Gás da indústria subiu 37% "Parabéns à Galp. Compra barato, vende caro"

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Os preços do gás natural para a indústria subiram 36,5% desde 2009 e, no primeiro semestre, estiveram mais caros do que em todo o ano passado, revelam os dados de setembro da Direção Geral de Energia (DGE) e do Eurostat, compilados pela Associação Portuguesa da Indústria de Cerâmica (Apicer).

Mercado livre do gás natural triplicou em sete meses. Leia aqui

"No ano passado, Portugal era o país com o preço do gás mais elevado, quando comparado com Espanha, França e Itália", países onde as condições para a produção de cerâmica são mais semelhantes a Portugal, concluiu a Apicer. E, se comparados com a média dos 27 países da Europa, os preços em Portugal têm estado entre 5% a 10% mais caros nos últimos quatro anos.

Desta vez, a culpa não é da crise nem dos impostos, porque apesar do IVA estar mais alto, as indústrias são ressarcidas desse valor. De acordo com o presidente da Apicer, Duarte Garcia, a maior subida de preços registou-se a partir de janeiro de 2009, logo após a liberalização do mercado, ou seja, quando o regulador deixou de fixar tarifas e a Galp passou a definir os preços de venda ao consumidor industrial

"Desde que houve a pretensão de liberalizar o mercado que há um operador único e, à conta disso, vão subindo as margens, comprometendo a competitividade da indústria", acusou Duarte Garcia, ao Dinheiro Vivo. Segundo este responsável, apoiado pelos mesmos dados da DGE e do Eurostat, em 2012 os custos de importação, ou seja, o preço a que a Galp compra gás natural à Argélia e à Nigéria, foi de 7,9 euros por gigajoule; já o preço de venda à indústria foi de mais de 11 euros por gigajoule.

"No preço de venda, sem taxas, verifica-se que, face ao preço de importação, a margem praticada em Portugal é de 43,3%, mais elevada do que em Espanha (37,9%, França (28,8%) e Itália (11,7%)", refere a Apicer. E ,"no primeiro semestre de 2013, a margem entre o preço de importação e o preço de venda na indústria, sem taxas, mantém-se elevada, nos 41,3%", referem os industriais de cerâmica.

"Parabéns à Galp. Sabe comprar bem. Compra mais barato que a generalidade dos operadores noutros países, mas cobra mais caro. Este desequilíbrio mata-nos", diz, irónico, o presidente da Apicer.

"Liberalização não existe"

Duarte Garcia considera que a liberalização está a ser mais prejudicial que benéfica. "Quer a quota de mercado do comercializador principal, quer a comparação com os preços para a indústria entre Portugal e os nossos principais concorrentes, provam que a pretensa liberalização na prática não existe", denuncia um comunicado da Apicer.

Em causa, diz Duarte Garcia, está a "inépcia dos intervenientes do sector", mais precisamente o Governo e a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), a quem a Apicer aponta o dedo por ainda não terem eliminado os constrangimentos à liberalização.

Contudo, ainda esta semana, num seminário sobre eletricidade e gás, tanto o presidente da ERSE, Vítor Santos, como o secretário de Estado da Energia, Artur Trindade, concordaram que há falta de concorrência no gás natural e adiantaram que estavam a preparar medidas para alterar a situação. Na semana passada, Duarte Garcia reuniu com o ministro do Ambiente e da Energia, Jorge Moreira da Silva, "que se mostrou um profundo conhecedor do assunto".



Gás pesa 25% a 30% nos custos de produção


O presidente da Associação Portuguesa da Indústria de Cerâmica sabe que a quebra na produção não está apenas relacionada com os elevados custos de energia, mas considera que tem um grande peso na situação que o sector atravessa. Mais precisamente 25% a 30% é quanto representam os custos com o gás natural.

As consequências estão à vista. "Tem havido um processo contínuo de encerramento de empresas e de despedimentos", diz, alertando que a crise é mais significativa no segmento das cerâmicas planas, ou seja, pavimentos e revestimentos. Neste caso, a produção e as exportações caíram para metade nos últimos três anos. "Os fornos estão parados", conta.

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