1965, ali podemos encontrar uma impressionante coleção de artefactos imperiais chineses - desde cerâmica até caligrafia, passando por pintura e bronzes - muitos dos quais foram levados para Taiwan pelas tropas de Chiang Kai-shek quando se refugiaram na ilha. Duas das peças mais emblemáticas são a Couve de jade e o Rouxingshi, uma pedra de forma de pedaço de carne, que o visitante encontra no terceiro andar do museu.

Taiwan viveu sob a lei marcial até 1987 e viu aos poucos o mundo reconhecer o regime de Mao como o legítimo representante da China. Em 1971 foram as Nações Unidas a dar o lugar da China a Pequim, inclusive como membro permanente do Conselho de Segurança e respetivo direito de veto. Taiwan entretanto ia apostando no desenvolvimento económico, com a criação em 1966 da primeira Zona de Processamento para Exportação. Com o fim da lei marcial, acabou a censura aos media e a proibição de formar partidos políticos, tornando Taiwan na democracia de que tanto se orgulha hoje. E se em 1996, nas primeiras eleições diretas para presidente, Lee Teng-hui, do Kuomintang, foi o vencedor, quatro anos depois o país assistia à primeira transferência de poder executivo, com a eleição de Chen Shui-bian, do Partido Democrático Progressista, para a chefia do Estado.

As delicadas relações com a China continental, essas, continuam a marcar o rumo de Taiwan. Depois de um período de aproximação, durante a presidência de Ma Ying-jeou (2008-2016), do Kuomintang, em que este se chegou mesmo a reunir com o presidente da República Popular da China, Xi Jinping, na qualidade de líderes dos respetivos partidos, em Singapura em 2015. Isto numa altura em que já tinham sido retomados os voos diretos entre a China continental e a ilha, interrompidos desde 1949.

Com o regresso do PDP ao poder, em 2016, e a eleição de Tsai Ing-wen para presidente, as tensões com Pequim reacenderam-se, com a recente visita da presidente da Câmara dos Representantes americana, terceira figura do Estado nos EUA, Nancy Pelosi, a fazer temer uma guerra iminente. Reforçado com um terceiro mandato inédito no último congresso do Partido Comunista Chinês, muitos analistas acreditam que Xi Jinping pode aproveitar o exemplo da invasão russa da Ucrânia para fazer o mesmo em Taiwan. Apesar das claras diferenças entre as duas situações - políticas e até geográficas.

"Acreditamos que todas as partes envolvidas querem manter a paz", garante o vice-ministro da Economia taiwanês. Num encontro em Taipé com jornalistas de todo o mundo, Chern-Chyi Chen recorda que a China é o maior mercado para a economia taiwanesa - em 2020 o comércio através do Estreito foi de 166 mil milhões de dólares. E em 2019, antes da pandemia, a ilha recebeu 2,68 milhões de turistas da China continental. Olhando para estes números, o vice-ministro está convicto que "podemos gerir a relação". E um dos segredos para o conseguir é a indústria dos semicondutores. Apesar do isolamento diplomático - só 14 países mantêm relações diplomáticas oficiais com Taipé - Taiwan é a 21.ª economia mundial e tem um PIB per capita de 35 513 dólares, acima por exemplo do Japão. Taiwan é um dos líderes mundiais na produção de tecnologias de informação e comunicação. A ilha produz 65% dos semicondutores a nível mundial, uma percentagem que ultrapassa os 90% quando falamos dos microchips mais avançados. E se poucos saberão que Taiwan lidera este mercado, os seus clientes são bem conhecidos, a começar pela Apple. Sim, se tem um iPhone no bolso, o microchip é taiwanês. Aliás, o próprio aparelho, de marca americana, é fabricado na China pela Foxconn, uma empresa de Taiwan - apenas um exemplo da complexidade das relações entre os dois lados do Estreito. Tal como é complexa a identidade taiwanesa com uma população que, exceto os 2% de aborígenes, descende de chineses han, dos que foram chegando desde o século XVII aos vindos em 1949.

Mas será que este Silicon Shield, o "escudo protetor" constituído pela liderança na indústria dos semicondutores, chega para proteger Taiwan da China? O vice-ministro da Economia lembra que esta é uma indústria globalizada, sendo a própria China um dos grandes utilizadores dos semicondutores, tal como os EUA. Ou seja, "o Silicon Shield é para toda a humanidade."

Negócios à parte

Por estes dias, quem passeie pelas ruas de Taipé não escapa à campanha para as municipais deste sábado - os edifícios exibem cartazes, carrinha transmitem mensagens dos candidatos e apoiantes dos partidos distribuem folhetos e máscaras (sim, por aqui ainda todos as usam, mesmo na rua) a quem passa. O favorito é Chiang Wan-an, candidato do Kuomintang que em adolescente descobriu ser bisneto de Chiang-Kai shek (o seu pai era filho ilegítimo de Chiang Ching-Kuo, filho de Chiang Kai-shek e presidente entre 1978 e 1988). Jovem e bem-apessoado, a acreditar nas sondagens Chiang Wan-an deverá derrotar Chen Shih-chung, o candidato do PDP, recuperando a capital, seu reduto tradicional, para o KMT, após dois mandatos do independente Ko Wen-je. E se a história serve de lição, com três antigos presidentes da Câmara de Taipé a terem chegado à chefia do Estado, uma vitória de Chiang viria relançar as esperança do KMT de regressar à presidência nas eleições de 2024.

Linda Chen é uma dos voluntários que distribui folhetos com a cara sorridente de Chiang Wan-an junto ao memorial ao seu bisavô. Questionada sobre a relação com a China continental, lá diz que além da vitória do seu candidato na capital, acredita no regresso do Kuomintang ao poder dentro de dois anos e "na reaproximação com Pequim". Um cenário que diz preferível para os dois lados do Estreito.

Também Jeremy, mais um nome adaptado à pronúncia do Ocidente, se mostra otimista quanto ao futuro. Enquanto prepara com toda a minúcia um cocktail atrás do bar, diz "não acreditar" que a invasão chinesa vá acontecer. E afirma mesmo, depois de recorrer ao tradutor no telemóvel: "É bluff."

Enquanto a ilha se vai preparando para o pior, este ceticismo em relação a uma invasão vinda do outro lado do Estreito é sentimento que se repete em vários sectores da sociedade taiwanesa. E o mundo dos negócios não é exceção.

Se a TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Company), fundada por Morris Chang em 1987, é a líder mundial deste sector, a Macronix de Miin Chyou Wu é outra das empresas taiwanesas a dar cartas neste mercado. Na sede em Hsinchu, a menos de uma hora de carro do centro de Taipé, depois de atravessar as montanhas verdejantes em torno da capital. De máscara na cara, Miin Chyou Wu vai contando a história da empresa que fundou em 1988, depois de regressar a Taiwan após uma passagem por Silicon Valley. Apontando para uma capa da Forbes com a sua fotografia lembra que foi o primeiro taiwanês na primeira página da revista vai explicando como hoje a Macronix chega a várias áreas, desde o entretenimento, com a Nintendo como cliente, até aos sistemas para carros inteligentes, passando por telecomunicações ou drones. Mas com a Chin como cliente, não teme que os drones que ajuda a construir possam um dia ser usado contra Taiwan? Miin Chyou Wu desvaloriza a ameaça: "Não tenho uma bola de cristal, não sei o que vai acontecer. Mas preocuparmo-nos demasiado não adianta. O meu pessoal desenvolve novas tecnologias porque gosta do faz". Quanto aos clientes, "seguimos as regras do governo, só temos os clientes que nos dizem que podemos ter".

E imagina um dia uma reunificação com a China continental? Mesma resposta: "Eu faço semicondutores, deixo serem os políticos a tratar disso". E acrescenta: "Os semicondutores são uma tecnologia, não uma arma. Mas espero que sendo tão importantes para todos, todos saibam que têm de os manter seguros".

Também a Delta Electronics faz questão de sublinhar que "enquanto empresa, temos de ficar de fora das questões políticas". Quem o diz é Alessandro Sossa, um italiano há muitos anos a viver em Taiwan, que é o project manager corporate communications desta empresa fundada em 1971 por Bruce Cheng, que, se não faz semicondutores, se dedica a vários sectores ligados ao ambiente, desde edifícios inteligentes, a carros elétricos. "Estamos muito otimistas, estamos a expandir-nos na China", explica Alessandro, acrescentando que o segredo do sucesso da Delta é "dar ao mercado aquilo que ele procura", seja na China ou nos Estados Unidos, onde também trabalham.

Neste momento, Taiwan não esconde que uma das suas metas é chegar ao limite de zero emissões de carbono em 2050, procurando diversificar as suas fontes de energia. Outra das prioridades é encontrar um lugar nas agências e mecanismos das Nações Unidas. Consciente de que pode cooperar com o esforço de muitas destas agências, Taiwan tenta contornar o bloqueio imposto por Pequim, procurando, no mínimo, o estatuto de observador. Mas, mesmo que isso não se sinta nas ruas de Taipé no dia-a-dia, esta é uma ilha que aprendeu a viver sob ameaça constante de uma ação militar chinesa. "Porque é que China e Taiwan não conseguem o que as duas Coreias ou a duas Alemanhas conseguiram na ONU? Porque Pequim quer destruir Taiwan através do seu poder na ONU", garante Raymond Chen-En Sung . Para o vice-CEO da Taiwan New Constitution Foundation esta é uma forma de "dar legitimidade ao Kuomintang. Chiang-Kai Shek foi contra e o KMT é contra, com o argumento de que Taipé também é China". Para já o status quo parece agradar a todos. Vamos ver até quando.

7 DÉCADAS DE RELAÇÕES CHINA-TAIWAN

1949: separação Os comunistas de Mao Tse-tung tomam o poder em Pequim após derrotar os nacionalistas do Kuomintang de Chiang Kai-shek. O KMT foge para Taiwan e forma o seu próprio governo em Taipé.

1971: Pequim recebe a aprovação da ONU Pequim assume o assento da China na ONU. Em 1979, os EUA cortam laços com Taiwan e estabelecem relações diplomáticas com Pequim. Mas mantêm laços comerciais e militares com Taipé.

1987-2004: as relações melhoram Fim da lei marcial, residentes de Taiwan autorizados pela primeira vez a visitar China continental, permitindo que famílias se reúnam. Primeiras conversas diretas entre os dois lados em Singapura em 1993. Em 1995, Pequim suspende negociações em protesto contra visita do presidente taiwanês Lee Teng-hui aos EUA. Em 1996, a China testa mísseis ao largo de Taiwan para dissuadir os eleitores na primeira presidencial democrática da ilha. O KMT perde poder. Ligações comerciais entre dois lados melhoram.

2005-2015: ameaças e conversações Pequim adota lei que autoriza uso da força se Taiwan declarar independência. Em 2008, Taiwan e China retomam negociações após Ma Ying-jeou, do KMT, eleito presidente.

2016: lua de mel terminada Em janeiro de 2016, Tsai Ing-wen, do pró-independência Partido Democrático Progressista, vence presidenciais. Em junho, China suspende comunicações com Taiwan após governo da ilha não reconhecer política de "Uma China".

2021: tensões EUA-China Jatos chineses entram na zona de defesa de Taiwan.

2022: visita de Pelosi provoca fúria A 2 de agosto, a ainda presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, desembarca em Taiwan. China promete "punição" e lança exercícios militares na área. Xi vê poder reforçado no XX Congresso do PCC e reafirma uso da força para reunificar China.

helena.r.tecedeiro@dn.pt

O DN viajou a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Taiwan

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