Projeto InterAge quer juntar toda a comunidade no centro de dia

Programa visa requalificar centros de dia e abrir as atividades a toda a população de todas as idades

Júlia e Natália são duas das 66 utentes que habitualmente frequentam o Centro de Desenvolvimento Comunitário da Charneca, em Lisboa. O espaço que começou por ser centro de dia e creche está agora aberto a toda a população com atividades como o ioga, teatro, expressões plásticas, costura criativa, ginásticas variadas, ateliês de culinária. Tudo isto faz parte do programa InterAge da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que foi lançado, no início do ano, em cinco estabelecimentos, depois estendido a outros cinco e que será alargado aos 21 centros de dia, até 2026, quando terminarem todas as obras de requalificação.

"No fundo, pretende ser uma resposta a qualquer pessoa de qualquer idade que queira frequentar um equipamento da Misericórdia com atividades apelativas, viradas para pessoas não só mais novas, mas também idosos mais qualificados que procuram outras atividades", descreve Isabel Abreu, a diretora do centro da Charneca. A oferta das atividades depende do tipo de população que procura cada centro, acrescenta.

No caso do espaço da Charneca, o processo foi "muito participativo", com os idosos a serem ouvidos sobre como queriam que o espaço funcionasse e com que atividades, mas também participaram as juntas de freguesia e associações que trabalham em conjunto.

"Queremos ter gente nova, só os caducos não interessam"

Natália Henriques, de 78 anos, está no centro há dez e já não vê a sua rotina sem as atividades que aqui faz. E até funciona como uma motivação para sair à rua mais arranjada. "Gosto de vir como deve ser", justifica-se.

Só não passa mais tempo no centro no ioga, teatro, crochet ou a ajudar as crianças da creche, porque ao fim da tarde tem que levar o seu cão - Ben - à rua e, ocasionalmente, tem o filho a almoçar em sua casa e também já não vai ao centro. "Mas telefono sempre a avisar."

Para Natália, a família que encontrou aqui contribui muito para se sentir melhor. "Sinto-me melhor em tudo: para a saúde e para o ânimo", resume, no final de mais uma aula de Yoga, desporto que pratica há três anos.

A chegada de pessoas mais novas que podem partilhar as atividades no centro são bem vista pela idosa - "queremos ter gente nova, só os caducos não interessam." Espera até que com essa interação venha a aprender como se usa um smartphone ou um computador. Apesar das dificuldades de memória que diz sentir desde que sofreu um derrame cerebral, em 2003, em conseguir aprender coisas novas.

Também Júlia Soares, de 71 anos, está entusiasmada com esta abertura do centro a toda a população. Como utente sénior, garante que o centro a ajuda "a manter a cabeça fresca" e assim sentir-se mais jovem.

Para os mais jovens ainda em idade ativa deixa o conselho: "Quando se trabalha e somos mães queremos facilitar a vida a todos e esquecemo-nos de nós. É importante dedicarmos tempo a nós. Agora já me dedico mais a mim." E uma forma de dedicar tempo a si é frequentar as várias atividades do centro (do ioga ao teatro) e que Júlia espera que os moradores do bairro saibam que existem e possam passar por lá também. Para entrar nas atividades e "conviver". Ou não fosse uma das mais-valias do centro "as palavras de conforto" que recebe quando está mais em baixo.

Um espaço para pessoas de todas as idades

Isabel Abreu reconhece que uma pessoa aos 65 anos (idade da reforma) não é o mesmo que aos 85. Daí que o centro também sentisse a necessidade de se reformular, uma vez que as pessoas não são logo idosas quando deixam de trabalhar. "Há muitos idosos ativos, muitos já com mais cultura, quase todos aderiram muito bem aos tablets, quase todos têm Facebook, o centro tem Facebook e eles participam", refere a responsável pelo centro desenvolvimento comunitário da Charneca. "Antigamente vinham jogar às cartas e fazer crochet", compara. Hoje, as coisas estão diferentes: "As assistentes dizem que gerem agenda dos idosos, alguns que ainda vão buscar os netos, têm consultas, aulas, atividades culturais fora do centro, idas a espetáculos."

Estando numa zona já nos limites da cidade de Lisboa, Isabel Abreu sublinha a importância do centro tentar ter uma resposta dinâmica que responde às necessidades desta população. "O espaço é deles e eles apropriaram-se dele. Criaram uma dinâmica no bar do centro, com a criação das hortas. Eles apropriaram bem o espaço", elogia Isabel Abreu.

Além dos 66 utentes sénior, o centro tem uma creche com 77 crianças. E já antes de integrarem o programa InterAge promoviam a ligação entre as duas valências do centro. Nomeadamente, com o apoio à hora de almoço das crianças feito pelos utentes mais idosos ou com a visita às quintas-feiras de duas idosas que vão às salas contar histórias. "As crianças até os chamam avós", refere a diretora.

Agora, a estas duas valências, junta-se a abertura à comunidade para vir a uma das atividades e depois vai à sua vida. Pode ser uma pessoa que quer fazer ginástica, ou frequentar o ateliê de costura, que só vem para isso.

O objetivo último é desmistificar a imagem de um centro de dia. "Parece que se uma pessoa ser reformar aos 60 anos e for para um centro de dia isso não era muito bom. De facto isto veio mudar as mentalidades e criar uma abertura de que no InterAge estão idosos e outras idades."

12 milhões de euros para promover atividades intergeracionais

O projeto InterAge vai beneficiar mais de 1600 utentes e representa um investimento de 12 milhões de euros. O projeto insere-se no programa Lisboa. Cidade de Todas as Idades, uma parceria da Câmara Municipal de Lisboa e da Santa Casa que assenta em três eixos: vida ativa, vida apoiada e vida autónoma. A requalificação. A recuperação dos equipamentos, que se vão transformar em ambientes intergeracionais e abertos à comunidade, vai ser feita até 2026.

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