Uma vida a saltar de sucesso em sucesso

Ana Rente é considerada a melhor ginasta de trampolins de Portugal. Aos 30 anos, e com noção de que um atleta tem "prazo de validade", em 2017 fez uma pós-graduação em Medicina Desportiva, com uma bolsa da Santa Casa

A terminar a especialidade em Medicina Geral e Familiar, Ana Rente sente que a sua carreira nos trampolins enfrenta agora um novo desafio, dadas as dificuldades em conciliar o trabalho com a competição. "Quando estamos a trabalhar as coisas não são tão fáceis. Neste momento, tenho de cumprir 40 horas semanais e depois tenho de cumprir as horas de treino. Basicamente é uma correria entre acordar, ir trabalhar e ir a correr para o treino. Vai-se fazendo. A única sensação que gostava de não ter era estar a fazer duas coisas e nenhuma delas estar a ficar bem feita. Acho que até agora tenho conseguido fazer bem isso."

A atleta de 30 anos, que é considerada por muitos como a melhor ginasta de trampolins portuguesa - já esteve em três Jogos Olímpicos, uma competição em que só participam os 17 melhores ginastas do mundo -, tem noção de que, com a idade e as responsabilidades profissionais a aumentarem, chegará o momento em que terá de pôr um ponto final na carreira. "Não consigo fazer planos a longo prazo. É dia a dia, prova a prova." Reconhecendo que terminar a carreira é sempre uma decisão complicada, a ginasta de Tomar sabe apenas que gostaria de o fazer "enquanto estiver bem ainda". Ou seja, "terminar em grande". "Quero ter uma prova muito boa e sair em grande, mas também isso levanta outras questões, como por exemplo porquê sair se estou tão bem?"

Das acrobacias aos saltos

Habituada a treinar desde os 7 anos, Ana Rente sublinha que mais de duas décadas depois ainda não perdeu esse gosto, embora os trampolins não tenham sido a sua primeira escolha e a adaptação não tenha sido fácil. Começou pela ginástica acrobática, até a sua parceira de dupla ter sido obrigada a sair de Tomar rumo a Lisboa para estudar. "Era aquela pessoa que andava lá aos pinotes, a fazer uns mortais e pinos - umas coisas giras - e depois, de repente, já tinha de ser a pessoa que vinha cá para baixo e mandava os outros ao ar, e isso eu não gostei muito", recorda.

Como os saltos eram praticados no trampolim, antes de passarem para o solo, Ana viu nessa modalidade uma ótima forma de continuar a fazer o que mais gostava na ginástica acrobática, mas agora acompanhada apenas pela lona. Aos 12 anos estreou-se na modalidade em que viria a destacar-se a nível nacional e internacional - foi campeã da Europa, em 2004, um feito inédito para Portugal. A adaptação aos trampolins não foi fácil: "Na acrobática temos de ser rápidos, no trampolim temos de esperar pelo tempo da lona. Tudo isso foi uma adaptação que durou algum tempo." Nada que a desmotivasse. Pelo contrário: "Era daquelas crianças que queria sempre mais. Adorava saltar e ia mais cedo para o ginásio para aprender saltos novos, por mim, para aprender aquele salto que o treinador dizia "espera mais um bocadinho que ainda és muito nova" e eu queria aprender logo."

Uma determinação que o treinador Carlos Nobre - que faz equipa com Luís Nunes - lhe reconhece. "Não só como ginasta, mas como pessoa, ela é superdeterminada. Até na brincadeira costumamos dizer que ela escolheu a profissão certa, médico de clínica geral, porque ela é superdespachada e decidida e sempre foi assim. Muito trabalhadora." Garante que nunca houve um dia em que os dois treinadores do Lisboa Ginásio Clube tivessem sentido que a ginasta não estivesse a dar o seu melhor, mesmo nos treinos.

Com treinos diários de duas horas e meia, Ana Rente prefere treinos em que o atleta chega e faz as séries de saltos que estão programadas, sem necessidade de estar a repetir vezes sem conta. "Como é só um aparelho, o facto de treinarmos muito uma coisa às tantas cansa e não conseguimos ter o mesmo rendimento. Acredito naquele treino em que são 20 passagens no trampolim, são aquelas passagens certinhas, a pessoa chega, faz as 20 passagens e vai-se embora. Acho que isso é muito mais rentável."

Três Olímpicos consecutivos

Um foco no treino que foi fundamental para que estivesse presente em três Jogos Olímpicos consecutivos: em Pequim (2008), onde acabou em 16.º; em Londres (2012) e no Rio de Janeiro (2016), onde foi 11.ª classificada.

A primeira vez que Ana Rente acreditou que podia chegar ao topo das competições foi quando se sagrou campeã da Europa de juniores em 2004. Quatro anos depois estava a ver "os cromos" da televisão ao vivo e a cores na aldeia olímpica de Pequim. "Os melhores atletas de todo o mundo estão concentrados todos no mesmo local e isso foi espetacular." Outra novidade, explica Ana, foi o número de pessoas que acompanham estas provas nas competições internacionais, porque normalmente em Portugal quem está a ver são os familiares e amigos dos atletas. "O facto de estarmos num pavilhão cheio de pessoas e muitas delas nem sequer estarem familiarizadas com os trampolins, a ponto de aplaudirem cada salto quando uma série tem dez e é suposto estar tudo em silêncio e nós concentrados, dá uma dimensão muito diferente."

E agora que não sabe se estará noutros Jogos, Ana Rente espera de alguma forma continuar ligada ao desporto. Por isso, pediu uma bolsa à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa para fazer uma pós-graduação em Medicina Desportiva. Um apoio "fundamental" que foi duplamente bem-vindo. "Sentimos aquela pressão extra em ter bons resultados quer na carreira desportiva quer na carreira académica, porque a bolsa exige que tenhamos 50% dos créditos feitos e, portanto, temos de passar a cadeiras para continuar a ter essa bolsa." Além disso, a bolsa permitiu-lhe fazer uma formação que "era cara" e que só fez por ter acesso a este apoio.

Focada em preparar alicerces para a sua carreira no futuro, quando já não estiver em cima da lona, Ana Rente fica sem jeito ao falar sobre uma nova geração de ginastas de trampolins que vê nela um exemplo. Mas o treinador Carlos Nobre sublinha que o seu trabalho torna-se mais fácil quando a atleta está a saltar, porque os mais novos "vão atrás do que estão a ver" e porque "ela tem uma interação espetacular com os miúdos". Ana Rente até admite que isso pode acontecer, mas não se vê nesse papel. "Nunca me senti assim, não faz parte da minha personalidade ver-me dessa forma. Faço as minhas coisas, vou aos treinos, provas, tento sempre dar o meu melhor. Sei que sou exemplo para algumas pessoas, mas não encarno esse papel."

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