Fechou-se em casa até que o teatro lhe devolveu o sorriso

Alexandre é um jovem de 19 anos que, depois de um período difícil, descobriu no teatro terapêutico e no programa Ocupa-te+ da Santa Casa novas razões para acreditar no futuro.

Alexandre Horta não teve uma adolescência fácil. A morte da bisavó, o suicídio do melhor amigo e o bullying de que era alvo na escola deixaram-no à deriva. A mãe procurou apoio psicológico para o filho, há cerca de dois anos, e foi aí que o seu caminho se cruzou com a unidade W Mais e a vida de Alex voltou a ganhar algum sentido. De menino tímido, que ficava no seu canto, Alex (como se apresenta) passou a ser um jovem que fala "pelos cotovelos", tudo graças "à psicóloga Sónia".

O W Mais é, para o jovem de 19 anos, mais do que teatro, "é mais uma família". A "mãe" é a psicóloga Sónia Santos, responsável pelo projeto do teatro terapêutico e pelo programa Ocupa-te+. A Unidade W Mais existe desde 2003 e procura combater e prevenir os comportamentos de risco - começou por ser vocacionada para jovens, mas hoje já tem utentes dos 8 aos 80. Com uma filosofia muito baseada nas relações que se estabelecem com os utentes, trabalham no espaço 17 psicólogos.

Os jovens que aqui chegam vêm encaminhados pelas comissões de proteção de crianças e jovens, pelas equipas de apoio ao tribunal de Lisboa ou do Instituto de Reinserção Social. São normalmente adolescentes "com imensos comportamentos de risco. Se falarmos da faixa etária dos 16 anos, têm uma escolaridade que não ultrapassa o 5º, 6º ano de escolaridade, normalmente de famílias monoparentais e muito destruturadas", explica a psicóloga responsável pelo núcleo dos jovens.

Na chegada à unidade, os jovens são submetidos a uma tripla triagem: com uma enfermeira, uma psicóloga e uma técnica de serviço social. Depois é estabelecido um plano terapêutico individual. No caso do Alex, além da terapia individual, "também foi pensada a sua integração num grupo de pertença onde sentisse que o seu lugar estava assegurado e que não era vítima de bullying para mudar o seu padrão, a sua visão e a sua autoimagem", explica Sónia Santos.

Nesse sentido, Alex foi encaminhado para o grupo Ocupa-te+, destinado a jovens que estão em situação de desocupação e depois acabou por ser também encaminhado para o teatro terapêutico - "sentimos que em palco os jovens conseguem muitas vezes trabalhar as questões que muitas vezes através da palavra não conseguem".

De calado ao mais conversador da sala

Alex nunca tinha pensado no teatro. "Sou mais da música e do desenho", reconhece. Até que na W Mais fizeram um exercício em que tinham de fazer uma peça de teatro através de uma notícia. Depois dessa experiência, a psicóloga decidiu convencer Alex a entrar no grupo de teatro. Foi "muito nervoso" que o jovem chegou ao grupo, receoso não pelos ensaios e o trabalho com o grupo, mas com as apresentações finais "em palcos grandes, com muitas pessoas".

Mesmo não tendo gostado de ouvir que teria de enfrentar o público, Alex experimentou e, para surpresa até do próprio, estar em palco foi bom. "Mesmo estando imensa gente, gostei imenso." Mais surpreendente ainda: o momento preferido de Alex é estar em palco. "Gosto de praticar a peça, mas depois quando estamos em palco e estamos a olhar para as pessoas e vemos as reações que provocamos é muito bom, o medo desaparece, vemos as pessoas a bater palmas e é um sentimento muito bom."

Com o teatro Alex venceu não só o medo de estar em palco, mas também conquistou terreno à timidez do dia-a-dia. O próprio descreve que "antes passava a maior parte do tempo calado" e que agora, graças ao trabalho da psicóloga Sónia Santos e do animador Valdo, fala "pelos cotovelos".

Confiança que certamente retirou das personagens que já representou. "Já fui amigo, pai e até uma espécie de ajudante de uma bruxa". Este último papel foi numa curta-metragem de terror e até agora é o preferido, porque conseguiu "ser muito melancólico, negro e é um pouco aquilo que sou".

Ou não tivesse já Alex ultrapassado tempos negros. Como os que viveu na escola, onde acabava gozado por causa do problema de acne. "Não podia entrar na cantina da escola que começavam a ir-se embora e a dizer "o monstro chegou", quando saía da escola seguiam-me, davam-me porrada e cuspiam-me, porque não me queriam lá. E eu com o medo comecei a refugiar-me em casa e não queria ir", recorda.

Foi esse motivo que levou Alex a desistir da escola. Foi também depois disso que perdeu a bisavó, que morreu no dia do aniversário de Alex e, pouco tempo depois, perdeu também o melhor amigo. "Foi um tempo muito difícil para mim, porque não tinha ninguém. A minha mãe passava muito tempo a trabalhar - e ainda passa - e eu não conseguia falar com ninguém, passava os dias sozinho." Até que a mãe procurou ajuda e Alex conheceu a W Mais.

Sonhar com a profissão que lhe mudou a vida

Passados dois anos, Alex frequenta a unidade W Mais com menos assiduidade. Já só se desloca lá quando tem consultas com a psicóloga - que hoje já são muito mais esporádicas - e para os ensaios do teatro, que acontecem uma vez por semana. Durante uns tempos, Alex deu aulas de guitarra, que conciliava com o desporto - é um fã da corrida.

Para o futuro, o jovem admite que ama o teatro ("nunca pensei que ia amar tanto o teatro", confessa), mas não vê aí o seu projeto profissional. Sonha, antes, com a profissão que lhe mudou a vida: psicologia. "O que eu queria fazer de futuro era ser psicólogo ou então animador, mais ou menos como se faz aqui no Ocupa-te+ para puxar os adolescentes e as crianças". E é para este último cargo, que Alex se prepara mais afincadamente.

"Estamos a tentar que eu seja monitor para o ano que vem e mais ou menos a partir de agosto vou começar a minha formação de animador", revela, como forma de mostrar que "o plano está em andamento". Para já deixa a certeza que está a tentar e que está "no bom caminho".

Exclusivos

Premium

EUA

Elizabeth Warren tem um plano

Donald Trump continua com níveis baixos de aprovação nacional, mas capacidade muito elevada de manter a fidelidade republicana. A oportunidade para travar a reeleição do mais bizarro presidente que a história recente da América revelou existe: entre 55% e 60% dos eleitores garantem que Trump não merece segundo mandato. A chave está em saber se os democratas vão ser capazes de mobilizar para as urnas essa maioria anti-Trump que, para já, é só virtual. Em tempos normais, o centrismo experiente de Joe Biden seria a escolha mais avisada. Mas os EUA não vivem tempos normais. Kennedy apontou para a Lua e alimentava o "sonho americano". Obama oferecia a garantia de que ainda era possível acreditar nisso (yes we can). Elizabeth Warren pode não ter ambições tão inspiradoras - mas tem um plano. E esse plano da senadora corajosa e frontal do Massachusetts pode mesmo ser a maior ameaça a Donald Trump.