Comunidade homossexual do Uganda lança revista para combater discriminação

O ministro Simon Lokodo já disse que a editora da Bombastic pode vir a ser presa por estar a fazer a apologia e a promoção da homossexualidade.

Uma ativista homossexual do Uganda, onde a homossexualidade é ilegal, lançou uma revista para se defender dos constantes ataques da imprensa sensacionalista e dos políticos contra a comunidade 'gay'.

"Eles escrevem sobre as atividades 'secretas' da comunidade lésbica", disse à France Presse Kasha Nabagesera, de 34 anos, que sublinha ser alvo de ataques constantes da imprensa.

Segundo a AFP, a Bombastic é uma publicação de 72 páginas com reportagens de interesse humano, ensaios, comentários e poemas sobe o "orgulho gay, lésbico, bissexual, transexual, e intersexo (LGBTI) do Uganda".

A maior parte dos textos é assinada com recurso a pseudónimos, mas segundo a nota editorial de Nabagesera, a revista "fala por todos os que não têm voz".

Nos últimos anos, a popular imprensa sensacionalista do país tem usado Nabagesera, assim como os amigos e colegas da ativista, para encher páginas "cheias de invenções".

Alguns políticos de Kampala têm reavivado a "questão anti-gay", propondo nova legislação que apela às tradições conservadores e cristãs do Uganda para criminalizar a "promoção da homossexualidade".

"Eles atacam-me constantemente, inventam histórias sobre como me casei e como treino pessoas para serem lésbicas", disse Nabagesera.

"Muitas pessoas já perderam casa, emprego e famílias", afirmou a ativista, acrescentando que uma amiga sua foi mesmo espancada "em plena luz do dia" depois de o seu nome ter sido publicado nos jornais.

Nabagesera disse que nos últimos quatro anos, a imprensa local tem desempenhado um "papel importante" na intimidação e nos ataques diretos à comunidade LGBTI, após ter noticiado identidades e notícias difamatórias.

Em 2011, o ativista gay David Kato, amigo de Nabagesera, foi espancado até à morte por atacantes que usaram um martelo, poucos meses depois de um jornal ter publicado uma fotografia que o identificava e que era acompanhada do título: "Devem ser enforcados".

Nabagesera teve pela primeira vez a ideia de publicar a revista Bombastic em 2013, encorajada por histórias publicadas nas redes sociais na internet, tendo mais tarde conseguido organizar uma campanha de doadores (crowd-funding) capaz de pagar a publicação em papel.

O corpo editorial da revista é constituído por oito elementos que trabalharam no número inaugural, além de terem contado com a participação de voluntários estrangeiros sobretudo na construção do site que serve de apoio à nova revista.

A revista Bombastic saiu em dezembro do ano passado, na mesma altura em que os deputados tentavam avançar com as novas medidas anti-gay, anunciadas pelos membros do Parlamento como "um presente de Natal".

O primeiro número da Bombastic teve uma tiragem de 15 mil exemplares, que foram distribuídas sobretudo na capital.

Pessoalmente, a editora meteu cópias da publicação nas caixas do correio na casa de parlamentares como David Bahati, autor da última versão da legislação anti-gay que propunha a pena de morte para os homossexuais, no gabinete da presidente do Parlamento, Rebecca Kadaga, apoiante da legislação, e no local onde funciona o gabinete do Presidente Yoweri Museveni.

Nabagesera disse que ainda não recebeu qualquer resposta dos políticos a quem mandou as cópias da revista mas soube que a "mulher do chefe de Estado se recusou a abrir a Bombastic".

Igrejas, quiosques, táxis em todo o país também receberam exemplares da publicação através de um grupo de mais de 130 voluntários que se encarregaram da distribuição a nível nacional.

Por outro lado, o ministro Simon Lokodo, responsável pelas questões relacionadas com as etnias, já disse que a editora da Bombastic pode vir a ser presa por estar a fazer a apologia e a promoção da homossexualidade.

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