Ensinar a falar mesmo quem não têm doenças

Isabel Guimarães é terapeuta da fala e professora de futuros profissionais da área na Escola de Alcoitão. Destaca-se na área por apoiar profissionais que usam a voz no dia a dia, como jornalistas, atores ou controladores do tráfego aéreo. Confessa-se mais apaixonada por este trabalho do que a clínica, já que sempre se sentiu frustrada por não conseguir curar todas as pessoas e sublinha o vasto leque de ação de um terapeuta da fala

Terapia da fala é sinónimo de problemas ou doenças. Mas também é sinónimo de profissionais que querem ou precisam de ser mais claros no que dizem. E foi este segundo campo que fascinou Isabel Guimarães, professora coordenadora na Escola Superior de Saúde do Alcoitão (ESSASCML). Por isso, exerce também a função de consultora vocal num canal de televisão nacional (a SIC) e do seu currículo constam atividades como coach vocal da atriz Sandra Barata Belo ou formadora de controladores do tráfego aéreo.

Aliás, a doutorada em fonética experimental até passou por momentos em que duvidou da carreira que escolheu. "Comecei a trabalhar na área da deficiência, com crianças com Trissomia 21, e ficava muito frustrada porque queria pôr as pessoas boas. Tem a ver com o perfil. Mas depois fui trabalhar para um colégio com crianças sem problemas e aí já achei graça."

Esta primeira desilusão e posterior encontro com a sua vocação aconteceu já depois de ter chegado ao curso por acaso. "Não fazia a menor ideia que existia terapia da fala. E sou daqueles casos de miúdas que gostava de fazer tudo e não sabia o que queria. Era atleta de alta competição, era da música, fazia campos de férias com crianças, ou seja, tudo o que fosse novidade, eu fazia." Na hora de escolher um curso, o feliz contemplado foi o de veterinária, mas Isabel acabou por ficar à porta por umas décimas. Zangada, decidiu não continuar os estudos, mas o pai colocou-a a trabalhar "numa escola onde fazia os piores trabalhos, como ter de ficar à espera dos pais que se atrasavam". A má experiência de um ano letivo levou a terapeuta a voltar a considerar os estudos e foi aí que uma amiga lhe falou na terapia da fala na escola de Alcoitão. "Inscrevemo-nos. Eu entrei e ela não. Foi muito aborrecido", recorda.

Início indeciso dá carreira de sucesso

Isabel Guimarães até pode não ter sonhado com uma carreira como terapeuta da fala desde tenra idade, mas a área acabou por conquistá-la definitivamente e construiu uma carreira invejável. Entre a formação de futuros terapeutas até ao treino e aconselhamento que dá a vários profissionais que têm na voz o principal instrumento de trabalho.

O encantamento pela profissão começou justamente quando chegou à Escola Superior de Saúde de Alcoitão (que pertence à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa), e percebeu que a possibilidade de ensinar se juntava à de "todos os anos poder estar um tempo no hospital" como o Dona Estefânia ou a Faculdade de Medicina Dentária, por onde passou.

Não passaria muito tempo a ser convidada para dar formação a jornalistas - uma ligação que ainda hoje mantém -, e a outros profissionais como atores, cantores e controladores do tráfego aéreo. Sim, leu bem. Quando foi contactada para essa formação, a própria Isabel Guimarães achou estranho, mas a verdade é que a forma como falam é fundamental para quem comunica com os aviões via rádio. É uma questão de "prosódia", ou seja, "a sonoridade da forma como falamos". No caso do controlo do tráfego aéreo a missão do terapeuta da fala é evitar que hajam muitas variações nessa sonoridade. "Quando estamos a enviar mensagens via rádio para uma pessoa que não nos está a ver é preciso que não haja dificuldade de compreensão e uma das coisas que percebi é que a mínima variação pode causar problemas", explica.

No cinema a tarefa foi bastante diferente, mas igualmente desafiante. Ajudou Sandra Barata Belo a imitar a fadista Amália Rodrigues no filme homónimo. Era preciso que a atriz conseguisse fazer a voz falada (a cantada era playback) da fadista nas diferentes fases da sua vida, da juventude à velhice. O que obrigou Isabel a procurar registos de voz em que Amália dizia as palavras que estão no guião. "Como a maior parte dos registos são de Amália a cantar, foi muito difícil encontrar gravações em que ela fala", admite.

Mas o aconselhamento profissional que continua a fazer é com os jornalistas televisivos. Nesse caso, Isabel fica na redação, dá conselhos aos pivôs, mas também ajuda os repórteres a manter um tom de voz adequado à reportagem que vão emitir. Depois apoia também os professores que são alvo de um desgaste vocal muito grande com o passar dos anos e lhe batem à porta da clínica. Ou ajuda profissionais que precisam de fazer apresentações em público e com os quais tem de trabalhar "a voz, a comunicação e a presença".

Uma variedade de situações profissionais que mesmo assim são classificadas por Isabel Guimarães como "uma gota de água no oceano de um terapeuta da fala". Porque "um terapeuta trabalha em áreas tão diferentes como a da deglutição, até com bebés na neonatologia para amamentação ou idosos com Alzheimer".

Importância da voz e competitividade

O trabalho de Isabel foi-se afastando do que é feito com pessoas com doenças à medida que a própria sociedade se foi tornando mais competitiva. "As pessoas querem ser cada vez mais especialistas e, portanto, também querem dominar a ferramenta que têm de usar. Se tenho de usar a voz no meu trabalho quero saber como não ficar sem voz. Mas o momento de viragem tem a ver com o início das campanhas de prevenção, como as do Dia Mundial da Voz [que se assinala a 16 de abril], que já têm alguns anos."

Não querendo ficar sem voz, recebem de terapeutas como Isabel alguns conselhos. O que acontece normalmente é que quando começam a ficar com a voz cansada, "as pessoas pensam "tenho que me calar para que a minha voz não se gaste mais"". Ora, "o que está acontecer é que nós temos dois músculos que estão a funcionar e eles estão cansados". "É óbvio que o repouso ajuda, mas não significa que eles no dia a seguir já estejam a funcionar novamente bem."

Então para evitar este problema a solução é adotar a mesma estratégia de que quando se faz desporto, já que estamos a falar de músculos: "Primeiro fazer o aquecimento, depois faço o uso e no fim a descontração ou alongamentos."

Antes do momento em que se vai usar muito a voz - por exemplo no caminho para o trabalho -, deve então fazer-se sons agudos, para que as cordas vocais se aproximem uma da outra ou vibrar a língua, para que se faça uma massagem às cordas vocais, que assim "ficam ativas. É como o cafezinho da manhã". No final, o objetivo é evitar usar a voz, logo o conselho é engolir, ou fazer um bocejo para que as cordas descansem. Outra solução é fazer massagens na garganta.

Truques que Isabel ensina aos seus doentes, mas também aos seus alunos que mais tarde poderão aplicar aos seus doentes. E é este trabalho multifacetado que continua fascinar Isabel Guimarães, mais de 30 anos depois de ter começado a carreira.

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