De Alcoitão para o resto do país, há uma equipa que reabilita à distância

A pandemia foi o propulsor de um projeto que aposta num programa de telerreabilitação e que é desenhado à medida de cada paciente.

Perante uma adversidade nasce sempre uma oportunidade." Quem o diz é a médica fisiatra Isabel Amorim, e resume o espírito que preside ao novo projeto do Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão. Obrigados a suspender as consultas externas durante dois meses devido à pandemia, médicos e terapeutas puseram mãos à obra e responderam em primeiro lugar com consultas à distância e agora com a telerreabilitação.

Inaugurado há 54 anos, o Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão, no concelho de Cascais, é uma referência que serve portugueses com deficiências motoras de todo o país. Quando Portugal entrou em estado de emergência, também esta unidade de saúde se viu na contingência de tomar medidas, como a diminuição da capacidade máxima de doentes internados (de 144 para 95) e a suspensão de todas as consultas externas.

"Os doentes em acompanhamento em regime ambulatório sofreram de facto um atraso porque tivemos de interromper os tratamentos durante dois meses. E depois ao retomar não foi logo com a mesma intensidade", reconhece o diretor de serviço do Centro de Reabilitação, Jorge Jacinto. "A única forma de superar isso, de chegar aos doentes - prossegue - foi através da teleconsulta, por chamadas ou videochamadas, para dar apoio. Foi a nossa solução para que as pessoas não sentissem que estavam abandonadas, e por outro lado, para nós, profissionais, não perdemos o fio à meada no acompanhamento daquela pessoa."

A experiência, de "largas centenas de teleconsultas", a utilidade e a satisfação dos utentes deram ânimo para que o Centro desse o próximo passo: a telerreabilitação. Jorge Jacinto diz que a ideia estava a ser maturada antes da pandemia, um projeto que passa por ensinar aos doentes programas de exercício, de postura e uma série de regras, e depois acompanhá-los à distância.

"Não só um bocadinho de coaching, isto é, uma mistura de treino e incentivo, mas por outro lado para poder ajustar, porque por vezes o que se ensina aqui não é viável no contexto do domicílio. Se só dissermos "Vai fazer assim e venha cá daqui a três meses", isto não é viável", exemplifica.

O Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão disponibiliza vídeos com exercícios aos doentes, os quais são acompanhados por uma equipa multidisciplinar. Num segundo momento existirá uma plataforma própria.

"Nós já tínhamos pensado no desenvolvimento de uma plataforma e aquilo que estamos a fazer é criar uma base de conteúdos para o desenvolvimento desta plataforma interativa digital com recurso a biofeedback, uma plataforma de reabilitação neurológica e musculoesquelética com recurso a dispositivos conectados, wearables, que nos permita monitorizar os resultados à distância e também receber alguns alertas caso haja alguma evolução menos favorável ao longo do projeto de telerreabilitação."

"A telerreabilitação é uma estratégia importante desde que bem prescrita, bem implementada e bem supervisionada, uma vez que permite facilitar o acesso aos cuidados de saúde de reabilitação, a aproximação entre os utentes e os profissionais de saúde e, o que é muito importante, a corresponsabilização do doente e dos cuidadores informais", afirma Isabel Amorim.

"O programa de telerreabilitação só funciona se realmente for individualizado e pensado para cada doente em particular. Portanto, tem de haver a supervisão e a adaptação do programa ao longo de todo o programa de reabilitação pela equipa multidisciplinar", comenta o fisioterapeuta Joel Pais.

Quais são os grandes desafios desta proposta de terapia? Antes de mais, recorda Joel Pais, "o maior desafio era lidar com os constrangimentos da tecnologia". Mas os profissionais da saúde acabaram por se habituar e passaram a "lidar com naturalidade", pelo que hoje, "fazendo as devidas adaptações no momento, quer da parte do doente quer da nossa parte, as coisas têm estado a correr melhor".

E por parte do paciente? "O principal desafio foi conseguir fazer exercícios que fossem adequados àquele doente em questão, mas que fossem suficientemente simples de forma a minimizar o risco de ele os fazer mal."

Pais defende que o sistema tem "potencial" nalguns utentes. "Os doentes têm de ser criteriosamente selecionados. Em casos musculoesqueléticos, a percentagem de doentes que irão beneficiar da telerreabilitação é muito maior." Ainda que não possa ser adequado a todos, "em especial os que padecem de patologia neurológica", a ideia veio para ficar, independentemente da pandemia. "É uma forma muito eficiente de fazer as coisas com benefícios quer para nós, quer para os utentes, quer para a sociedade em geral", alvitra Jorge Jacinto.

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