A antiaborto Metsola é a favorita a presidir ao Parlamento Europeu

Maltesa tem apoio não só do seu grupo parlamentar, como dos Socialistas e Democratas e do Renew, que vão cumprir o acordo que em 2019 tinha permitido eleger David Sassoli.

No dia em que faz 43 anos, a maltesa Roberta Metsola é a grande favorita nas eleições para presidente do Parlamento Europeu. A candidata do Grupo do Partido Popular Europeu (PPE) - o maior do hemiciclo - enfrenta três outros adversários, mas conta com o apoio do Grupo dos Socialistas e Democratas (S&D), apesar da falta de consenso devido à sua posição anti-aborto, e do Renew Europe.

Em 2019, houve um acordo a três entre o PPE, o S&D e o Renew para a partilha de poder, que previa a eleição do socialista David Sassoli (que morreu na semana passada) como presidente do Parlamento Europeu durante a primeira metade do mandato, passando depois a pasta a alguém do PPE. O acordo abria a porta à eleição da conservadora alemã Ursula von der Leyen como presidente da Comissão Europeia e de Charles Michel (do Renew) como presidente do Conselho Europeu.

Os socialistas optaram por não apresentar uma alternativa a Metsola e ontem anunciaram "ter alcançado um acordo com o PPE e o Renew para garantir uma maioria de trabalho estável até 2024", que inclui uma "forte representação institucional do eurodeputados do S&D e acordos num documento de trabalho com as nossas prioridades: estado de Direito, direitos das mulher, dimensão social e regras fiscais". Os socialistas ainda estudaram lançar o seu próprio candidato, temendo a perda de influência ao nível europeu - numa altura em que a esquerda ganhou novo fôlego com a vitória de Olaf Scholz na Alemanha.

Ainda de luto pela morte de Sassoli, os socialistas estão divididos em relação a Metsola. Eleita eurodeputada em 2013 (à terceira candidatura), casada com um finlandês e mãe de quatro filhos, a maltesa é desde 2019 a primeira vice-presidente do Parlamento Europeu, tendo assumido interinamente a presidência nos últimos dias em substituição do italiano. Para o líder do grupo do EPP, Manfred Weber, "Metsola é o rosto de um Parlamento Europeu moderno, virado para o futuro e fonte de inspiração para todos".

Mas apesar do seu currículo de defesa dos direitos LGBT e dos migrantes, é a sua posição anti-aborto que gera problemas à esquerda. Malta é o único país da União Europeia onde a interrupção voluntária da gravidez é totalmente proibida. Esta questão é especialmente significativa, visto que Metsola será a terceira mulher a liderar o Parlamento Europeu - e a primeira foi a francesa Simone Veil, responsável pela aprovação em 1974 da lei da despenalização do aborto em França.

Como resposta, o Grupo dos Verdes e o da Esquerda Unitária optaram por nomear duas feministas, a sueca Alice Bah Kuhnke, no primeiro caso, e a espanhola Sira Rego, no segundo. Qualquer uma delas poderá atrair os votos dos socialistas descontentes com Metsola (o voto é secreto), podendo levar a votação a prolongar-se. O último candidato é o conservador polaco Kosma Złotowski.

A eleição, que Sassoli tinha decidido em dezembro que seria presencial para respeitar a "natureza solene" do ato, será finalmente feita de forma remota, por causa do aumento dos casos de covid-19, provocado pela variante Ómicron. A eleição, presidida pelo socialista português Pedro Silva Pereira (que é o segundo vice-presidente do Parlamento Europeu), será a partir das 9.30 (8.30 em Lisboa), sendo os resultados esperados por volta das 11.00 (10.00 em Lisboa). Para vencer, um candidato tem que ter maioria absoluta - e é aqui que a votação se pode prolongar. Se nenhum tiver essa maioria, haverá novas votações, podendo algum dos candidatos retirar o seu nome ou surgir outros. Caso continue o impasse após a terceira votação, só os dois mais votados avançam para a quarta e última ronda.
Depois de eleita ou eleito o presidente, os eurodeputados elegerão os 14 vice-presidentes - Silva Pereira é de novo candidato - e os cinco questores que, todos juntos, compõem a Mesa do Parlamento Europeu. A votação determinará a composição deste órgão nos próximos dois anos e meio, ou seja, até 2024.

Quem são os outros candidatos?

Alice Bah Kuhnke - A sueca de 50 anos é a vice-presidente e candidata do Grupo dos Verdes/Aliança Livre Europeia (inclui o independente português Francisco Guerreiro). Antiga jornalista, como o falecido David Sassoli, foi ministra da Cultura, antes de ser eleita eurodeputada em 2019. Filha de pai da Gâmbia, é casada e tem três filhos.

Kosma Złotowski - O polaco de 58 anos, eleito pelo partido Lei e Justiça (no poder), é o candidato do Grupo dos Conservadores e Reformistas Europeus. É eurodeputado desde 2014, tendo sido antes autarca de Bydgoszcz, senador e deputado. Também passou pelo jornalismo, é casado e tem dois filhos.

Sira Rego - A valenciana de 48 anos é eurodeputada desde 2019, tendo sido eleita pela aliança Unidas Podemos - é militante comunista dentro da Esquerda Unida. É a candidata do Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Nórdica Verde, do qual é vice-presidente e a que pertencem tanto o Bloco de Esquerda como o PCP.

Rosas brancas no hemiciclo em homenagem a Sassoli

O Parlamento Europeu prestou ontem homenagem ao falecido presidente David Sassoli, com discursos solenes que lembraram o sorriso do italiano, as suas palavras de defesa da democracia e da união da Europa e rosas brancas.

O jornalista que se tornou eurodeputado envolveu-se na juventude com o movimento político católico Rosa Branca, com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen (que o contacto com um caso positivo de covid-19 afastou da cerimónia), a lembrar que esta flor se tornou num "símbolo do seu compromisso político e moral ao longo da vida". O amigo Enrico Letta, ex-primeiro-ministro italiano, lembrou que para Sassoli "a democracia não devia ser tomada como certa" e que era preciso lutar por ela. "Vamos continuar o teu trabalho. As tuas lutas vão continuar a ser as nossas lutas", afirmou.

susana.f.salvador@dn.pt

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